Quem senta no divã hoje é a diretora de redação d’AzMina, Nana Queiroz. 

gato ansioso

“Eu sou a pessoa mais ansiosa que minha cunhada conhece. Descobri isso nesta semana, quando falávamos com taças de vinho na mão e carinho na voz – tenho a sorte enorme de amar as mulheres que vieram no pacote com o meu marido. Ele, aliás, sentado no canto da sala, balançou a cabeça e disse: “Que eu conheça também”. Paro e penso: eu também sou a pessoa mais ansiosa que eu conheço.

Enquanto escrevo este texto, martelo as teclas do computador com uma força de ansiosa. O tempo vai me comer, meu Deus, se eu não correr mais rápido que ele! Ele está chegando! Eu só vou viver uns 80 anos! Não é o bastante!

Eu acordo de manhã em uma pilha de ideias e eu mesma não aguento a velocidade com que elas surgem na minha cabeça. Eu queria menos, por favor, eu queria um pouco de silêncio e estagnação!

Na redação d’AzMina, a diretora de arte tem medo de mim. Não por eu ser uma chefe turrona, longe disso (sou uma verdadeira frouxa), mas ela teme os dias em que eu acordo “atacada” e peço para elas fazer 350 artes até a hora do almoço. Às vezes, eu nem lembro de deixar a pobre de tirar os pijamas!

No fundo, ela tem toda a razão: é um exagero tudo isso, mas é um exagero ainda maior o que eu exijo de mim. Acreditem, o pior inimigo do ansioso é ele mesmo.

É uma mistura de egocentrismo e uma falta de autoconfiança gritante. Você acha que nunca é o bastante e, ao mesmo tempo, parece que todo mundo tá de olho para ver o seu fracasso, como se você fosse o centro do mundo. No fundo, toda ansiosa ou ansioso são gente medrosa. Eu tenho um medo terrível de fracassar, de não ser o bastante. Por isso, eu acho, eu acabo sendo demais, um exagero.

Quando eu olho os exageros da moda, acho eles terríveis. Nada mais patético e esteticamente ofensivo do que uma pessoa piruesca que exagerou nas referências. Quando eu vejo os exageros da arte, eu acho patéticos – basta pensar naquele amontoado de cores berrantes do Romero Brito, das quais nunca gostei. E eu, às vezes, me olho no espelho e me sinto exatamente assim: uma pintura num dia piruesco de Romero Brito.

Eu sou um exagero e eu simplesmente não sei ser diferente. Eu detesto ioga e tenho ódio toda vez que me recomendam me matricular numa escola – eu já cheguei a insistir por um ano inteiro, três dias de mantras insuportáveis por semana, odiando cada momento sobre o meu tapetinho. Eu tomo remédios, eu faço terapia. Eu adotei um cachorrinho porque achei que ele ia me ajudar a ver a vida com mais simplicidade. Nada.

Enquanto isso, pinga o celular sete vezes em grupos do Whatsapp e mais 30 notificações do Facebook. Eu fico inquieta: essas mensagens não vão se responder sozinhas enquanto eu bato este texto.

Odeio como as pessoas gostam de patologizar quem eu sou. Tem gente que pergunta se eu sou bipolar, quando eu só acho que sou intensa (um pouco temperamental, talvez). Quando dizem que tenho depressão e eu só acho que estou triste pra valer porque me importo muito com as coisas. Quando as pessoas suspeitam que eu tenho transtorno de ansiedade, quando eu acho que só tenho pressa. Eu não quero que a minha personalidade seja uma doença!

E nessas horas eu penso em uma reportagem que li na revista Time, em que eles diziam que as pessoas mais criativas do mundo, em geral, são ansiosas. Tem algo a ver com a quantidade de hormônios e a velocidade das ideias. E me convenço de que esta revista mesmo, AzMina, não existiria se eu não tivesse um tantão de ansiedade e um medo enorme do crowdfunding não bater a meta e o Recorrente não vingar (aliás, assinem AzMina, olha como é legal sentar aqui neste Divã e partilhar ansiedades com outras mulheres!). Se eu não saísse metendo os pés pelas mãos e errando um monte até alguma coisa dar certo.

Se eu não fosse ansiosa, talvez eu nunca teria aprendido tantas coisas, não teria corrido atrás de tantos projetos, não teria pressionado tanto meu marido por uma definição quando ele, há sete anos, ainda não sabia onde estávamos indo com aquele relacionamento de três meses – e não teria a relação em que eu sou feliz hoje.

O que eu deixo aqui não é uma reflexão, um receituário ou um conselho. É só pura e simples inquietação: como se livrar de algo que você tanto odeia e tanto ama? Algo que a impulsiona e castiga? Algo que é o melhor e o pior de você? Como não ser, neste mundo de tempo real, personagem daquela velha música do Queen:

I want it all, I want it all, and I want it now!”


Também tem um desabafo para fazer ou uma história para contar? Então senta que o divã é seu! Envie seu relato para helena.dias@azmina.com.br