Texto de Renata Medonça

Não é o Pelé de saias, muito menos o Neymar do futebol feminino. Com cinco Bolas de Ouro da Fifa, mais de 12 indicações ao prêmio de melhor do mundo, não é possível que Marta não se baste. Que ela não baste para nós, que tantas vezes teimamos em falar seu nome sob a batuta de um homem, como se só isso a credenciasse para estar entre os melhores.

Nesta segunda-feira, a Fifa anunciou o prêmio de melhor jogadora do mundo de 2016. Marta não foi eleita, mas pela 12ª vez estava entre as 3 finalistas – a vencedora do ano foi Carli Lloyd, pelo seguda vez, com 20% dos votos e Marta ficou em segundo, com 16%. 

Mas não interessa quem venceu o prêmio. Com 30 anos de idade, a brasileira figura entre as melhores desde os 17!

E por suas genialidades em campo, carrega o status de “melhor de todos os tempos”. Não há um país no mundo que não reconheça o talento de Marta. Mas talvez de todos eles, o que menos reconhece é o que lhe deu origem.

Somos o país do futebol, o lugar onde qualquer criança já nasce com uma bola no pé gritando gol. Tivemos o melhor jogador de todos os tempos e, pasme, temos a melhor jogadora também. Mas enquanto até as gerações que ainda nem nasceram já sabem o nome de Pelé, quantas vivem aqui e nunca (ou pouco) ouviram falar sobre Marta?

Marta nasceu em Dois Riachos, uma cidade de pouco mais de 11 mil habitantes em Alagoas. Começou a jogar bola com os primos e já logo passou ouvir os comentários preconceituosos. “Essa menina não sai do meio dos meninos. Como a família dela deixa isso? É menina-macho”.

Até que, aos 14 anos de idade, viajou de ônibus para o Rio de Janeiro para fazer um teste no Vasco. Ficou por lá jogando nas categorias de base e logo chegou à seleção, ainda na adolescência. Aos 17 anos, estava brilhando na Copa do Mundo de 2003 e logo conseguiu o passaporte para a Europa, onde foi jogar na Suécia e daí em diante não parou mais.

Infelizmente, Marta não pode seguir os passos de Pelé fazendo carreira e se tornando ídola absoluta de um único clube. A realidade do futebol feminino não permite algo assim. Os clubes se formam e depois acabam, sofrem com falta de investimento, até mesmo as ligas se dissolvem por não terem como sobreviver – até os Estados Unidos, país modelo para o futebol feminino mundial, sofre para manter vivas as competições e as equipes.

Por conta disso, Marta pulou de clube em clube, jogou na Suécia, nos Estados Unidos, passou um tempo no Santos no “dream team” das Sereias da Vila, até parar novamente na Suécia agora, no Rosengard.

Mas mesmo diante de todas as dificuldades, ela manteve sua genialidade dentro de campo. Em 2006, aos 20 anos, conquistou pela primeira vez o prêmio de melhor jogadora do mundo da Fifa. Sua primeira indicação havia sido ainda em 2003, quando surgiu para o futebol mundial aos 17 anos já impressionando quem quer que assistisse às suas jogadas.

Em 2007, 2008, 2009 e 2010, repetiu o feito, tornando-se a primeira jogadora do mundo a conquistar por cinco vezes o prêmio máximo individual do futebol – e cinco vezes SEGUIDAS, diga-se.

De lá para cá, o futebol feminino evoluiu, outras jogadoras brilharam, mas Marta esteve sempre lá – e, neste ano, ficou pela  DÉCIMA SEGUNDA VEZ entre as três finalistas do prêmio.

Tamanha regularidade não é para qualquer um. Uma vez, Aline Pellegrino, zagueira capitã da medalha de prata olímpica em 2008, me disse: “Na Suécia, Marta só não é maior que o Rei. Ela está ali pau a pau com o Ibrahimovic”.

Toda criança que nasce na Suécia sabe da existência de Marta, de seu talento e importância. Quantas meninas de lá acabam inspiradas pela brasileira e começam a jogar bola por causa dela, sonhando em ser como ela? Quantas ela poderia inspirar por aqui se fosse valorizada como merece?

É muito comum ver meninas que começam a jogar bola dizerem que querem ser como Neymar. E usam a camisa com o nome dele, e assistem às suas jogadas querendo um dia fazer igual. E Neymar é mesmo um gênio da bola.

Mas Marta também é. E é importante para as meninas verem que existe alguém que é craque de bola, que faz jogadas geniais, gols inacreditáveis e que, como elas, também É MENINA. Seria uma forma sutil de passar um recado a essas aspirantes a jogadoras: vocês podem. Marta é a prova de que vocês, como meninas ou como mulheres, podem chegar aonde quiserem, aonde sonharem.

E é por isso que precisamos falar sobre Marta. Precisamos valorizá-la. Precisamos mostrar às nossas crianças com orgulho quem ela é, tudo o que ela fez, o que ela representa.

Mais do que “Pelé de Saias” ou o “Neymar do futebol feminino”, Marta é Marta – e sua história a faz genial por si só. Deixem Pelé e Neymar reinarem no futebol como gênios que foram e que são. Mas deem à Marta o reconhecimento que merece. A melhor jogadora de todos os tempos é nossa.

 

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