O divã de hoje é anônimo.   

Foto: Isobel T.

“Caro pai do meu filho, fico feliz de ver que você seguiu sua vida. Tem seu carro, comprou recentemente sua casa, montou seu negócio. Fico feliz mesmo, visto que quando estávamos juntos, nunca sobrava nem dinheiro para você comprar comida. Fico feliz que você tenha casado novamente, é tão bom quando encontramos alguém que nos deixe bem também.

Eu espero que com sua nova companheira, você não cometa os mesmos erros que cometemos. Ah, sim, erámos jovens! Mas a juventude, traições, o egoísmo, o machismo, manipulação que permeava nossa relação era tão doloroso. Que bom que ficou no passado.

Caro pai, quero que seja feliz. Quero que a sua felicidade possa repercutir no nosso filho. Sim, nosso né!? Embora ás vezes não pareça…

Caro pai, gostaria que você parasse de cuidar da minha vida e se preocupasse com a do nosso filho, sabe?

Eu achei que, após você se casar novamente, não seria necessário te explicar isso, mas sabe, eu também tenho direito de refazer minha vida. O fato de eu sair, de eu estudar, de eu tentar conhecer (sim, tentar, pois não tive nenhuma relação desde que nos separamos) não faz de mim um mãe ruim. Você sabia que eu posso ter amigos, assim como você tem? E que eu posso sair com meus amigos, assim como você faz com os seus, e isso não me torna uma mãe ruim?

Caro pai, você sabia que assim como você sai com sua esposa eu também posso sair com alguém? Ou que assim como você viaja quase todo final de ano para a praia (e nunca levou nosso filho) eu também posso viajar com ele? Ou até sem ele, isso não me faz uma mãe ruim. Sabe por que pai? Porque nas noites que nosso filho teve febre e seus ataques de asma repentinos que o fizeram baixar no hospital, eu estava ali, enquanto você desligava o celular e não procurava saber sobre ele. Porque enquanto você compra suas coisas, faz suas viagens, eu trabalho o ano inteiro e guardo dinheiro para poder passar alguns dias de férias com ele.

Porque enquanto você me critica por levá-lo para passear, no shopping, cinema, ou até um sorvete (cuidando dos meus gastos) eu faço tudo isso apenas com meu salário, já que há um ano você não paga pensão.

Sabe pai, enquanto você tem tempo de vir todo dia me criticar, e cuidar da minha vida, sabendo de coisas que eu faço, não sei como, o nosso filho está crescendo, enquanto você alega que não tem tempo ou não tem como ligar para ele. Enquanto você se preocupa comigo o nosso filho está se desenvolvendo, e ah pai…ele é uma criança tão maravilhosa. Sabe, é sempre doloroso nos finais de semana que você desmarca, ter que explicar pra ele sua ausência. É igualmente difícil quando você diz que não quer vê-lo, fazendo isso para me atingir.

Caro pai, eu espero que você entenda, eu não preciso da sua preocupação, já o nosso filho… O tempo se apresenta como um inimigo diário, e a cada dia é uma nova descoberta, e você não está. Bem, caro pai, espero que você esteja feliz, e quem sabe um dia, possa compartilhar dessa felicidade com nosso filho.


Também tem um desabafo para fazer ou uma história para contar? Então senta que o divã é seu! Envie seu relato para helena.dias@azmina.com.br