*Esta é uma das investigações patrocinadas pelo Programa de Bolsas de Reportagem da Revista AzMina que você ajudou a tornar realidade. Leia a série completa aqui.Os Krahô costumam ter separação igualitária de papeis e todos cuidam das crianças. Foto: Agustina Martínez

Os Krahô costumam ter separação igualitária de papéis e todos cuidam das crianças. Foto: Agustina Martínez

Meio da tarde. Eu jogo bola com as duas meninas Krahô no acampamento – vôlei. Outras crianças correm por ali, os adultos tecem cestaria, cozinham, preparam tinta para os corpos. Ouço um choro dolorido. A mãe vai até a bebê que acaba de machucar o pé enquanto engatinhava pelo acampamento. Depois de conferir se está tudo bem, pega no colo, afaga. Passa a criança pro pai e volta para seus afazeres. O pai brinca um pouco, afaga mais um pouco, distrai a bebezinha com as palhas que vão virar artesanato. Depois de acalmá-la, senta a criança no tapete onde a avó tece um cesto. A bebê analisa o artesanato e volta a engatinhar pra longe.

As relações complexas de parentesco entre muitos grupos indígenas permitem que as crianças recebam atenção pulverizada e desenvolvam autonomia desde pequenos. Em uma casa Kaingang, por exemplo, o núcleo familiar é formado por “uma mãe velha”, que seria uma espécie de matriarca, e uma rede de mulheres: filhas, noras, netas e agregadas.

“Essas mulheres se cuidam e se apoiam entre si”, conta a antropóloga Kaingang Joziléia Daniza Jacodsen (Yakixo). Esse apoio inclui ir pra roça, cozinhar, cuidar das crianças e da casa, amamentar os bebês umas das outras, produzir o artesanato conversar. 

“Temos uma relação de parentesco que é além do sangue, é uma relação de afinidade”, explica Joziléia.

Essa rede complexa de relações pode ser observada em diversas etnias dos povos originários. Os Tapayuna, por exemplo, usam a mesma palavra para denominar “pai” e “tio”. É como se ambos fossem pais da criança igualmente. “Uma criança Tapayuna nunca está desamparada, sempre tem alguém para tomar conta dela”, aponta a antropóloga Daniela de Lima, que esteve na Terra Indígena Wawi – MT.  

Leia o relato da repórter que fez esta investigação: “Nas indígenas, eu buscava uma nova maternidade para me salvar”

É PEIXE

Essas relações complexas de parentesco garantem também uma tradição muito importante: as restrições alimentares e de comportamento do pai e da mãe de um recém-nascido. Quando o bebê está para nascer, em algumas etnias, o pai não deve se afastar muito dos arredores de casa. Isso significa que ele não poderá sair para caçar e pescar, não vai à roça ou colher frutos, explica Raquel Rorkwyj Krahô, da Terra Indígena Krahô – TO. Para garantir o alimento dos outros filhos, eles contam com a coletividade.

A mãe recebe o cuidado das outras mulheres não apenas na hora do parto, mas também no pós-parto. Ela precisará de ajuda com os outros filhos, na preparação de chás e ervas para deixá-la mais forte.

Santa Moreira, parteira Guarani da aldeia Amaral em Biguaçu – SC, conta que se a mãe não se cuidar no resguardo, ela fica doente e fraca. E isso passa para a criança: “Fica fraca, não cresce, sempre vai ser doente”, alerta.

PRIMEIRO NÓ

Já as crianças Tapayuna são muito apegadas à mãe até por volta dos dois anos de idade. As mulheres carregam as crianças em uma espécie de tipóia – algo parecido com o sling. Assim, elas têm acesso ao seio quase o tempo todo e mamam sempre que têm vontade. A antropóloga Daniela de Lima conta que, apesar desse apego, as crianças são amparadas por toda uma rede de cuidados. Ouça:  

Em contrapartida, as crianças também desenvolvem autonomia desde cedo. Assim que passa pelo desmame – que será em idades diferentes para cada bebê, mas geralmente ocorre entre um e dois anos – a criança já passa a comer sozinha, ir pro rio com as outras crianças e com grupos separados da mãe, a cuidar dos irmãozinhos e ajudar nas tarefas.

“A criança já começa a ficar responsável pelos seus atos e fica independente muito cedo”, diz Daniela.

Jozilléia Kaingang explica que, assim, as meninas iniciam na maternidade ainda crianças. “Nós nos tornamos mães muito cedo, ainda sem ter filhos biológicos, porque você cuida dos outros: dos irmãos, dos sobrinhos, depois do seu próprio, dos netos, de todos”. Assim que se aproximam da primeira menstruação, as meninas já passam a se envolver e participar da rede composta por mulheres.

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As Kayapó fazem sua apresentação primeiro apenas entre mulheres. Foto: Maria Ribeiro

Na aldeia dos Dessana, próxima a Manaus, as crianças brincam livres nos quintais. “Eles vão longe, porque a gente vive em família, perto um do outro… então, não tem perigo”, conta Gisele Fontes (Umussy). A familiaridade com os tios e tias torna mais fácil os afazeres do cotidiano. “Às vezes você está com a criança e precisa fazer algo, passa um parente e já leva. E a criança também se dá, porque estão sempre juntos. Então não fica tão pesado”, explica.

PAPÉIS GÊNERO

Os homens são os contadores de histórias para os Dessana. “Eles contam histórias e cuidam mais da parte dos mitos. Mas na hora de dormir tem que ser a mãe mesmo, porque tem mais jeito”, conta Gisele.

As mulheres Yawalapiti cozinham a comida tradicional - beiju. Foto: Maria Ribeiro

As mulheres Yawalapiti cozinham a comida tradicional – beiju. Foto: Maria Ribeiro

Na cultura Kaingang, tradicionalmente, a esfera pública é designada ao homem enquanto à mulher cabe o papel de nutrir, cuidar, educar e organizar a esfera doméstica. “Eles são pais muito amorosos, cuidam, brincam. Mas não têm a proximidade que as mães têm”, revela Joziléia.

Uma das questões da dissertação de mestrado da indígena foi justamente como as mulheres veem essa distinção e se elas consideravam ter suas demandas representadas pelas lideranças masculinas. “Achei fantástica a resposta de uma das avós: se é meu filho, se eu criei e eduquei, por que eu não me sentiria representada?”, conta a antropóloga. “São elas que criam as lideranças, são elas que conduzem”, conclui.

As avós têm grande responsabilidade dentro da sociedade Kaingang, pois cuidam dos filhos e dos netos. É comum as crianças morarem um tempo com a avó, tanto por vontade e necessidade da mãe quanto da própria avó. Ouça o relato da antropóloga Joziléia Jacodsen:

ME DÊ MOTIVO

“A minha experiência de perder os pais cedo me deu o suporte pra te dizer com mais certeza: você ter essa relação maior com as pessoas da sua família, de amor e de afinidade te faz superar as coisas muito mais fácil”, ressalta Joziléia.

A lógica da existência para os Tapayuna, o sentido da vida, é fazer parentes e ampliar a rede social, explica a antropóloga Daniela de Lima.

“Se relacionar é o centro de tudo. Ter filhos faz parte – aliás, é o aspecto mais importante disso. Quando você tem filho, você gera mais parentes. Em pouco tempo, vai ter genro ou nora e netos. Você gera e amplia a rede de parentescos”, conta. 

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