Texto de Renata Medonça, com colaboração de Juliana Arreguy

A jogadora Formiga

O ano foi mesmo delas. Depois de quase equipararem os homens em presença nas delegações – entre os mais de 10 mil atletas que vieram ao Brasil para os Jogos Olímpicos, 47% eram mulheres -, elas colecionaram recordes e quebraram todos os paradigmas possíveis em um mundo ainda (e por enquanto) considerado “masculino”.

Futebol é coisa de homem? Respondemos com Marta, Formiga e Emily Lima, a primeira mulher a treinar uma seleção brasileira da modalidade. Quem luta como uma menina é fraca, perde? Respondemos com Rafaela Silva, campeã olímpica do judo, e Amanda Nunes, primeira brasileira a conquistar um cinturão no UFC.

As conquistas foram inúmeras. E estão só começando. 2016 já foi um marco para as mulheres no esporte e em 2017 tem mais.

Formiga

Formiga dispensa apresentações. Mais de 20 anos de serviço pela seleção brasileira, medalhista de prata nas Olimpíadas de Atenas (2004) e Pequim (2008), ouro conquistado com suor e muita dedicação nos Jogos Pan-Americanos de Santo Domingo (2003), Rio de Janeiro (2007) e Toronto (2015). Isso sem listar o restante do currículo de uma vida inteira dedicada ao futebol feminino. Foram 160 jogos com a camisa amarela – ninguém, entre homens e mulheres – tem mais jogos que ela pela equipe nacional.

Seu legado, no entanto, merece uma menção honrosa. Formiga se despediu oficialmente da seleção no último domingo, na final do Torneio Internacional de Manaus. E só. Pouco se falou sobre sua aposentadoria nos grandes veículos. Sequer organizaram a ela uma partida comemorativa, tão comum entre os homens, unindo as jogadoras da seleção que encantou o mundo em Atlanta (1996) e as colegas com quem escolheu seguir até o fim. Porque Formiga escolheu sua hora de retirada com muita dignidade. Ainda teria futebol para atuar por mais algum tempo, mas decidiu deixar os gramados após mais um ciclo olímpico, encerrado com a Rio-2016.

Quem sabe no futuro, longe das quatro linhas, ela não recebe o que fez por merecer durante toda a vida? Ela trocaria o ouro pelo reconhecimento da modalidade. E o que não trocaríamos para vê-la no lugar mais alto do pódio? Se a medalha de ouro não veio para Formiga, azar da medalha.

 

Marta

Precisamos falar sobre Marta. Parece repetitivo e clichê usar essa frase, mas Marta tem sido repetitiva também na sua trajetória como melhor jogadora de todos os tempos do futebol. Neste ano, ela foi finalista pela 12ª vez (DÉCIMA SEGUNDA VEZ) do prêmio da Fifa de melhor jogadora do mundo.

Na Olimpíada, foi de novo capitã do Brasil. De novo, encantou o país com seus lances geniais. Mas, pela primeira vez, teve o mínimo do reconhecimento que merece. Estádios lotados em Manaus, Belo Horizonte, São Paulo, Rio de Janeiro – no Maracanã, 70 mil pessoas gritaram o nome dela na semifinal: “Olê Olê Olê Olá, Marta, Marta”. Arrepia só de lembrar. Outras centenas riscaram o nome de Neymar ou de outros jogadores da seleção masculina para escrever o dela. De novo, é preciso falar sobre Marta. Sobre sua importância para inspirar milhares de meninas no Brasil inteiro que sonham em um dia poder jogar futebol. É preciso falar antes que ela deixe os gramados e a gente se dê conta da falta que vai fazer – como Formiga já está fazendo.

 

Rafaela Silva

Rafaela Silva é talvez um dos maiores símbolos femininos de 2016. Ela venceu todos os preconceitos possíveis e imagináveis e conquistou o primeiro ouro do Brasil na Olimpíada do Rio de Janeiro. Não poderia ser mais simbólico. A primeira vez que o hino nacional tocou nos Jogos em casa foi para uma mulher, negra, lésbica e da favela. Rafaela é mulher de luta. Ninguém merecia esse ouro mais do que ela. A jovem judoca foi desclassificada nos Jogos de Londres por um golpe considerado ilegal e acabou massacrada nas redes sociais por isso. Ouviu ofensas racistas e que “não era digna” de representar o Brasil.

Para conquistar o ouro no judô na categoria até 57kg em 2016, antes de vencer as adversárias, Rafaela precisou vencer a depressão e a vontade de parar de lutar depois de tanta humilhação. Mas ela voltou mais forte. Foi a primeira mulher a conquistar um Mundial de judô em 2014 e, neste ano, garantiu o tão sonhado ouro.

“Eu ouvi muita coisa. Disseram que eu era uma vergonha para o meu país. E hoje eu sou campeã olímpica na minha casa.”

Poliana Okimoto

Na chamada “Olimpíada das Mulheres”, Poliana Okimoto fez história tornando-se a primeira atleta da natação feminina a conquistar uma medalha olímpica – ela foi bronze na maratona aquática, superando o até então melhor resultado da modalidade para as mulheres, o quinto lugar de Joanna Maranhão nos 400m medley nos Jogos de Atenas, em 2004.

Aos 33 anos, ela superou o trauma que passou na Olimpíada de Londres, quando sofreu hipotermina no meio da prova, e conseguiu conquistar o pódio em casa. Poliana chega a nadar 20 km POR DIA em mar aberto – ufa! Cansa só de pensar! – e já colecionava um ouro no Mundial de Barcelona em 2013 e duas pratas em Pan-Americanos, em 2007 e 2011. Em 2016, a nadadora conseguiu um feito inédito que ficará marcado para sempre na história das mulheres brasileiras em Olimpíadas. Com certeza, será o primeiro pódio de muitos outros que virão por aí na modalidade.

Martine e Kahena

Martine Grael e Kahena Kunze fizeram história nos Jogos do Rio de Janeiro. Juntas elas conquistaram a primeira medalha de ouro da vela feminina em Olimpíadas. Com apenas 25 anos de idade, as jovens campeãs mundiais em 2014 desbancaram as rivais em uma disputa mega acirrada na regata da medalha da classe 49er FX. Filhas de dois nomes históricos da vela nacional – Torben Grael, bicampeão olímpico, e Claudio Kunze, campeão mundial na década de 1970 -, elas sempre tiveram o esporte correndo nas veias e, logo na estreia da dupla em Jogos Olímpicos, conquistaram um ouro inédito para as mulheres e garantiram a tradição do Brasil na vela – desde 1992, o país não passa em branco no pódio olímpico. Martine e Kahena ~dibraram as adversidades, as adversárias, e até alguns sacos de lixo na Baía de Guanabara para colocar as mulheres no topo!

Flávia Saraiva

Uma pequena gigante. Não há outra definição para a ginasta Flávia Saraiva. Ela tem só 16 anos, 1,33m de altura, mas já foi a única brasileira a chegar numa final de traves em Olimpíada. E ela fez bonito – tanto que saiu mega elogiada pela super campeã Simone Biles.

“Honestamente, pensei que a medalha iria para Flávia. Ela foi tão bem na trave. Achei que ela merecia. Mas estou orgulhosa. A série dela pareceu melhor do que a que eu fiz”, disse Biles, que ficou com o bronze, enquanto Flavinha terminou em quinto. Mas Tóquio está logo ali para a jovem brasileira voltar a encantar o mundo e, quem sabe, retornar para casa com uma medalha no peito.

Bruna Alexandre

Bruna Alexandre tem apenas 21 anos e, nos Jogos Paralímpicos do Rio, conquistou duas medalhas históricas para o Brasil. Ela foi a primeira mulher brasileira a chegar a um pódio no tênis de mesa paralímpico/olímpico. Em sua segunda participação em Paralimpíadas, ela conquistou dois bronzes, um na categoria individual e outro nas duplas.

Bruna teve o braço amputado aos 3 meses de idade por causa de trombose, começou a jogar tênis de mesa aos 13 anos e aos 17 já estava em Londres nos Jogos Paralímpicos. Atualmente, ela treina com a seleção olímpica e com a paralímpica e sonha em disputar as duas competições em Tóquio.

Emily Lima

Depois de um 2016 cheio de notícias difíceis, tivemos no fim do ano um alento. Em outubro, a CBF anunciou a saída de Vadão e a contratação de Emily Lima para comandar a seleção feminina de futebol. É a primeira vez que temos uma mulher à frente da equipe – e, mais do que isso, uma mulher experiente e competente que, só em sua estreia colecionando goleadas no Torneio Internacional de Manaus, já mostrou que tem muito a agregar para o futebol feminino por aqui.

Emily Lima foi a primeira mulher a comandar as seleções de base (sub-15 e sub-17) na CBF em 2013. Comandando o São José, ela foi vice do Brasileiro e campeã paulista em 2015, vice da Copa do Brasil neste ano.  É uma mulher que estuda, faz cursos de treinadores pela CBF, visita técnicos do masculino (esteve com o Cuca no Palmeiras recentemente), se atualiza sobre tática, além de ser ex-jogadora (atuando no Brasil e Europa) e conhece muito bem a modalidade com que trabalha. Ou seja: estamos muito bem servidos.

“Venho com uma missão de fazer tudo diferente do que eu vivi durante 25 anos no futebol. Então eu vou trazer o de melhor e mais moderno para a CBF”, disse ela em sua apresentação. Pelo pouco que já vimos, ela trouxe mesmo.

Amanda Nunes

O UFC sempre foi considerado território masculino e “proibido” para mulheres. O campeonato das chamadas “artes marciais mistas” – mais conhecidas como MMA, na sigla em inglês – surgiu no início da década de 1990, mas só abriu categorias femininas a partir de 2013. Três anos depois, Amanda Nunes finalizou a favorita Miesha Tate para colocar seu nome na história da competição e da modalidade: ela se tornou a primeira mulher brasileira a conquistar um cinturão no UFC.

No discurso de campeã, Amanda não escondeu o orgulho que sentia por representar outra minoria ali: homossexual assumida, a jovem campeã agradeceu o apoio de sua namorada e também lutadora do MMA. “O mais importante é que estou feliz com a minha vida”, disse. “Nina (namorada de Amanda) será a próxima campeã peso-palha do UFC, garanto isso a vocês. Ela é a minha melhor companheira de treinos, sempre está me ajudando e dando o melhor por mim e devo muito a ela. Eu a amo.”

Amanda Nunes volta ao octógono no dia 30 de dezembro para encarar uma das maiores lutadoras da história do UFC, a ex-campeã do peso-galo, Ronda Rousey, em Las Vegas. A certeza que fica até agora é que, depois dela, a expressão “lute como uma menina” nunca mais será a mesma.

Isadora Cerullo

Isadora virou um símbolo de mulher no esporte não só por conta de seus feitos dentro de campo, com a seleção feminina de rugby – que conquistou um histórico nono lugar nos Jogos do Rio, garantindo a classificação para o Mundial. Ainda nos gramados de Deodoro celebrando a conquista, ela foi surpreendida com um pedido de casamento pela sua namorada, a gerente de serviços da equipe Marjorie Enya.

Tanta luta, tanto preconceito, foram exorcizados nesse simples gesto que emocionou quem estivesse por perto. A lição que ele deixa não poderia ser outra: em qualquer competição, o amor sempre vence!

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