*Esta é uma das investigações patrocinadas pelo Programa de Bolsas de Reportagem da Revista AzMina que você ajudou a tornar realidade. Leia a série completa aqui.

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A maioria das mulheres Kayapó não fala português, mas entende. Foto: Maria Ribeiro

O som estridente das Kayapó corta a poeira e os ouvidos na tarde quente, as crianças nas ancas. Dois Yawalapiti saem em casal de dentro de sua oca, a mulher com a mão no ombro do homem que toca um ubu, uma espécie de flauta gigante. As Krahô cantam um mantra hipnótico, parecem estar em transe. Na sua frente, um único rezador dança com um chocalho, se deslocando do começo ao fim da linha de mulheres num vai e vem interminável. As Fulni-ô não participam da apresentação de abertura – parece que este ano quase só vieram homens.

O Brasil tem 305 etnias indígenas que falam 274 línguas, segundo o IBGE. A gente sabe disso porque os amigos publicam o censo populacional no Facebook e porque lemos os jornais. Mas não entendemos – não de verdade – o que isso significa.

Por uma semana, a reportagem conviveu com indígenas de sete etnias no meio do cerrado, durante a 10a. Aldeia Multiétnica, que ocorreu na Vila de São Jorge, na Chapada dos Veadeiros. Comendo, cantando, dançando, rezando, ralando mandioca, contando volta de colar de miçanga, recebendo pintura corporal. Só assim deu pra começar a entender que cada etnia realmente faz as coisas do seu próprio jeito – e com a maternidade não é diferente. E que diversidade tem bem mais significados do que supõe nossa vã filosofia.

“Dentro do macro tronco Jê estão incluídos os Krahô e os Kayapó. Mas a língua e os costumes são tão diferentes entre eles quanto brasileiros e alemães”, conta um dos organizadores do evento, o indigenista Fernando Schiavini. Dentre as etnias, questões como a estrutura da aldeia, parentesco, nomenclatura, restrição alimentar e cosmologia podem ser mais próximas ou completamente diferentes umas das outras.

“É importante lembrar que essa realidade indígena é extremamente complexa, diversa e multifacetada e a questão da maternidade entra nisso“, aponta a antropóloga Daniela de Lima, que já trabalhou com o povo Xavante e atualmente desenvolve pesquisa com os Tapayuna.

Leia o relato da repórter que fez esta investigação: “Nas indígenas, eu buscava uma nova maternidade para me salvar”

Para entender o modelo de maternidade de cada mulher, é preciso considerar se o povo ao qual ela pertence tem suas terras demarcadas ou não; se mora longe, perto ou até mesmo dentro da cidade; se vive em beira de estrada, defendendo-se de bala de capanga de latifundiário; se dentro da sua comunidade ela tem lugar de destaque; se é ama-de-leite; se é esposa ou filha de liderança; se ela mesma é liderança; se é mais velha ou mais nova; quantos filhos ela tem; se trabalha fora da aldeia ou fica em casa; se a sua etnia ainda fala a própria língua ou majoritariamente o português.

São tantas possibilidades de recorte quanto qualquer não-indígena.

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Os Krahô costumam tomar pelo menos dois banhos por dia, inclusive as crianças. Foto: Maria Ribeiro

Semelhanças x Diversidade

No início da minha pesquisa, a reportagem recebeu um puxão de orelha da Daiara Figueroa, do povo Tukano. “Focar na diferença gera o preconceito”, aconselhou ela. Foi então que começamos a notar as semelhanças entre essas mulheres, tanto entre si quanto com as não-indígenas.

Todas as mães ouvidas nesta reportagem, por exemplo, tomaram algum tipo de cuidado especial na gravidez. A alimentação, os chás ou mesmo uma rotina diferente são alguns dos cuidados mais citados para gestantes. Claro, cada uma dentro da sua cultura, da sua cosmologia, daquilo que acredita e conhece. Todas levam em consideração o que os mais velhos falam. Algumas ouvem e discordam, naturalmente. A maioria também respondeu que é feliz quando seus filhos estão felizes, saudáveis e bem encaminhados. Cada uma na sua visão do que é estar bem encaminhado.

Mãe não é tudo igual, ao contrário do que diz o ditado. E mãe indígena definitivamente não é tudo igual.

Mas existem, sim, algumas semelhanças. E diversas formas de ser mãe. Nenhuma é mais certa e nenhuma é errada. São diferentes. Diversas. Necessárias.

Em construção

Em anos recentes, mais mulheres são mães ou as mães têm tido mais filhos entre os grupos indígenas no Brasil, segundo a pesquisa sobre saúde indígena lançada pelo Ministério da Educação, com organização de Luiza Garnelo e Ana Lúcia Pontes. Porém, o número de filhos por mulher indígena é menor no meio urbano, segundo o Censo 2010.

As mudanças demográficas, geográficas e políticas também mudaram a cultura de muitos grupos indígenas e, por consequência, suas visões de maternidade. Na escola, aprendemos que índio tem cabelo estilo tigelinha, anda sem roupa e sempre tem penas em algum lugar do corpo – no cocar, na saia, no peito, no tornozelo ou num buraco no nariz.

“Você vê o índio de roupa, com celular, diz que não é mais índio. Mas por acaso você se veste igual aos portugueses que chegaram aqui em 1500?”, pergunta Seu Getúlio, liderança Krahô.

Mulheres Yawalapiti pintam uma faixa vermelha de urucum nos olhos e um delicado símbolo de peixe nas bochechas. Foto: Maria Ribeiro

Mulheres Yawalapiti pintam uma faixa vermelha de urucum nos olhos e um delicado símbolo de peixe nas bochechas. Foto: Maria Ribeiro

Da terra indígena Kaingang de Serrinha, no oeste catarinense, saem vários ônibus para empresas de frigoríficos na região. “Muitas mulheres trabalham fora. Isso tem influenciado o período de amamentação, que tem ficado cada vez mais curto”, conta Joziléia Daniza Jacobsen (Yakixo), pesquisadora Kaingang e coordenadora do curso de Licenciatura Indígena da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). “Eu vejo que tudo vai se transformando e a transformação tem que acontecer. A nossa vida não é mais como era antes e as necessidades têm que se adaptar”, explica.

Mas algumas tradições ainda se mantêm como contam essas duas mulheres sobre o parto:

Em suma, assim como cada etnia tem um traço próprio na pintura corporal, também cada mãe é diferente. “A gente não tenta colocar todo mundo na mesma caixa. Cada um é um. E cada um é diferente entre si”, explica Joziléia. E cada mãe é uma – seja ela indígena ou não. E todas fazem o melhor que podem dentro das suas possibilidades.

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