*Esta é uma das investigações patrocinadas pelo Programa de Bolsas de Reportagem da Revista AzMina que você ajudou a tornar realidade. Leia a série completa aqui.

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O riso da Kayapó – a maternidade tem alegrias e aflições em qualquer etnia. Foto: Maria Ribeiro

– Essa matéria aí é muito preconceituosa

– Sério?!

Era sexta-feira à noite e fazia três semanas que eu tentava entrevistar mulheres sobre o tema “O que as mães indígenas têm a nos ensinar?”, quando a indígena Tukano Daiara Figueroa, professora em Brasília e ativista dos movimentos indígenas, me deu esse tapa na cara simbólico.

Talvez tivesse sido mais verdadeiro dizer que eu estava farta de ver minhas amigas sofrendo a pressão de serem “boas mães” e queria trazer outras formas de maternidade para ajudar no debate. Que outras formas? As tribais, por exemplo.

– Mas isso é um fetichismo cultural – atesta Daiara. – Por que você acha que as mães indígenas são melhores? Acaso você acha que as brancas são piores? Ou as negras?

Senti o chão se desfazendo debaixo da cadeira e me vi caindo num buraco sem fundo. Uma pontada no coração e falta de ar.

Corta a cena. Voltamos quatro meses no tempo.

A maternidade como a concebemos hoje foi introduzida pelos colonizadores europeus para as mulheres indígenas e negras, que tinham outras formas de organização na questão”. A frase foi publicada na matéria “Nunca quis ter filho”, aqui mesmo da Revista AzMina. De cara, me identifiquei com o título. Quando li essa frase, ela não só chamou minha atenção – ela ressoou na minha alma!

Meu medo de ter filho é o de não ser capaz. Não dar conta. Não confiar em ninguém que vá assumir o compromisso de me dar um suporte verdadeiro. Vou colocar mais um ser humaninho nesse mundo doido pra quê?

Parir é uma coisa que dá um certo pânico. Ao mesmo tempo, sempre quis amamentar. Para mim, parece a coisa mais incrível que uma mulher podia fazer. Contraditório? Talvez. Mas quando li que as indígenas e as negras teriam outras formas de se organizar, uma chama (re)acendeu no meu coração, nas minhas tetas e nas minhas ancas.

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Meninas Kayapó brincam na Aldeia Multiétnica, em Alto Paraíso-GO. Foto: Maria Ribeiro

Abre parente(sis)

Meu bisavô era índio, da aldeia, curandeiro. Perdemos quase tudo que ele sabia – desde a língua até os remédios. Só restou o cabelo preto escorrido da minha mãe, que eu costumava usar de “peruca” sempre que ela me carregava no colo encaixada na lateral do quadril. Restou o costume de deixar os filhos com as tias e com a avó sempre que ela precisava fazer algo sozinha – “enquanto vocês estiverem aqui, têm que obedecer a tia igual obedecem a mãe”.

Restou quase nada.

Eu já sabia que os Guarani dão muita importância e valor para as tias. E por “tias” se entende, basicamente, todas as mulheres de seu convívio que sejam da mesma geração que sua mãe. Eles as tratam com o mesmo respeito que a mãe e seus conselhos são tão importantes quanto.

Tá aí: eu queria mesmo era ser tia. Dessas que cuidam como se fossem mãe. Eu sonhava em montar uma vilazinha com todas as amigas que têm esse mesmo pensamento e fazer nossa própria rede de mães. E todo mundo se ajudar e ser tia dos filhos das outras.

Mas, afinal

Quais eram essas formas de organização das indígenas e negras antes do colonizador chegar? Eu quero saber! Será que esse outro imaginário de maternidade poderia me salvar? Será que o motivo para eu não querer ser mãe seria essa ideia que eu tenho de maternidade branca, urbana, machista?

Corta.

Volta para aquela sexta-feira à noite.

– Eu acho nada a ver essa coisa de algumas pessoas ficarem fantasiando ou mitificado a maternidade indígena. Maternidade é maternidade.

Daiara tinha passado a semana postando fotos e pedidos de ajuda para os Guarani Kaiowá que estavam sendo massacrados – de novo, ainda, sempre, que droga!, quando isso vai parar? – por fazendeiros no Mato Grosso do Sul. Ela me explica que não é possível falar de maternidade indígena porque existem mais de 300 povos indígenas – sim TREZENTOS. Mesmo que alguns tenham práticas e conhecimentos parecidos, cada um tem sua cultura, que é diferente da dos outros.

E mais: cada recorte vai mostrar uma maternidade diferente – diferente no status social e econômico da mulher dentro da sociedade, se vive na aldeia ou no meio urbano, se tem terras demarcadas ou não. “Eu não sou melhor que ninguém e ninguém é melhor que eu. Não somos diferentes, mas diversos”, me falou a Tukano. E especialmente: não dá pra comparar com a maternidade branca.

– Mas você acha que é possível fazer essa matéria de uma maneira que não seja preconceituosa?

– Acho que você pode mostrar quais as semelhanças. Porque na diferença nasce o preconceito.

Desafio aceito.

O resultado você vai ler nas próximas reportagens da série aqui na Revista AzMina.

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