liberdade

Uau, a gente não imaginava que o barulho ia ser tanto! No dia 23, AzMina lançou a campanha #mamilolivre (se você ainda não conhece a campanha, saiba mais aqui), e, logo nas primeiras horas, a coisa começou a bombar e virou avalanche quando a youtuber Jout Jout, a nosso pedido, apoiou a campanha postando um peito em sua linha do tempo. Viramos notícia, fomos troladas, aplaudidas, ignoradas. Agora é hora de contarmos tudo que botamos no caldeirão do projeto e incluir o Facebook nessa conversa.

Muita gente perguntou: qual é o sentido de fazer uma campanha como o #mamilolivre quando há tantas outras opressões (muitas delas bem mais violentas) que cercam as mulheres no dia a dia? Bom, uma coisa não precisa excluir a outra, mas se o #mamilolivre não é (e nem pretende ser) pra todas, ele é pra muitas.

O #mamilolivre é para mulheres como Priscila Navarro Bueno, que em 5 de fevereiro de 2014 foi repreendida por um segurança do Museu da Imagem e do Som (MIS) por amamentar em público. 

Depois da repercussão do caso, o museu se desculpou, compreendendo que o seio de uma lactante não é pornografia. Mas, como atestam muitas mães brasileiras, o respeito ao direito de amamentar em público ainda está longe de estar garantido.

O #mamilolivre é também pra que a gente possa olhar com respeito pra outras culturas que não erotizam os seios. Não houve respeito algum quando o Facebook censurou um registro histórico dos índios Botocudos, publicado na página do Ministério da Cultura em abril de 2015. O então ministro Juca Ferreira comprou a briga e a rede social acabou liberando a foto, mas esta e outras imagens semelhantes seguem sendo taxadas de “conteúdo impróprio” em perfis de pessoas que não tem a força de um ministério para questionar o Facebook.   

Reprodução Ministério da Cultura

Foto: Walter Garbe/Reprodução

É pra que a gente possa ter o direito que os homens americanos conquistaram no final da década de 30. Pouca gente sabe, mas a lei nos EUA proibia o topless masculino e punia os infratores com multa. Foi preciso um estardalhaço que deve ter parecido ridículo para muita gente até que os homens pudessem, por exemplo, ir à praia sem camisa. A experiência americana influenciou o mundo, mas a ninguém ocorreu estender o direito às mulheres, apesar da amamentação.

O #mamilolivre é para que se cumpra, nas maiores violências e nos menores detalhes, a Constituição Federal, onde se lê que “homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações”. Por que esta lei não se aplica aos nossos mamilos? É, inclusive, pelo direito de não mostrar – que hoje não é escolha, é mais uma das regras que somos forçadas a engolir.

Acima de tudo, o mamilaço é uma disputa simbólica sobre o direito de atribuir significado ao próprio corpo, de dizer que nossos mamilos são, em certo momento, maternidade; em outros, política; em outros, quando e somente quando nós determinarmos, sexo. E, de vez em quando, apenas pele exposta ao vento porque está calor. Mamilos não precisam ser obscenos. O corpo da mulher não precisa ser polêmico.

Mas a repercussão inesperada mostrou que precisamos também falar sobre os limites da campanha, porque ela não dá conta – e nem poderia dar sozinha – do sem fim de opressões vividas pelas mulheres.

Lembramos aqui da violência doméstica, da LGBTfobia ou das mães do zika. Da maternidade compulsória, do abuso infantil e do aumento no número de homicídios de mulheres negras.

AzMina é aguerrida na luta por cada uma destas causas. E seguiremos sendo, sempre.

Nós disparamos uma campanha que problematizou a “mulata Globeleza”, ícone da hipersexualização da mulher negra no Brasil. Investimos em reportagens investigativas sobre o abuso sexual de crianças quilombolas (esta premiada pela universidade do Texas), sobre os hospitais públicos que deveriam oferecer aborto legal (primeiro lugar no prêmio Synapsis de jornalismo), sobre as mulheres vítimas do desastre ambiental da Samarco/Vale.

Organizamos um debate sobre aborto, transmitido ao vivo pela página Quebrando o Tabu, com Djamila Ribeiro, Débora Diniz, Thomaz Gollop e José Henrique Torres. Construímos com outros coletivos a campanha #CarnavalSemAssédio, escrevemos sobre a demissão em massa de mulheres durante a crise, entregamos uma petição, com milhares de assinaturas, pela manutenção do direito de vítimas de estupro interromperem a gravidez no SUS, que vinha sendo ameaçado por Eduardo Cunha na Câmara. E a lista se estende.

É uma pena que o #mamilolivre repercuta tão mais do que projetos, d’AzMina e de outros coletivos, que se referem a opressões muito mais violentas do que o tabu do mamilo feminino. Isso, somado aos comentários de homens que se diziam excitados com os seios que o projeto espalhou, é sintoma de uma sociedade ainda muito machista.

Mas a gente garante: seguiremos discutindo esses temas, assim como também seguiremos falando sobre poesia feminista, representatividade no cinema, moda e outras pautas que não são menos justas por serem menos violentas.

Quanto às mulheres fotografadas, só temos a agradecer por estarem na linha de frente da campanha. Elas são amigas e conhecidas – todas, obviamente, maiores de idade – que participaram voluntariamente, como forma de apoiar o projeto. Por isso, é natural que a amostra não dê conta de toda a diversidade de corpos da mulher brasileira, mas esperamos que mulheres de todas as etnias e idades sintam-se à vontade para participar, da maneira que lhes for mais confortável, na próxima. Deixamos as portas sempre abertas e nos comprometemos em seguir lutando por uma instituição cada vez mais diversa.

Do Facebook, seguimos esperando um posicionamento. Nós sabemos que vocês estão de olho em nós.

O desejo d’AzMina, Facebook, é contribuir, junto com os coletivos que queiram embarcar nessa, para a construção de um espaço virtual mais equânime e menos violento. Queremos falar de mamilos, mas também de cyberbulling, de compartilhamento não autorizado de nudes e de outras violências cujo palco são as redes sociais. Que tal se a gente juntar o know how de vocês e a experiência da mulherada? Vamos construir junto?

Por fim, é importante dizer que AzMina acredita que a luta pelas liberdades individuais (como a de mostrar o seio) não rivaliza com o recorte interseccional – aquele que foca menos no indivíduo e mais nas diferenças entre os diversos grupos que nos unem neste guarda-chuva tão plural chamado mulher.

Que todas possamos escolher a causa que mais nos sensibiliza, e que a gente respeite quem escolhe bandeiras diferentes das nossas. E, sobretudo, que a gente nunca se esqueça de que somos diversas, mas que, juntas, somos uma grande e poderosa força.

Da Redação