Quem senta no divã hoje é a nossa editora Helena Bertho.  

Foto: Zedorwin

“Já ouviu falar da roleta russa? Funciona assim: um monte de gente transa, todo mundo com todo mundo, em um evento, sabendo que alguém ali tem HIV. Todo mundo transa sem camisinha. É um negócio pela emoção, medo do perigo, não sei.

Doido, né? Magina, transar assim, sabendo que pode pegar HIV…

Doidão. Tão doido que eu fazia isso e uma galera que eu conheço também, ou ainda faz. Só que na nossa roleta russa, a sala era o mundo e, ao invés de uma pessoa com HIV, tem 33 milhões.

Era essa a imagem que ficava na minha cabeça quando eu descobri que estava com HPV: eu na  tal da roleta russa do mundo, pedindo pra contrair um pacotão de doenças. Ai que exagero, moça! Será? Assim, hoje eu sei que HPV se trata fácil quando descobre cedo. Hoje eu também sei que se vive com o HIV muito bem, se faz acompanhamento e toma remédio. Ainda assim, prefiro não pegar nenhum deles. Quanto menos doenças ou condições eu puder ter no corpo, melhor.

Até porque, essas vêm recheadas de toda uma complicação, porque são as doenças do sexo. Sei lá quantas mulheres têm HPV, mas são muitas. É comum pra burro o negócio. E mesmo assim eu fiquei morrendo de vergonha quando tive. Nossinhora, eu estou com DST. Minha mãe jamais vai saber. Nossinhora, que vergonha. Nossinhora, como eu peguei isso?

Bobinha, né? Do alto da minha sabedoria de mina de classe média estudada, eu achava que DST era coisa dos outros. Não ia acontecer comigo. 

Oras, bolas, Helena, transou sem camisinha, pode pegar. Não é difícil entender como você pegou.

E como dava vergonha admitir isso. Principalmente porque eu era solteira. Se eu namorasse, eu poderia dizer “ai! Ele me traíu” ou “ai! Ele não me contou”. Mas solteira, vinha todo o peso de que era promíscua e irresponsável. 

Por quê fiz isso? Bem, imagino que deve ser a emoção, a adrenalina a roleta russa. Ou uma falta de conversa mesmo. Porque do alto do meu papel de moça educada de classe média, eu via as DSTs nas revistas, nos jornais, nas TVs, e aquilo não era coisa do mundo real. E tinha também a parte de eu não saber muito bem para que servia o sexo, a história de dar prazer, de buscar ser desejada. O tal do para outro, e não para mim.

Se não é para mim, se nem o prazer é para mim, como o cuidado vai ser?

Por isso o HPV veio. Uma sorte bem grande, porque troca o P por um I e eu carregaria o vírus comigo a vida toda com um monte de preconceito pra lidar. E foi pura sorte mesmo. Porque a única coisa que explica que não foi o HIV é ela.

Eu tive consciência bem grande dessa sorte. E a imagem da roleta russa ficou na minha cabeça. Depois disso, o cuidado passou a ser foco.

Não há nada como a experiência para nos ensinar, né? Acabei até aprendendo que essa história de que camisinha é ruim veio de algum lugar que não sou eu. Eu gosto da capinha de pirocas (ainda não testei a das minas, preciso, tá na lista). Não me incomoda, já vem com uma lubrificadinha, e depois fica tudo limpinho. Isso é lindo.

Mas lindo mesmo é que hoje, quando eu transo sem camisinha com o meu boy, eu sei dos riscos disso (sim, mesmo dentro de um relacionamento, como dizia uma campanha que vi uma vez “amor não previne doenças”). Lindo é saber que existe a roleta russa e entrar nela entendendo os riscos, sem ingenuidade. 


Também tem um desabafo para fazer ou uma história para contar? Então senta que o divã é seu! Envie seu relato para helena.dias@azmina.com.br