*Esta é uma das investigações patrocinadas pelo Programa de Bolsas de Reportagem da Revista AzMina que você ajudou a tornar realidade. Leia a série completa aqui.

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Meninas Kayapó brincam na Aldeia Multiétnica 2016. Foto: Maria Ribeiro

Pitando na varanda, a voz baixinha e calma fala sobre feminino e maternidade. Meio da manhã, vai chover. Chega um, chega outro, pede uma benção para a grávida, “vai ter aqui na aldeia mesmo?”, as crianças brincam no quintal, “será que vai dar chuva?”, vai demorar. Conversa vai, conversa vem, o tempo cinza, estronda um trovão. “Essa chuva ainda demora a chegar”. O genro vem tocando os porcos de volta para o chiqueiro. “Acho que vai é cair logo. Vamos antes que a gente não consiga passar na estrada de volta”. Pingos grossos esparsos, “ué, não ia demorar?”, corre. No caminho do carro, em cada varanda um grupo de pessoas reunidasadmirando a chuva. E mais nada.  

Cada etnia indígena tem sua própria cultura, o que se reflete na forma de estabelecer relações pessoais. Isso sem contar as questões individuais de moradia, segurança e status dentro da comunidade em que cada mãe e criança estão inseridos. Mas há semelhanças que unem e diversidades que ensinam. Cada mãe tem o seu próprio ensinamento.

As crianças brincam da manhã até a noite na casa de Cleidinha Fulni-ô, em Águas Belas – PE. Com o enérgico Tejá, de seis anos de idade, e as gêmeas com menos de dois anos, ela afirma querer seis filhos no total. “Ter é fácil, meus partos foram tranquilos. Difícil é criar”, desabafa.

Leia o relato da repórter que fez esta investigação: “Nas indígenas, eu buscava uma nova maternidade para me salvar”

As meninas mamavam ao mesmo tempo no peito. Na aldeia, as crianças brincam todas juntas nos quintais das casas. Vão pra escola à tarde, voltam e brincam mais.

“Quando cansam de brincar, dormem. Não fazem firula”, explica calmamente.

REGAR

“Como o parto é normal, o leite chega mais rápido para nós”, explica Gisele Fontes (Umussy), da aldeia Dessana próxima a Manaus. “Chega muito leite, então a criança mama o quanto ela quiser”, complementa. A partir dos cinco meses, a criança é iniciada na comida dos adultos e a mãe vai parando de oferecer o peito aos poucos.

As mulheres têm muitos filhos e os filhos são muito apegados às mães até começarem a andar.

É assim na aldeia da Terra Indígena Wavi – MT, do povo Tapayuna. “A criança fica colada no peito da mãe praticamente o dia inteiro”, descreve a antropóloga Daniela de Lima. Elas usam uma espécie de tipóia para carregar as crianças – que ficam com acesso ao peito quando quiserem – e assim continuar seus afazeres. “Elas vão fazer o artesanato, tirar roupa do varal, isso e aquilo, geralmente com a criança no peito”, conta. As Tapayuna também têm um hábito de amamentar até escassear o leite.

As Kayapó utilizam uma espécie de sling para carregar as crianças enquanto trabalham. Foto: Maria Ribeiro

As Kayapó utilizam uma espécie de sling para carregar as crianças enquanto trabalham. Foto: Maria Ribeiro

As crianças Kaingang mamam no peito de mais de uma mãe, segundo a tradição, e até quando quiserem. “Eu vejo que a gente não tenta colocar todo mundo na mesma caixa. Cada um é um. E cada um é diferente entre si”, explica Joziléia Daniza Jacodsen (Yakixo), antropóloga Kaingang. Ela explica que algumas crianças já param de mamar com menos de um aninho enquanto outras podem mamar até os seis anos.

O desenvolvimento e a necessidade da criança é respeitado. “Dos meus, cada um foi diferente. A gente incentiva eles a comerem sozinhos, dentro do seu tempo”, diz.

A pesquisadora Kaingang aponta que, desde que as mães passaram a trabalhar fora, em fábricas da região, o período de amamentação teve mudanças. “Elas passam, às vezes, onze horas fora de casa. Mas eu vejo que é uma transformação que tem que acontecer. A nossa vida não é mais como era antes e temos que nos adaptar às necessidades”, pondera.

“Vocês não sentem ciúme de outra mãe amamentar o seu bebê?”, pergunta a reportagem. “Você ser a mãe biológica tem um peso grande”, assume Joziléia e destaca que, nos primeiros dias de vida, a criança depende da mãe para se alimentar, para sobreviver, e o instinto nesse período é muito forte e necessário.

“Não é que não existe o ciúme, mas a relação de pertencimento é distinta”, pondera.

“Você sabe que é importante para o seu filho que a avó leve ele pra tomar banho, que outras mães deem comida, que ele se relacione com os diversos irmãos… porque isso é um apoio”, complementa.

CARPINAR

Assim como qualquer mãe, as indígenas também passam momentos de apreensão em que os cuidados precisam ser tomados com mais rigor. Joziléia explica como acontecem os ritos de proteção logo que o bebê nasce. Ouça:

Já as mães Tapayuna passam momentos de aflição quando seus filhos estão prestes a passar por algum ritual perigoso, como a corrida com toras. O ritual envolve o corte da tora de Buriti no mato, que é extremamente pesada, assim como o deslocamento dessa tora para a aldeia. Outros rituais podem envolver animais venenosos, como vespas e formigas.

“Algumas chegam a chorar de medo que seus filhos se machuquem”, destaca Daniela de Lima.

Os Guarani, com seu jeito de falar baixinho e calmo, costumam usar a expressão “tem que aguentar” como resposta para as adversidades. Eles não costumam se abrir com facilidade, especialmente com quem não conhecem, mas quando engatam uma conversa, a quantidade de informação é preciosa.

Meninas Kayapó ensinaram sua cultura através do contato diário na Aldeia Multiétnica 2016. Foto: Maria Ribeiro

Meninas Kayapó ensinaram sua cultura através do contato diário na Aldeia Multiétnica 2016. Foto: Maria Ribeiro

Para as mães Guarani, um momento de cuidados especiais é quando as meninas entram na puberdade e têm sua primeira menstruação. Santa Moreira, parteira Guarani da aldeia do Amaral em Biguaçu, Santa Catarina, descreve as minúcias do processo: a menina vai passar de 15 a 20 dias de resguardo – sem sair de casa, sem pegar vento, sem encostar em água fria, comendo apenas comida típica sem sal, sem óleo e nada de açúcar.

Após esse período, ela receberá um banho de ervas e cinzas e seu cabelo será cuidadosamente amarrado. Depois disso, a menina continuará em um regime de atividades mais silenciosas e calmas até o próximo ciclo, quando ela passa a cuidar da sua menstruação, sempre observando a época do sangramento como um tempo de retiro.

“Todo aprendizado desse período é pra ensinar ela para o futuro”, justifica Santa.

COLHEITA

Todo esse cuidado costuma resultar em muita felicidade para as mães. Algo que deixa as Tapayuna muito felizes, por exemplo, é que seus filhos arranjem um bom matrimônio. “Quando o casamento é bem planejado, você consegue trazer o seu genro pra perto de si, a prestação do trabalho pro sogro está bem estabelecida e os pais têm uma boa relação com os pais dos cônjuges, é um momento muito importante e de felicidade para elas”, conta a antropóloga que conviveu com os indígenas da Terra Indígena de Wavi, no Mato Grosso.

O motivo da felicidade é a continuidade dessa rede de relações, a constatação de que seus frutos darão sementes. E começará tudo de novo.

As semelhanças são muitas: crianças se machucam, choram e ficam doentes. Elas mordem o bico do peito da mãe quando começam a vir os dentes e as mães não querem mais dar de mamar. Elas também riem e fazem gracinhas para a família toda babar.

Crescem e precisam de cuidados e, às vezes, os pais gostariam de dar mais aos seus filhos – coisas materiais, tempo, estudo ou uma natureza mais preservada. Casam e se mudam – às vezes para perto, às vezes para longe. Alguns homens são pais mais dedicados e amorosos que outros, alguns tem mais poder social e político, outros menos.

Algumas mães e pais têm que enfrentar tragédias e morte dos filhos e passam por processos duros de luto. Não importa quantos filhos tenham tido na vida. E alguns deles têm uma rede e um suporte forte para superar tudo isso. Outros não.

Mas vão vivendo. “Tem que aguentar”.

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