Toda sexta-feira a Revista AzMina publica um capítulo do romance de folhetim “Nascem Flores no Asfalto”, de Mariana Lozzi. Leia os próximos capítulos aqui.

Foto: Giovani Frisenda

A ciranda de corpos me envolvia em uma vertigem matemática. Diante de mim uma linha somente, sem curvas. Espreitava abismos simétricos. As tintas escuras se mesclavam com cores mais amenas, do dia, o ar cheirava a capim e bosta. Ao meu redor, crianças marchavam com mochilas diminutas nas costas, alguns pais as puxavam pelas mãos, outros já haviam desaparecido no interior dos carros blindados. A pressão da gola da camisa sobre o meu pescoço indicou que a Dorinha puxava a barra da blusa no desvairo dos seis anos. Ela me convidava para o adiante, queria repartir divertimentos comigo, sabia que não faltava muito para que eu também desaparecesse no interior de um carro blindado.

Eu retinha entre os braços uma caixa que tomava quase toda a minha visão. Os pulsos fremiam, os cotovelos vacilavam. Tentava me orientar no fuzuê dos corpos pequenos, seguia os passos das crianças cujas alturas se igualavam às dos meus filhos, chamava-os para perto sem ter certeza se eram eles que me escoltavam ou se já haviam se dispersado pátio adentro ou nas salas de aula. Menos a Dorinha – ela me agarrava com a gana de vencer afogamentos. Os ombros ardiam em uma câimbra lenta e a manhã escorria morna, caudalosa. A primeira gota de suor despencou da fronte.

Vai com a tia, vai, filhota. A mão diminuta puxou a barra da minha blusa e os botões se abriram em sincronia. A caixa presa entre os meus braços foi ao chão em um baque surdo e os potes de tinta guaxe rolaram para longe, alguns jaziam quebrados, estúpidos como cascas de ovos. Papel ma­chê, cartolina, tubos de cola e outros emblemas da infância se misturaram em um frenesi doido, eles tinham a privacidade resguardada por uma nuvem de purpurina. Algumas crianças abriram berreiro ao ouvir o som de vidro estilhaçado, inaptas a se divertirem com acidentes coloridos tão longe de casa e assim cedo na manhã. Outras, já despertas, correram em minha direção, arrebatadas pela a revolta do material de artes e dispostas a mergulhar as mãos em poças de lama brilhosa. É assim que imagino a cena, apesar de dela só ter experimentado os sons. Apressava-me em fechar os botões da camisa enquanto palavrões percorriam a língua.

Uma das professoras vinha ter comigo.

Dona Olívia, a senhora está bem? Parece que sente dor, machucou-se? Não se preocupe com a bagunça, a Francisca vai dar um jeito nisso, acho que a maioria do material se salvou, então fique sossegada. A roupa está um pouco suja, mas nada que algumas horas de molho não resolvam, foram apenas brilhos e respingos… Bobagem, tem gente que diria que ficou bonita assim, parece menina de novo, juro de pés juntos. Imagina, dona Olívia, essas coisas acontecem, as crianças estão seguras, ninguém se machucou, tomaram susto apenas, olhe, seus filhos estão logo ali, nem se sujaram, parecem de porcelana, eles acenam, vê como estão bonitos nessa luz? O mais velho saiu à moda do seu Fernando, tão sério e inteligente, parece que vai fazer coisas importantes, já dá para imaginá-lo de terno, muito elegante. Engraçado como é semente do pai externada e expandida, até me abalo um pouco quando vejo o seu Fernando na televisão e no dia seguinte encontro o menino metido aqui. Ah, mas não são todas as crianças que puxaram a ele, sossegue, a Dorinha é toda você, dona Olívia, linda desse tanto, delicada como só ela, é impressionante como se parecem, as duas.

A professora falava em um rompante, era jovem e tinha os cabelos em caracóis, olhou para mim com olhos muito doces. Os cílios alongados se agitavam como pernas de baratas de caramelo. Eu agradeci e ela seguiu em direção às salas de aula, as crianças se dispersavam aos poucos. Com os botões da camisa finalmente pareados, virei-me para encontrar uma mulher agachada diante de mim. Em pose de garimpeiro, ela submergia os dedos nas poças de tinta com uma curiosidade carinhosa, como se estivesse diante do litoral e içasse pepitas à superfície.

O que está fazendo, Francisca? Endoidou, foi? Vamos, largue de enrolação, onde já se viu tanta demora em desempenhar tarefa simples, apanha os panos e limpa a meleca logo… Anda, sai daí ligeiro para não atrapalhar a aula dos pequenos, que escândalo, já pensou se um deles pisa em caco de vidro por asnice sua? Te botam pra fora daqui às vassouradas, ainda mais depois de tudo que aprontou, aí que te selam o couro.

Ao meu lado encontrei a diretora da escola, mulher pequena de garganta napoleônica, a brandir ordens como general em solo povoado por explosivos. Por debaixo da nuvem de cabelos grisalhos ela sorriu satisfeita e se afastou para conduziu os miúdos restantes às salas de aula.

A mulher de cócoras interrompeu o devaneio e passou a raspar os grudes do chão em pose de garimpo. Os pulsos finos manuseavam os panos em um gesto esgotado enquanto os cabelos despontavam por debaixo do boné como raízes que crescem do avesso. Os fios tateavam o ar, revoltosos. Quando se descobriu observada, ela direcionou o olhar à minha tez e eu o devolvi, desafiadora de corpo inteiro. Um retalho de papel ia ao chão em queda lenta, ninada por átomos de poeira.

De súbito, a diretora ralhou com um dos professores e aquela a quem chamavam de Francisca – a mulher de cócoras, de gestos esgotados e olhos famélicos que me visitavam num pesar ardido – direcionou o olhar às próprias mãos. O momento foi ao chão e se estilhaçou em imitação aos vidros de tinta. Tudo de urgente que havia em nós fez-se sopro.

Teimei em achar que a tal Francisca parecia envergonhada por ter metido as mãos em luvas de tinta, as unhas rentes à pele, aparadas sem charme. Um pensamento bonito lavou da cena a brutalidade e me fez piscar os olhos com força. Havia decidido que salvaria aquela mulher da própria miséria. Pobre diaba, de cócoras no chão com a pele do rosto sapecada pelo sol e os lábios travados, em chispe, decerto escondia os dentes porque haviam apodrecido dentro do armário da boca.

Esbocei alguns gestos em direção à bolsa, de onde sacaria a carteira e estenderia algumas notas àquela de olhos baixos. Congelei, porém, antes de abrir o zíper. Tive medo. E se, ao entregar notas bem dobradas à estranha, ela cravasse as íris incendiadas em mim? Algo naquele olhar me punha demente. Pássaros agitavam as asas na gaiola do peito, queriam abrir caminho pela garganta e escapar pela minha boca, rasgar minha pele nos bicos, varar meus ouvidos nos pios.

Meus passos se atropelavam em direção ao portão da escola, pois decidi que a tal mulher me metia medo e me pus doida de vontade de me ver livre da silhueta pardacenta. Imóvel diante do meu reboliço, o porteiro sustentava os braços abertos, como que crucificado no ar para bloquear a entrada de uma mulher de cabelos curtos com uma criança de colo.

Senhora, a creche só aceita miúdos a partir de um ano e dois meses de idade, seu filho tem nem metade disso, é cedo demais, vá para casa –, ele repetia, com a voz pastosa, sonolento e entregue aos ditames da rotina. Irascível, a moça retrucava que precisava ter com a diretora, que ela aceitaria o bebê uma vez que explicasse que era urgente que voltasse ao trabalho, porque as máquinas já haviam esquecido seu toque e era capaz das pessoas também expurgarem seu rosto da memória.

Deslizei para dentro do sedã e, de vidros fechados, comecei o percurso até o número 12 da alameda de canteiros verdejantes. Abri a porta de casa muda, entrei no banheiro e arranquei a roupa do corpo em gestos ríspidos. O espelho acusava que uma galáxia de purpurina se fixara no meu ventre e pintas coloridas cobriam minha bochecha e pescoço, como planetas alinhados. O acidente havia me pintado de universo. As batidas na porta imitavam tambores vodus que me convidavam a submergir no alegre susto de me descobrir viva, nua e coberta de tinta.

Amor? Olívia? A babá ainda não chegou, saia daí, pois seu filho precisa comer, não se faça de surda! A água descia em torrentes mornas, córregos coloridos se extinguiam na boca do ralo. Esfreguei os braços até a pele avermelhar, ensaboei o corpo, fascinada pela espuma que recobria a virilha, como se um matagal multicolor despontasse dela, há tanto tempo lisa. Saí do banheiro com o corpo ainda molhado metido dentro de um camisetão de malha fina, os cabelos gotejavam e os pés deixavam marcas no assoalho. Dentro do berço, Tomás se esgoelava com a cabeça em vermelhidão. Pronto, pronto. Com o leite, escorreu silêncio.

Esse aí tem fome, acho que temos que começar a regular o peito, o bebê está se pondo gordo, vê as dobras nos braços e pernas? Não dá boa impressão, ninguém gosta de glutões, vão pensar que nós curtimos preguiça. Meu amor, ainda não está vestida? O Zé chega a qualquer momento, te avisei ontem, não é possível que seja tão tonta para os assuntos da campanha! Chega disso, Olívia, não quero ouvir mais lamúria, já não basta o bebê gritar como um asno quando quer se empanturrar. Faça assim: ou você vai para o quarto com o menino e espera até acabarmos a reunião ou seca os cabelos e coloca uma roupa decente. Vamos discutir a candidatura, é coisa grande, então pare de me olhar assim, está toda desmantelada vá se mirar no espelho. Olívia, por que está estranha justo hoje? Parece que viu assombração, gripou outra vez? Vá deitar, trate de colocar roupas quentes e calce meias, já estarei com vocês.

Dentro do quarto, lascas de luz vazavam da janela em direção aos armários. Deitado de barriga para cima no edredom branco, Tomás agitava pernas e braços em perseguição à memória do sol. Da boca diminuta escapuliam gritinhos, meu filho se divertia com a habilidade de fazer brotar sons diferentes na largura e na acuidade. Olhava para as mãos miúdas como se fizessem parte da anatomia do quarto, extensão dos móveis, mais uma figura pendurada na parede. O quarto o era e ele era a tudo. O tagarelar ininteligível do bebê e os ruídos do ar condicionado não foram capazes de abafar a voz de Fernando, que atravessava paredes.

Não temos porque pensar em segundo turno, Zé, dá para garantir a eleição no primeiro. A cidade está envelhecida, feia, nem os velhos gostam de velhos, percebe? Querem mais jovens para reerguer o país, trabalhar dobrado, consumir e aquecer a economia, as crianças são o futuro e o motor da campanha, leu as pesquisas que enviei ao seu gabinete? As políticas de incentivo à natalidade se enrijecem, todos adoram as mães, Olívia é prova disso, não podemos sair na rua sem que a cumprimentem, que tirem foto, que peçam sua benção.

Sim, sim, certamente, o anúncio da sua candidatura é prioridade na agenda do partido, sabe que não se fartam de dizer: ‘Nando Morais é aposta certa’ pelos corredores do Congresso. Ninguém duvida do seu cacife, não é essa a questão. Querido amigo, seu mandato como vereador foi de longe o mais popular, você e Olívia sobem no palanque como príncipes, não faz ideia de como dá gosto vê-los sob as luzes, as crianças então, nem se fala… Por falar nisso, Fernando, preciso voltar a perguntar: tem planos para mais um? Sei que já investigamos a possibilidade, mas os marqueteiros insistem que seria uma estratégia fantástica, mais eficaz que qualquer anúncio pago. Ainda está em tempo, percebe, faltam cinco meses para começarmos as viagens e seria delirante se Olívia estivesse de barriga outra vez. Cinco filhos aos vinte e oito anos, Deus do céu, que mensagem isso passa aos eleitores, eles se emocionariam quando vazasse a notícia, posso imaginar o furor da imprensa, as entrevistas.

Largue disso, pois bem sabe que já tinha comunicado a decisão ao partido. Olívia pariu o último há pouco tempo e se pôs cansada, não foi como das outras vezes, tinha dias em que custava a sair da cama. Se te contasse toda a pasmaceira desses dias ia se entristecer, Zé, foi coisa de doido. Primeiro ela se cercou de livros escritos por gente morta e começou a fazer confusão na cabeça, esquecia-se dos dias da semana e falava com o bebê como se fosse menina, inventava nomes. Depois ficou dada a fantasias, leu tanta poesia que custava a falar coisa que se entende. Fazia versinhos brutos, espinhosos, só feiúra, sem acalento. Pode imaginar como me atazanou tudo isso, a ideia de a minha esposa se perder de si e de nós me tirava o sono. A gente ouve tanto falar de mulheres que atravessam para não voltar… Mas durou pouco, o quanto dura um resfriado. Olívia recuperou o viço da pele e da mente, hoje cuida das crianças quase sem ajuda, já fizeram reportagem em cima disso, foi capa de revista.

Segredei tudo isso para dizer que estive em uma reunião ainda essa semana para discutir o quinto filho. Não tente esconder o sorriso, Zé, sei que está salivando. Aceita mais um trago? Aqui, por favor, tente com o whisky… Pois bem, minha esposa está no quarto, parece que pegou resfriado, pode ser sintoma de barriga, ela sempre fica indisposta quando emprenha. Grande amigo, sabe que quero estruturar a campanha com foco nas mulheres, mostrar como as valorizamos, como são preciosas ao país e deixar claro que às mães nada faltará. Precisamos começar a espalhar palavra de um Estado amigo, compreensivo, acolhedor, e não de um Leviatã que pune as desertoras… Sim, sim, meu querido, entendo que as medidas são necessárias, longe de mim querer anulá-las, seria o caos, mas precisamos focar o discurso cada vez mais em histórias de Olívias, entende, em histórias de sucesso. Quanto menos a imprensa noticiar multas, dígitos e prisões mais aptas as mulheres estarão a colaborar. Você sabe como são dadas à emoção, casos tristes as afligem, colocam-se no lugar umas das outras e ficam com ideias tortas, começam a reclamar direitos, organizam-se, é aí que o problema principia.

Deitada no quarto escuro, cada vez menos eu era capaz de fazer sentido das palavras que vazavam das paredes e do vão da porta. Reparava que meu nome emergia vez ou outra, mas parecia que era de outra Olívia que falavam. Eu estava além do verbo, tornara-me maior, anterior a ele. Com os olhos fechados, espreitava imagens que se revelavam caducas, como se estivessem o tempo inteiro escondidas atrás das cortinas e eu só não as tivesse visto por boba incompreensão. Antes de mergulhar em definitivo no sono, imaginei uma mulher de cócoras, com as mãos metidas em uma poça de tinta, a procurar pepitas de ouro.

Dona Olívia? Dona Olívia, ligaram da escola dos meninos, parece que houve um acidente, disseram para a senhora ir lá ligeiro. Os pombos voltaram a bater asas dentro da gaiola do peito. Saltei da cama, vesti uma calça jeans por debaixo da camisa de malha, calcei as chinelas e corri até o carro em um átimo. As mãos tremiam por cima do volante e a vertigem com que as bonitas casas e árvores desfilavam pelas janelas me fez lutar para conter o café da manhã no estômago. Na porta da escola, um aglomerado de pais dava voltas sem finalidade, atordoados que estavam, ou gritavam com os funcionários que cruzavam seus caminhos em gêmeo estupor. Câmeras estavam montadas no centro do pátio e os porteiros, sem saber como proceder, deixavam que curiosos entrassem. Segui o fluxo com os punhos fechados e a respiração curta.

Chovia vidro nos corredores. Através das janelas quebradas era possível ver as salas de aula vazias, o chão polvilhado de caspas translúcidas. O som incessante do estilhaçar me fez virar a cabeça à procura da fonte do barulho, com medo que ela se revelasse há poucos centímetros de mim, pronta para rebentar meu corpo e transformar minha carne em porcelana. Antes que pudesse dar mais um passo, porém, cinco homens fardados me ultrapassaram em trote veloz enquanto um sexto me envolveu por trás e me arrastou para longe do corredor. Lascas de vidro abriam caminho pelas solas dos pés, que se lambrecavam em vermelhidão.

Uma barreira havia sido levantada ao redor do pátio e, atrás dela, pais e crianças espreitavam a cena. Chamei pelos meus filhos, as lágrimas despencavam pelas bochechas e a voz, rouca e desafinada, custava sair. Uma professora se apressou a puxar três crianças pelas mãos e disse: Aqui, dona Olívia, estávamos te procurando. Deixei o corpo esmorecer, a cabeça latejava, percebi que os pés doíam.

Do outro lado da barreira de proteção, era possível ouvir um lamento. O grito não era humano, pertencia à ordem das feras. Calafrios escalaram minha nuca e eu abracei meus filhos, hipnotizada pela cena. A poucos metros de nós, cinco homens carregavam uma mulher, que se contorcia, agarrada a uma vassoura. Um dos policiais apertou seus pulsos até que soltasse o cabo de madeira, que caiu no chão, débil, como peça mínima que se desprende de uma máquina antiga, antiquada.

A mulher agitava membros na tentativa de se libertar do aperto das fardas. Chutava-lhes os coletes e gritava bestialidades, ria até faltar ar, até sumir a voz. A multidão abria caminho para que passassem, esquivavam-se ligeiros, com medo que a prisioneira lhes tocasse as peles e os fizessem doentes, feitiço certo. Somente quando se aproximaram de mim eu a vi. Os mesmos olhos que haviam encontrado os meus mais cedo na manhã os fitavam outra vez. O corpo da faxineira se afastou até virar sombra.

Dona Olívia, esse sangue é da senhora?