Meghan Makers

Quando saiu a premiação “Working Mother of the Year” (Mãe Trabalhadora do Ano), em 2014, Meghan Stabler não conseguia acreditar que havia sido reconhecida. O prestigioso prêmio da revista Working Mother seleciona todo ano uma mãe que tenha superado obstáculos pessoais e profissionais e feito grandes contribuições para a sociedade e para sua empresa. No entanto, para Meghan, o reconhecimento significava muito mais: ela era a primeira mulher trans a receber a nomeação.

“Foi uma honra ser nomeada, pelo que isso representa pela diversidade, para as pessoas trans, e também por todas as mulheres do mundo que trabalham e se equilibram com o grande acúmulo de tarefas”, comenta Meghan, que também acha que o prêmio tem um quê de sexista, pois reforça o papel da mulher como cuidadora dos filhos. No entanto, ela comemorou e comemora até hoje a nomeação, reconhecendo o significado que tem para toda a comunidade trans.

O ativismo hoje em dia faz parte da rotina de Megan, que é membro de diversas organizações de direitos LGBTT nos Estados Unidos e chegou até a aconselhar a última campanha presidencial de Barack Obama. E quando é questionada sobre o porquê de ser uma ativista, sua resposta é direta: “Porque eu perdi todos os meus direitos”.   

“De repente, eu estava do outro lado”

A vida toda, Meghan sentia que havia algo errado com ela, mas não sabia o que era. “Quando eu era criança, eu rezava por três coisas toda noite: para acordar uma menina, para ter roupas de meninas e que meus pais continuassem me amando depois disso”. No entanto, na década de 70 não existiam referências de pessoas trans para ela, então Megan basicamente precisou reprimir o que sentia e seguir a vida.

Foi somente muito depois, que ela começou a entender que era uma mulher trans. No início da década de 2000, começou a considerar fazer a transição, mas tinha medo, principalmente por sua carreira. Sendo CEO em uma grande empresa de tecnologia, Megan temia que o preconceito influenciasse sua vida profissional. Por isso pensou cada detalhe do processo.

Em 2004 ela fez a transição e conta que foi como um jogo de xadrez misturado com dominó: ela precisou planejar não apenas cada etapa das cirurgias e tratamentos hormonais que faria, mas também ter em mente como direcionar sua carreira e lidar com as possíveis consequências que enfrentaria no ambiente profissional.  O planejamento deu certo, mesmo depois de voltar para a empresa, Meghan conseguiu manter sua posição, mas muito mudou.

“Antes eu entrava em reuniões e eu estava do lado dos machos-alfa. Os homens eram os dominantes nas mesas de reuniões. Eles pediam para as mulheres buscar café, eles lideravam tudo, dominavam. Eu sempre percebi isso e incentivei as mulheres a falarem. Mas de repente eu estava do outro lado e a sensação era de que me tratavam como se eu não estivesse ali”.

E fora do trabalho as coisas também não eram fáceis. “De repente as pessoas me achavam estranha. Por que um homem branco ia querer abrir mão de tudo para se tornar uma mulher? As pessoas não entendiam que eu passei por tudo para poder ser quem eu sou”.

E foram essas percepções que fizeram com que Meghan passasse a atuar cada vez mais na luta pelos direitos das pessoas trans de poderem se casar, adotar filhos e ter espaço no mercado de trabalho.

Atualmente ela trabalha em outra empresa de tecnologia conde coordena atividades para estimular a diversidade na companhia, além de prestar consultoria para outras empresas que queiram construir um quadro mais diverso. O principal ponto que defende é a igualdade de tratamento entre todos os funcionários, independente de identidade de gênero ou orientação sexual. Mas veja bem, Meghan não é a favor de cotas nas empresas. Ela acredita que sim, pessoas trans devem ter oportunidades, mas de acordo com o que podem oferecer para o ambiente profissional. “O que importa é o que você traz para o trabalho e não sua roupa, ou sua vida pessoal”.

Receio com as eleições

Meghan também conta que a situação das mulheres trans no Estados Unidos é bem parecida com o que acontece no Brasil: sem oportunidades e vítimas de preconceito, elas acabam se prostituindo como única alternativa de vida. Mas ela acredita que o cenário tem melhorado nos últimos anos, com conquistas de direitos que têm permitido que cada vez mais pessoas possam fazer a transição. “Uma grande conquista foi o serviço militar para pessoas trans. Existiam muitos soldados no exército que reprimiam quem são. Agora é possível continuar servindo o país e assumir sua identidade de gênero”.

É claro que Meghan está receosa com o resultado das eleições presidenciais dos Estados Unidos que saem hoje. Ela acredita que Trump presidente significaria um grande retrocesso para toda a comunidade LGBTT dos Estados Unidos. “Se ele for eleito, tudo que foi feito por nós se vai, incluindo igualdade de casamento ou serviço militar para pessoas trans. Se Hillary for eleita, ela vai dar continuidade às políticas de direitos para a comunidade gay”.