Neste aniversário de São Paulo, celebramos uma voz imigrante. Quer coisa mais paulistana que uma escritora cearense radicada nesta babilônia? Nascida em Juazeiro do Norte em 1991, Jarid Arraes veio a Sampa para ampliar e divulgar o trabalho com suas origens literárias. Tanto em suas publicações, como nas oficinas e clubes de leitura que coordena, a autora busca transpor fronteiras, misturando a cultura nordestina à do sudeste.

Mulher no meio machista do cordel, negra no nosso mercado editorial racista, Jarid quer tornar-se exemplo para deixar de ser exceção. Os números comprovam o quadro: pesquisa da da Universidade de Brasília (UnB) mostrou que quase três quartos dos romances publicados (72,7%) foram escritos por homens, e 93,9% dos autores são brancos.

Quebrando novas barreiras, a escritora estreia agora em outro gênero literário. Seu primeiro romance, As lendas de Dandara, mistura realidade e ficção para reconstruir a história de Dandara dos Palmares, valorizando a cultura afrobrasileira. Lançado no fim do ano passado, o livro fez parte da nossa lista com o melhor da literatura nacional escrita por mulheres em 2016.

Confira nosso bate-papo inspirador com a autora, permeado por trechos de seus livros:

O que ser escritora significa pra você?

Ser escritora, para mim, é encontrar meu lugar no mundo. Isso é algo muito importante, pois por muito tempo acreditei que meu lugar era o imposto pela sociedade e isso vinha carregado de machismo e racismo. Escrever e, sobretudo, publicar é uma forma de destruir essas mentiras que foram contadas para mim sobre o que é ser mulher negra. E vai além, porque, quando publico as personagens que crio, quando as pessoas leem minhas obras, o que escrevo também cumpre um pouco desse papel. Então escrever, pra mim, é ajudar a criar a possibilidade de expressão plena para outras pessoas como eu.

Como a experiência de ser mulher negra se relaciona com a experiência da escrita?

Eu cresci amando literatura, mas tinha a sensação de que escrever era algo que somente homens brancos e com cara de mais maduros poderiam fazer. Claro, né? Ninguém me apresentava outras referências, virei adulta antes de ter acesso a algo escrito por uma mulher negra. Então, por mais que eu escrevesse, mantinha tudo escondido. Cheguei a jogar fora coisas que escrevi, porque tive o sentimento pesado de que aquilo não servia para nada.

Foi depois que comecei a ler sobre feminismo e sobre questões raciais que entendi o que estava acontecendo e passei a reunir coragem para escrever e ser lida.

Minha experiência com a escrita está diretamente ligada a isso e ao quanto lutei para derrubar o veneno do machismo e do racismo na minha vida. Hoje está diretamente ligada ao quanto ainda é difícil ser escritora negra nesse mercado editorial e nessa sociedade em que vivemos. Mas, mesmo com essas questões, eu percebo o lado bonito e a possibilidade de construir algo significativo no mundo, porque recebo depoimentos de pessoas que leem minhas obras e que me falam sobre como uma protagonista como Dandara causou um impacto transformador. É por isso que continuo, afinal, acredito nessa ligação com quem me lê e no quanto podemos criar coisas bonitas por meio da literatura.

“Para quem não compreende

Me disponho a explicar

O problema do racismo

Que a tudo quer mudar

O cabelo é o primeiro

E também o derradeiro

Que o racismo quer barrar.

 

Nesse mundo de racismo

Tudo é padronizado

O cabelo é escorrido

Natural ou alisado

E o cabelo cacheado

Que acaba repudiado

Do padrão é rejeitado.

 

Tem uma tal de escova

Que eu chamo “regressiva”

Que estica o cacheado

Na maior forma agressiva

E a peste custa caro

É por isso que eu falo

Que essa praga é invasiva.

 

As meninas vão crescendo

Aprendendo o que não presta

Vão achando dos cabelos

Uma ideia desonesta

Na torpe separação

Nessa branca enquadração

Asquerosa da mulesta.”

Trecho do cordel “Quem tem crespo é rainha”, de Jarid Arraes

De que forma você se lançou na literatura de cordel?

Eu já escrevia sobre Direitos Humanos nas redes, principalmente sobre feminismo, e quis unir esses temas com o cordel. Então foi bem simples, porque eu já tinha bastante intimidade com o estilo, e só decidi fazer. E fiz. Tive ajuda do meu pai para aprender a diagramar e montar, me “autopubliquei”, compartilhei a novidade no Facebook e o retorno foi bem rápido. Lembro até que trouxe o primeiro cordel em minha primeira visita a São Paulo e montei uma espécie de lançamento num encontro feminista lá na Augusta. Foi incrível. E, parando pra pensar, foi minha primeira experiência de lançamento como autora independente e com muitas pessoas que eu não conhecia.

Continuo na mesma lógica: escrevo, diagramo, publico e anuncio nas minhas páginas e redes sociais. No meu site www.jaridarraes.com/cordel tem as instruções certinhas de como encomendar. A partir daí a divulgação é feita por quem já leu e curtiu e por quem apoia meu trabalho. Hoje eu já não consigo acompanhar o alcance dos meus cordéis, porque já chegaram em tantos lugares e estão até na Biblioteca do Congresso de Washington, nos EUA! Acho isso bem louco! Sou muito grata porque vejo na prática o quanto é importante o apoio dos leitores.

Qual é a sua avaliação da relação entre o cordel e o mercado editorial?

Hoje tenho 60 cordéis publicados e estou planejando os próximos lançamentos. Eu cresci vendo o meu pai e meu avô publicando cordel em folheto e de forma independente, sem editoras – até porque muitas editoras queriam tirar proveito de forma desonesta, então eu também decidi seguir por essa linha. Já recebi muitas propostas de editoras, mas só aceitei recentemente porque quis tornar a Coleção Heroínas Negras na História do Brasil mais abrangente, já que esses são meus cordéis mais vendidos.

Porém, fico observando como anda o cordel no mercado editorial no Brasil e muita coisa me decepciona e me irrita. Um exemplo disso é como homens continuam recebendo mais destaque e falando pelo cordel como se fossem os representantes exclusivos desse tipo de literatura; outra coisa é o fato de que o cordel em folheto não recebe o mesmo destaque que o cordel publicado em livro.

Mas fico feliz, porque a minha experiência tem sido incrível. Hoje eu vivo de cordel, é o meu trabalho principal, e me sinto muito privilegiada porque alcanço um público grande, que tem desenvolvido amor pela literatura de cordel. Acho que nesse aspecto eu só tenho o que comemorar e agradecer, porque o cordel é a melhor coisa da minha vida.

“Na história do Brasil

Nas escolas ensinada

Aprendemos a mentira

Que nos é sempre contada

Sobre o povo negro e índio

Sobre a gente escravizada.

 

Nos contaram que escravos

Não lutavam nem tentavam

Conquistar a liberdade

Que eles tanto almejavam

E por isso só passivos

Os escravos se ficavam.

 

Ô mentira catimboza

Me dá nojo de pensar

Pois o povo negro tinha

Muita força exemplar

E com muita inteligência

Sempre estavam a lutar.

 

Um exemplo muito grande

É Tereza de Benguela

A rainha de um quilombo

Que mantinha uma querela

Contra o branco opressor

Sem aceite de tutela.”

Trecho do cordel “Tereza de Benguela”, de Jarid Arraes

Então você escolheu a independência do mercado editorial.

Eu comecei independente e enfrentei muito racismo e machismo até aqui. Pra mim, publicar independente é a garantia de que as coisas estão nos meus termos. Tem muito a ver com controle, porque gosto muito do contato direto com os leitores, gosto de enviar minhas obras pelo correio, receber comentários diretamente, gosto da sensação de que isso é algo que compartilho com outras pessoas. É uma troca maravilhosa, encorajadora, que me mantém escrevendo. Acho isso importante porque reafirma uma outra lógica para a literatura.

Não acredito que o caminho é implorar por espaço em editoras que seguem a mesma lógica machista e racista de sempre. Acredito é que a gente tem que construir outras lógicas e novas formas. É uma questão política para mim. Eu sou a dona da minha expressão, das minhas palavras, e eu posso publicá-las e compartilhá-las livremente.

Se não tiver grana pra formato de livro, fazemos em cordel, em zine, jogamos online, declamamos em praça pública, montamos uma roda de leitura e tiramos xerox de uma folha A4. Com apoio umas das outras é que a gente rompe essas “autoridades” da literatura e constrói meios que facilitem nossa escrita e publicação, porque a partir daí os fatores materiais podem se tornar menos difíceis. Tenho vivido isso, por isso continuo independente também.

Poderia nos contar mais sobre a técnica do cordel?

O cordel tem toda a parte técnica que é importante, mas ele não se limita a isso. Você pode ter a métrica perfeita, usar rimas ricas, explorar desde sextilhas até décimas com mote, mas a identidade do cordel está no ritmo próprio que ele tem, nas palavras que você usa, as expressões regionais, gírias e até mesmo nas palavras escritas de forma “errada”.

Quando dou oficinas de cordel, ensino do jeito que escrevo: muitas vezes uso forró pra garantir que a métrica está toda certinha, troco palavras “cultas” pela “escrita errada”, até mesmo em coisas simples como mudar “jeitinho” para “jeitim”. Adoro dar oficina de cordel em São Paulo porque recomendo que usem gírias e expressões que caracterizam o sotaque e a identidade paulistana, então acaba que vira uma misturada gostosa.

No começo, pode ser um pouco difícil escrever cordel, mas só até desenvolver a intimidade com o estilo. Afinal de contas, é tudo questão de intimidade. Quanto mais você lê cordel, melhor fica em sentir a métrica e o ritmo que cada verso deve ter. Sempre repito que não existe dom, é tudo questão de prática.

Já a parte de produção física eu faço sozinha com alguns fatores mais modernizados, como uma impressora a laser para agilizar um pouco mais o processo. Mas guilhotino os cordéis e monto um por um. Tenho até tendinite e um probleminha no ombro por causa do esforço repetitivo.

Quais são os principais diferenciais desse tipo de literatura e o que eles possibilitam?

Acho que o principal diferencial do cordel é ser acessível. E quando digo acessível quero dizer que é barato, que é fácil de compartilhar, que é gostoso de ler, que não é cansativo. Isso faz diferença quando você quer encorajar a leitura e a escrita, principalmente, quando quer trabalhar temas complexos como os que utilizo nos meus cordéis. Com a rima e a melodia do cordel a gente torna esses debates mais fluidos e interessantes.

Para quem escreve, cordel é liberdade plena.

Porque você escreve, monta, publica, vende e espalha por aí sem que ninguém possa interferir, impedir ou modificar o que você quis publicar. Isso é maravilhoso e representativo de um tipo de literatura em que acredito e que não necessita da qualquer “autorização” para existir e ser lida.

“Quase todo mundo sabe

O que é uma travesti

Mas se faz de ignorante

Pra xingar e pra agredir

Porque sente intolerância

Por quem sabe transgredir.

 

Travesti não é uma coisa

Nem um bicho anormal

É somente uma pessoa

Com força fenomenal

Que se assume como é

E que vive tal e qual.

 

Muita gente vai pensando

Que é dona da verdade

Sai julgando a vida alheia

Com muita facilidade

Com nóia de pode-tudo

Em toda oportunidade.

 

Essa gente amargurada

Desconhece a realidade

Não sabe que a travesti

Enfrenta a dificuldade

Passando por violência

Sem receber caridade.”

Trecho do cordel “Travesti não é bagunça”, de Jarid Arraes

 

As Lendas de Dandara é seu primeiro livro que não é um cordel. Como foi o processo da escrita?

Foi bem louco, porque eu já vinha de alguns anos trabalhando só com cordel e textos de opinião na Revista Fórum e outros veículos, então foi uma linguagem nova, que exigiu mais tempo, paciência e esforço. Mas foi maravilhoso, porque vi que também poderia escrever com essa proposta e me dediquei para evoluir minha escrita em prosa e ficção. O “Clube da Escrita Para Mulheres” foi fundamental nisso tudo, porque ao mesmo tempo em que ajudava outras mulheres a escreverem mais e melhor, eu também passei a escrever mais e melhor. Hoje estou com mais dois livros programados para serem publicados ainda no primeiro semestre de 2017 e já estou trabalhando num nove romance.

“De repente, trovões. Os sons da natureza ecoavam, redemoinhos de vento bailavam em círculos e espirais rosados, escuros e perigosos. Da espada de Iansã, uma luz crescia e pulsava como a respiração de uma mulher em trabalho de parto, até que seu clímax foi atingido. Nos braços dela, estava, enfim, uma garotinha de olhos expressivos.

– Seu nome será Dandara e você trará libertação para seus irmãos e irmãs – disse Iansã sorrindo, olhando a menina com ternura.

Tomada por esperança, Iansã dançava com Dandara em seus braços, em movimentos mágicos que empurravam as correntes de ar quente em todas as direções. Em toda África, tempestades bradavam, anunciando o início de uma nova era e a abertura de novos caminhos. Os animais se alvoroçavam, sentindo novamente o despertar de seus instintos. África estava viva, acordada, com olhos bem abertos. A dança de Iansã com sua filha recém-criada demarcava uma celebração poderosa que durou por dias ininterruptos.”

Trecho do livro “As lendas de Dandara”, de Jarid Arraes

 

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