Portugal é país de praia, mar agitado em costa Atlântica, serra e campos verdejantes. Portugal é país de bacalhau, pastel de nata, tripas à moda do Porto. Portugal é país de fado triste e cante alentejano.

Mas Portugal também é um país onde ensinamos às crianças, desde tenra idade, que D. Afonso Henriques bateu na mãe para poder assumir o poder no condado Portucalense – lá no Norte, em Guimarães – e depois lançar-se na expedição que foi a conquista do território.

No que toca à violência doméstica, há 2,7 queixas por dia por pessoas idosas, 3 por dia de crianças e jovens (até 17 anos), 14,5 por dia de mulheres e 2,1 por dia quando falamos de homens.

Portugal também é o país em que D. Dinis espiava a esposa, a Dona Isabel – mais tarde consagrada Santa pela Igreja Católica – quando ela se escapulia do castelo para ir, conta a lenda, entregar papos-secos aos pobres.

As vítimas de “stalking”, ou perseguição, no que toca a queixas formais, é representada por 90,2% pelo sexo feminino, muito embora a crença popular passe a ideia de que são as mulheres as histéricas, as perseguidoras de homens.

Portugal é o país onde Pedro e Inês se apaixonam, uma história de amor partilhada no currículo escolar que encanta aqueles que são formatados para pensar em príncipes de espada em punho e princesas que aguardam o cavalo branco em direcção ao pôr-do-sol. E o seu pai, por motivos de conveniência política, envia um grupo de mânfios para a assassinar à facada.

Também em Portugal, o “amor” mata.

O Observatório de Mulheres Assassinadas (OMA) contabilizou entre 1 de Janeiro e 31 de Dezembro de 2015 um total de 29 mulheres assassinadas e 39 mulheres vítimas de tentativa de femicídio. Assim, em Portugal, são assassinadas 2,4 mulheres a cada mês, 87% pelas mãos daqueles com quem mantêm ou tinham mantido intimidade. Destas, cerca de 35% já se encontrava separada do homicida. Durante o ano transacto, registou-se um menor número de femicídios consumados, mas, numa análise temporal, não se pode afirmar que este crime tenha vindo a diminuir tendencialmente.

João VI, o rei que fugiu para o Brasil, era tão mau rei que a mulher, a Rainha Carlota Joaquina, mandava nos assuntos do estado, deixando os grandes louros políticos para ele e sua corte.

Portugal é um país onde as diferenças salariais se notam, colocando as portuguesas a trabalhar mais 22,5 dias por ano do que os homens. Esta é a conclusão do Global Gender Gap, o relatório anual sobre as desigualdades de género realizado pelo Fórum Económico Mundial. Em sua análise, a igualdade de género nos salários e oportunidades de emprego só será atingida daqui a 170 anos, ou seja, em 2186. O dado evidencia um retrocesso em Portugal, o país da União Europeia que viu a diferença salarial crescer mais no último ano, e no mundo, já que em 2015 as estimativas apontavam para 2133.

A par das diferenças salariais, o trabalho doméstico em Portugal ainda é visto como uma “competência e obrigação” da mulher. Em média, as mulheres que exercem uma actividade profissional fora de casa gastam 4 horas e 17 minutos por dia nas tarefas domésticas e com os filhos enquanto o homem investe nisso, apenas, 2 horas e 37 minutos do seu dia. Curiosamente, embora as inquiridas se queixem de raramente terem tempo para as actividades que gostam, a maioria considera que a parte que lhes cabe nas tarefas corresponde ao que é justo.

Portugal é o país que em 1940 faz um monumento aos descobrimentos, o Padrão dos Descobrimentos, feito para a exposição do mundo português e não colocou nem uma mulher nesse marco. Esquece-se, assim, das mulheres que ficaram em terra, sozinhas com os filhos, as que embarcaram em trabalho doméstico, serviçal, sexual e as que, maltratadas, discriminadas, escravizadas, foram vítimas da ganância do homem branco.

Em Portugal, as vítimas de crime sexual são 82,1% do sexo feminino, 54,9% mulheres adultas e 43,1% crianças e jovens.

Portugal é um país que não admite mulheres na sua história; só os homens surgem como dignos de a representar. E, por isso, as histórias da História que são contadas no ensino às crianças, sempre com floreados de romance ou piada, esquecem outras histórias e contribuem para a criação, repercussão e repetição de uma sociedade patriarcal que subalterniza a mulher em relação ao homem. Quando as não esquecem, as mulheres são reduzidas a anedotas semi-míticas já que, na maioria do tempo, o único lugar de poder da mulher surge apenas na lenda.

Portugal também é o país de Brites de Almeida, a Padeira de Aljubarrota. Fala-se que, durante a Batalha de Aljubarrota, contra as forças castelhanas, terá morto com a sua pá de padeira sete castelhanos que encontrou escondidos em sua casa, no forno.

Portugal é o país de Maria da Fonte, figura lendária que não se sabe se terá de facto existido, mas deu o nome à revolta popular contra Costa Cabral. A revolta resulta das tensões sociais remanescentes das guerras liberais, exacerbadas pelo grande descontentamento popular gerado pelas novas leis de recrutamento militar que se lhe seguiram, por alterações fiscais e pela proibição de realizar enterros dentro de igrejas. Maria da Fonte seria uma camponesa, entre várias que se juntaram à revolta, que pegou em armas no Minho.

Portugal também é o país de Carolina Beatriz Ângelo, a primeira mulher a votar, contra a vontade dos dirigentes da I República portuguesa. O regime republicano concedeu, em 1911, o direito aos portugueses com mais de 21 anos que soubessem ler e escrever e aos chefes de família, sem especificar o sexo dos eleitores. Carolina Beatriz Ângelo era viúva e chefe de família tendo utilizado esse argumento para votar, mas, a partir de 1913, o regime republicano especificou que só os “chefes de família do sexo masculino” podiam eleger e ser eleitos.

Portugal também é o país de Catarina Eufémia, uma ceifeira portuguesa que, na sequência de uma greve de assalariadas rurais, foi assassinada a tiro, pelo tenente Carrajola da Guarda Nacional Republicana. Com vinte e seis anos de idade, analfabeta, Catarina tinha três filhos, e ofereceu resistência ao regime salazarista.

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Maria Teresa Horta (ao centro), com Maria Velho da Costa (esq.) e Maria Isabel Barreno (dta.)

Portugal também é o país das “Três Marias”:  Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa que, em 1971,  três anos antes da Revolução dos Cravos e da consequente independência das colónias portuguesas em África, publicaram um livro “As Novas Cartas Portuguesas”, escrito a seis mãos, e que assumiu um papel central na queda da ditadura dirigida por Marcelo Caetano.

O livro revelou ao mundo a existência de situações discriminatórias agudas em Portugal, relacionadas com a repressão ditatorial, o poder do patriarcado católico e a condição da mulher. Denunciou também as injustiças da guerra colonial e as realidades dos portugueses enquanto colonialistas em África. A obra foi considerada uma oposição ao regime e proibida pela censura. As “Três Marias” foram perseguidas pela sua ousadia e foi aberto um processo contra elas, tornando o texto e o caso da sua supressão internacionalmente famosos. O processo foi suspenso e as autoras absolvidas somente após o 25 de Abril de 1974.

Hoje em dia, Portugal, país com cerca de 11 milhões de pessoas, mantém viva a sua construção social do “macho latino”, palavras utilizadas na sua identidade social e que servem de atenuante para o machismo social que, mais ou menos escondido, existe por todo o país, mesclado em hipocrisia e em micro-machismos – do esquerdo-macho ao desconhecido – que são desconsiderados quando apontados com um rebolar de olhos e um “estas feministas” entre dentes.