Toda sexta-feira a Revista AzMina publica um capítulo do romance de folhetim “Nascem Flores no Asfalto”, de Mariana Lozzi. Leia os próximos capítulos aqui.

Ilustração: Larissa Ribeiro

Olhava para as mãos e as desejava em flores. A pele lisa me aborrecia, queria que ela fosse coberta por borras de café, como as de vovó, cujos dedos eram pequenos e quase translúcidos. Achava que crescer era, precisamente, encolher: ter as pintas ampliadas enquanto a coluna se enroscava em caracol. O nariz e as orelhas, em melodia oposta a do resto do corpo, aumentavam em descompasso, até colonizarem os rostos pequeninos. Achava os penachos de cabelo que vovó penteava sobre a careca lindos e, ainda assim, naturalíssimos. A velhice não me espantava, cresci cercada por ela, conhecia seu cheiro, seu hálito doce, seu toque trêmulo, seu andar coxo.

Os velhinhos estavam em toda parte, desbravavam a cidade com muletas e andadores a antecipar seus corpos. As filas e vagas preferenciais perderam o propósito, visto que eram muitos pares de braços e pernas necessitados de amparo, de gracejos mínimos que dariam trégua às bravatas de todos os dias. Lembro-me de esperar na fila com vovó e ouvir chispes finos atrás de nossas cabeças, acusavam-na de ter se posto demasiado velha, coberta de fragilidades, e, mesmo assim, dobrar décadas como lençóis e carregá-las dentro das sacolas. Quando maldiziam sua idade, a mão de vovó se enroscava na minha e eu sentia tremores invadirem a pele fina, ela revisitava os perigos de ser a si. Com a outra mão enroscada na medalha de santinho, dava de cantarolar as novenas preferidas, fechava os olhos e era possível ver as retinas aflitas através das pálpebras de papel.

O hábito de endossar melodias em público começou na noite em que dona Ângela, nossa vizinha, gritou meu nome no corredor vezes seguidas e disse que judiaram de vovó. Meus pés engoliram os desníveis dos degraus enquanto o vento seco penetrava a camisola fina e dona Ângela antecipava que, assim desnuda, era capaz de pegar friagem. Encontrei vovó estirada na entrada do prédio, de bruços, a cabeça escondida entre os braços e o respirar raso, sentido – queria se fazer invisível. As meias calças estavam rasgadas nos joelhos e um suspiro carmim cobria os cabelos finos. Tentei levantá-la, mas o corpo se agarrava ao cimento áspero, capaz que pensava que se permanecesse no chão não poderiam derrubá-la de novo, quiçá chutá-la, fazer chover mijo sobre si, mas derrubá-la não.  Deitei ao seu lado e deixei que invocasse as melodias da infância antiga, há tanto ultrapassada.

Depois da queda, vovó se fechou em casa. Com o corpo remendado, estava cada dia mais criança, só queria saber de colorir papéis com traços soltos e pedia que eu comprasse biscoitos de chocolate e guloseimas de contrastes injetados, para ficar com a língua colorida e se mirar no espelho com alguma graça. Ria sozinha das caretas que ensaiava diante do reluzente das panelas e me chamava para assistir o desvario das formas. Tinha momentos, porém, em que nuvens carregadas tomavam seus olhos e a goteira do riso se estancava nela. Chamava-me. Ô Lis, falta quanto?, ao que eu desconversava e dizia que ainda tínhamos tempo, que éramos mais jovens do que se fazia pensar. Enquanto falava, vovó repousava a mão sobre meu estômago, carecia de chamar à vida um girino ancorado no mais fundo das águas, olhava para mim e pedia que eu tomasse tento, rogava que criasse juízo. Eles falam, Lis, eles sabem, sussurrava, com o olhar cravado no meu umbigo. Esperava maravilhança desabrochar, tinha fé.

 

Começou com a carta. Eu tinha recém completados 22 anos e encontrei diante da soleira da porta um envelope com brasão dourado em forma de gota, como se uma lágrima de bronze tivesse pendido sobre o papel em pranto de estátua. Sabíamos: não se recebe a carta duas vezes. A notícia correu rápido e logo todos os vizinhos estavam no apartamento de vovó com travessas de comida e roupas passadas a ferro quente. Seguravam minhas mãos para testar se eram quentes e fortes, miravam-me de longe para avaliar a robustez do corpo, o aspecto da pele, faziam toda sorte de perguntas sobre minha saúde e, mais tarde naquela noite, dona Ângela fez questão de me conduzir ao centro da sala e avaliar meus tornozelos, que ela julgou finos demais, com um abano de cabeça. Os hálitos mornos dos convidados diminuídos pelos anos faziam ronda em meu pescoço e o cheiro de carne de panela se imiscuía ao vinagre das axilas em dia de grandes calores. Disparei para o banheiro e, de joelhos no ladrilho frio, consegui ouvir os laivos de alegria. Atribuíram ao meu corpo eficiência espartana, pontualidade assombrosa e comentavam o quão emocionante seria quando novos passos atravessassem a recepção do prédio à procura da garota prenha, para me parabenizar, para nos proteger. Com uma criança entre nós, estaríamos seguros. Dentro do cubículo mal iluminado, parecia que corpos se amontoavam na porta do banheiro para auscultar minha doença. Eu seria invadida.

Oito anos haviam se passado desde o dia em que os velhinhos fizeram festa em cima do envelope dourado. O tempo fez esmaecer o encantamento pela correspondência e tratou de transformá-lo em espanto – todos tinham em conta a marcha abrupta dos anos e lamentavam minha incapacidade de obedecer aos desígnios do tempo. Outros envelopes se acumularam na soleira da porta de vovó, mas sem a opulência do primeiro – eram folhas finas lacradas a cuspe. Nunca mais me seria endereçada a lágrima de bronze, eu havia falhado e a cada semana novas cartas rememoravam o erro, faziam nova contabilidade da dívida, alertavam-me da eminência da retaliação.

Ainda há tempo, diziam-me aqueles com quem esbarrava na rua. Apertavam minhas mãos e revelavam receitas de chás fantásticos, feitiço de raízes que devolveriam ao meu corpo a capacidade de se expandir, repousavam as mãos envelhecidas sobre meu pescoço como se para conferir se eu ainda vivia. A última carta veio por fim, muito menos nobre, muito menos decorada, fazia economia de palavras. O tempo havia acabado.

Até o primeiro dia na escola, nunca havia visto outras crianças. Acreditava que era adulta compacta, pequena por desvio da natureza, amostra de gente em frasco de perfume, dosada em gotas pelas mãos do Grande Boticário. Recordo-me: a menina entre um buquê de pernas alongadas, ajoelhada embaixo de mesas e metida dentro de arbustos – arrancava as ervas daninhas do quintal de vovó de cabeça baixa, séria – seríssima. Tinha medo de falar errado, arredondar consoantes, emendar vogais, confundir palavras, tão parecidas que eram, tão poucas que conhecia. Às vezes me doía o estômago e inventava de chorar, dava vexame, procurava em vão outro alguém a reclamar sono, fome, cansaço, ou que, como eu, sofresse de felicidade. Existir era coisa séria. Tratavam-me como raridade, os amigos de mamãe erguiam-me para que pudessem me examinar de perto, tascavam-me beijos nas bochechas e se divertiam com a minha falta de pescoço. Filipa teve neném – a notícia se espalhou e todos se aproximaram de mamãe reféns da curiosidade, queriam saber mais sobre isso de nascer, coisa antiquada. Eram estranhos a primeiros suspiros.

Dizem que, quando vi outra criança, emudeci. Tão pequena, tinha encontrado alguém com a mesma maleita dos ossos de que padecia, coisa mais minha. Chorei de pena dela por ser tão miúda, tão obtusa, e de alegria por mim, que não era mais anomalia una. Ruminava com as mãozinhas pousadas no joelho, em pose de retrato, e bolei a hipótese de que cientistas bipartiram nosso ser original, peludo e alongado como o resto dos humanos, e nos condenaram a meias existências. Em casa, porém, ainda desbravava solidão, porque em mim repousavam olhos maravilhados.

Quando adentrei os portões da escola, no entanto, compreendi que éramos vários. A dor vazou dos pulmões tão logo mamãe me deixou a sós. Quis berrar um berro de que não era capaz, grave, rouco e exclusivo de gigantes. Se me transmutasse em gigante – pensava – poderia pisá-los um por um, esmagar todos os pequenos humanos. Depois, retomaria meu pouco tamanho e tudo voltaria aos devidos nichos, menina granular na mira de um mundo ampliado.

As classes nunca tinham mais que dez de nós. Sentávamos em fileiras e aprendíamos a cantar músicas da pátria e a colorir a bandeira sem fraquejar o traço ou borrar as bordas. A professora – assim chamava-se a mulher que se apavonava em cadeira maior, em imitação de mãe – dizia-nos que éramos especiais. Quando perguntamos o que significava especiais ela disse que éramos importantes. Indaguei ao garoto ao lado o que fazia a pessoa importante e ele disse que ela virava dona dos menos-importantes ou dos não-importantes, e todos deveriam obedecer o portador da importância, como quando os pais mandam os cachorros saírem dos sofás ou os avós sentarem nos sofás e eles obedecem, por serem pouco ou nada importantes.

Fui para casa com a coluna ereta, o peito estufado de orgulho por carregar o estandarte da importância. Assim que abriram-me a porta e dei de cara com vovó, ordenei que sentasse no sofá. Desafiadora, ela ficou de cócoras, fez festa nos meus cabelos e me tascou um beijo na testa. Eu, portadora da importância, esqueci dos ensinamentos do dia e afrouxei o funil do riso, gaiata. Quando atravessei a sala, ignorei o cachorro no sofá. Cada vez mais me apequenava, até caber em mim.

Abandonei a sina de anomalia e percebi que meu tamanho me permitia traçar rotas inusitadas, como atravessar o buraco estreito na cerca no fundo do quintal e, do outro lado, deparar-me com uma figueira mágica, maior e mais antiga que todos os pais e professores do mundo. Vasculhava o mato, cavava buracos onde enterrava as colherinhas de metal que roubava dos armários ao alcance das mãos. Quando o desvario das louças perdia a graça, atentava-me aos insetos escondidos embaixo das folhas. Mirava cidades inteiras de cima, minha sombra escurecia as estradas das formigas, meu sopro derrubava suas construções mais engenhosas, meu polegar era ameaça de morte e esquecimento. Virava, enfim, gigante.

Sempre que desejavam-nos em filas ou em silêncio, os professores nos chamavam de crianças. A primeira vez que ouvi a palavra achei-a engraçadíssima, mistura de cria e onça, ri com gula, os dentes de leite reluziam na boca. Com o tempo, porém, o som parou de fazer cócegas no ouvido, e entendi que essa mistura de cria e onça era eu, filhote de fera. Queriam-nos bem penteados, de cabeça baixa a desenhar o alfabeto com firmeza do pulso, alimentados e conhecedores das verdades dos livros. Com o fim do verão percebi que essa fera filhote – criança – era coisa mutável, elástica, pois acabavam as férias e nos reencontrávamos mais altos e orelhudos que antes, como se no lugar dos joelhos tivéssemos molas.

Éramos preciosos, de uma estranheza bonita, porque quando saíamos da escola e nos espalhávamos pelas calçadas e semáforos os transeuntes nos miravam como raridade, abriam sorrisos, esticavam pescoços e se mantinham perto, para não perder de vista nossa maravilhança. Chegar à altura das cabeças dos pais foi por demasiado difícil, de súbito perdemos importância e abrimos caminho para outros miúdos alegrarem as vistas dos mais altos, tão poucos que eram. Mas nós, as meninas, fomos logo avisadas que, enquanto vivêssemos, teríamos serviço. Tornávamo-nos, assim, ainda mais importantes, ainda mais precisadas e eu sorria, feliz por importar. Tardes inteiras se teciam perto dos miúdos mais miúdos, dos gordotos sem pescoço, dos bebês. Diziam-nos que deveríamos aprender como funcionavam, do que gostavam, o que os fortaleciam, conhecê-los a ponto de desejar tê-los guardados no subsolo da pele. O mundo carecia de gente e era nosso dever fabricá-las. Nasceram-nos mães.