Foto: Odonata Wellnesscenter

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Ingredientes:

– duas ou três canecas de cerveja;

– 3 ou 4 homens em torno de uma mesa, à-vontade suficiente para serem “humoristicamente” machistas;

– tempero à gosto.

Modo de Preparo:

Sente-se à mesa, deixe-os falar e vá tirando notas mentais. O gostinho final valerá mais cada vez que morder a língua.

No início deste mês saí com uns amigos. Homens CIS (cisgénero, termo utilizado para se referir às pessoas cujo género é o mesmo que o designado na altura do seu nascimento), de esquerda, criativos, educados. Curiosamente era a única mulher CIS neste grupo. Falava-se em homens…

–  Pessoas – disse um deles a dada altura, olhando para mim e sorrindo condescendentemente, depois de um “já sei que a Paula vai reagir desta forma!”

… e de mulheres que pudessem juntar-se a um novo projecto político de esquerda. Havia, como há quase sempre, falta de representatividade, não só no grupo, como no projecto. Era preciso mulheres CIS que pudessem, também elas, contribuir.

– E aquela tua amiga que é gira (gata, para as brasileiras) e também escreve? – disse um deles, como se escrever fosse secundário, contanto que fosse bonita.

Numa outra conversa com um amigo esta semana, dizia-me ele que as mulheres têm sorte, hoje em dia, com os homens. Dizia ele que, em comparação com as gerações anteriores, esta geração era o “filet mignon” (a melhor parte do bife, explicava ele) dos homens. Comparava a geração actual com a geração anterior, mais machista, menos propensa a partilhar as tarefas em casa, tomar conta dos filhos, respeitar a opinião das companheiras, etc.

Não é bem assim. Sim, há hoje uma sociedade tendencialmente menos machista, mas há ainda muito machismo nos homens portugueses e, a bem dizer, na sociedade como um todo.

Um machismo discreto e escondido, quase hipócrita, em que parece “mal” ser machista e, por isso, é preferível procurar a igualdade no discurso e em algumas acções, enquanto mantêm secretamente valores não tão igualitários assim.

São homens de esquerda que mantêm uma postura machista e negacionista, não se assumem como machistas, não têm em conta o silenciamento que produzem e, quando confrontados com a situação, dizem com ar ofendido, que era uma piada, que as mulheres não têm sentido de humor.

Esta semana fez 99 anos a Revolução de Outubro. Publiquei um artigo de uma zine feminista sobre a evolução dos direitos das mulheres na ex-URSS, mencionando a sua importância, sem, no entanto, não deixar de mencionar que esses direitos, sem dúvida à frente do seu tempo, não representam o fim do patriarcado.

Depois de vários comentários, logo veio quem distorcesse o discurso, que dirigisse a conversa para outro tema, com o único propósito de desconsiderar a luta contra o machismo e a LGBTransfobia. É uma questão secundária, que deve ser tratada nos termos determinados por eles, no tempo deles e depois das questões de classe, compreendida por eles em sentido estritamente económico.

Quando pedi a algumas amigas para comentarem estas experiências, quase todas tiveram medo de passar por descontentes, loucas e exageradas, porque afinal:

– Ele até ajuda em casa; ou

– Ele até nem tem problemas em lavar a louça ou cozinhar; ou

– Ele é o primeiro a atacar politicamente discursos misóginos ou sexistas, etc…

É difícil atacar um homem que parece ter atitudes tão nobres, dizia-me uma amiga, nenhum deles vai ser convencido a repensar o seu sexismo ou mesmo a reconhecer que tem comportamentos sexistas.

No fundo existe esta crença social que as mulheres exageram, que não veem a evolução e o progresso que os homens foram capazes de atingir hoje em dia, que não somos capazes de valorizar a desconstrução e perda de privilégio que têm vindo a fazer.

– As mulheres querem tudo e querem tudo já – insistia um outro amigo

– E os homens, coitados, que já não basta terem de desconstruir o machismo diário a que a sociedade os expõe, ainda têm de ouvir estas queixas, como se não fossem “esforçadinhos” o suficiente, não é? – disse-lhe eu.

Retorquiu de sorriso aberto:

– Vá lá, admite que até merecemos umas pancadinhas nas costas!

No fundo, os homens procuram uma pancadinha nas costas. Como se devessem ser premiados por não serem idiotas, por serem respeitadores, por serem menos machistas que os seus pais e mães, por terem melhor acesso à educação e a uma visão da sociedade mais igualitária. Uma espécie de medalhinha por bom comportamento como se tivéssemos que premiar as pessoas por serem menos racistas ou por tratarem melhor as pessoas com deficiência:

– Vá, ponham-se todos na fila, vamos dar um doce a todos aqueles que não foram tão horríveis como os seus avós e que respeitaram um bocadinho mais os direitos humanos!

Brief Interview with Hideous Men

O que nos leva ao tema desta semana.

Num domingo em que a preguiça era maior que a vontade de sair, cruzei-me na televisão com um filme chamado “Brief Interview with Hideous Men” (Breves Diálogos com Homens Horríveis) de 2009. Um filme de John Krasinski baseado no livro com o mesmo título de David Foster Wallace.

Muito pode ser argumentado em relação a esse filme desde as entrevistas que foram escolhidas, bem como alguns extratos, escolhidos a dedo, que melhor sirvam o propósito de denegrir a boa imagem dos homens que, coitadinhos, tanto se esforçam. Não li o livro, pelo que não posso garantir que o filme seja fiel aos vários testemunhos lá descritos.

O filme não é fenomenal, mas traça uma imagem daquilo que é o machismo social hipócrita e dito inofensivo que passa quase despercebido nas entrelinhas da sociedade. As representações podem ser extremos de caricatura, mas conseguem “soar” a verdadeiras e focar tendências que, facilmente, muitas pessoas serão capazes de relacionar ao seu dia-a-dia.

Não há nada no filme que o obrigue a tomá-lo como uma generalização sobre todos os homens, mas todos os homens encontrados no filme representam facetas desse machismo discreto, apesar de cada qual trazer uma vasta gama de idiossincrasias diferentes: alguns homens reagem de modo muito agressivo, outros objectificam as mulheres ao colocá-las num pedestal e ainda assim não as tratarem como seres humanos. Há um homem que tira proveito de uma amputação para gerar pena e manipular as mulheres que quer convencer a dormir com ele. Outro aproveita o sofrimento de uma mulher para dormir com ela, mesmo que simpatize com ela.

Um homem que revela em série às mulheres que tem problemas de intimidade, o que, na sua ideia, implica que porque faz essas revelações, o ciclo deve terminar (não termina) e as mulheres que se afastam são terríveis insensíveis que não quiseram compreender a sua sensibilidade. Temos repetidos pensamentos e esperanças de homens que acreditam que uma mulher pode salvá-los da sua própria horribilidade. E, finalmente, todo esse sexismo e disfunção relaciona-se com histórias de agressão sexual: uma pessoa pode tratar outra pessoa como um objeto, uma coisa, de várias maneiras.

O único momento eloquente do filme é o único monólogo não dedicado ao jogo sexual. Um homem negro de meia-idade é entrevistado no hotel de luxo onde o seu pai trabalhou durante décadas como paquete. Durante a entrevista imagina o que considera ser uma humilhante rotina diária do seu pai. Se há alguém no filme que possa ser chamado de herói, é este paquete que silenciosamente aparece nas recordações do seu filho, impecavelmente vestido de branco, quase invisível ao mundo, que contrasta pela falta de privilégio masculino face às práticas e desabafos de inúmeros homens de negócios ricos.

Em poucos momentos o espaço é dado a mulheres, embora as entrevistas sejam feitas por uma estudante que procura perceber “o que o feminismo fez aos homens”, por oposição aos ganhos pragmáticos que trouxe às mulheres (direito ao voto, acesso a meios contraceptivos, divórcio, etc.). De que modo foram os homens modificados? Que efeitos teve o feminismo na construção de masculinidades? Até que ponto é frágil essa masculinidade?

A linguagem molda a nossa cultura, a nossa sociedade e a forma como pensamos em diferentes grupos, e, por isso, nunca pode ser considerada inofensiva, mas o que acontece quando o fanatismo é codificado não como comédia, mas antes como tragédia? E não apenas para os oprimidos, mas também para os opressores? Embora os dispositivos narrativos usados no ensaio pudessem ser interpretados como a construção de um certo senso de opressão da “masculinidade”, a verdade é que a mensagem geral é feminista.

A maioria das histórias em Breve Entrevistas, apresenta um narrador que é sexista, e embora haja certamente uma sensação de humor mordaz,  a imagem global é trágica. A história corre o risco de pintar as personagens e o seu sexismo como heróis trágicos ou, pelo menos, pintar os homens como “verdadeiras vítimas” do patriarcado. Mas, em vez disso, há um senso consistente de autoconsciência e linguagem imbuída de um sentimento de vergonha, de modo que nunca nos é permitido esquecer que este é, de fato, um “homem horrível”.

Conscientemente retrata-se um novo tipo de sexismo na era moderna: aquele que é apenas socialmente consciente o suficiente para se envergonhar dos seus pontos de vista sobre as mulheres, mas não evoluiu o suficiente para mudá-los, aquele que precisa de uma pancadinha nas costas para se sentir menos mal consigo mesmo.

Não podemos pintar todos os homens por essa tarimba e precisamos reconhecer que essas construções sociais, se calhar, só daqui a gerações é que desaparecem de facto e que há muito trabalho ainda a fazer. Até lá, os homens podem ser bem intencionados, e ter hormonas e dizer patetices, e estar errados (tal como as mulheres) e assumir que estar errado não é uma submissão da sua masculinidade, mas um crescimento como individuo dentro de uma sociedade que se quer inclusiva e igualitária.