O divã de hoje vem direto de Portugal, escrito pela Liana Rego. 

Ilustração: Amanda Grazini

Ilustração: Amanda Grazini

“Acredito que viver bem com o nosso corpo e com a nossa sexualidade significa, entre muitas outras coisas, saber chegar ao orgasmo sem a participação de qualquer outra pessoa para além de nós mesmas. Significa que, se não estivermos numa relação com alguém ou com paciência para ter sexo casual, poderemos sentir falta de muita coisa, mas não do orgasmo.

Claro que um orgasmo “acompanhado” há de ter sempre um sabor diferente; às vezes pior, outras vezes melhor, mas, certamente, sempre diferente. Contudo, de todas as coisas que não podemos descurar na nossa vida, o prazer é um dos elementos fundamentais e que menos é levado a sério por algumas mulheres que conheço. Como seria de esperar, tudo isto tem a ver com a sociedade machista e patriarcal em que nos inserimos. E não, não estou a dizer que as mulheres de hoje em dia são umas virgens imaculadas. Não são, felizmente. Mas existe, ainda, um enorme tabu relativamente à masturbação feminina.

Desde miúdas, somos confrontadas com a ideia de que o normal é que os rapazes leiam revistas masculinas às escondidas, com mulheres despidas e em poses sexuais, e que as meninas se encham de fantasias com os príncipes dos filmes e das novelas.

Aliás, as próprias novelas e filmes contribuem para este estereótipo que, tal como todos os outros, só serve de travão à vida real das pessoas. Homens e mulheres crescem com uma visão distorcida daquilo que a sua sexualidade significa. Por um lado, a “javardice” – os rapazes são, até certa idade, pressionados a falar de mulheres e das suas experiências sexuais duma forma excessivamente descritiva -, por outro, a “santidade” – as raparigas raramente são convidadas, no seio de outras raparigas, a partilhar experiências sexuais e a falar dos seus pontos erógenos.

Posteriormente, as coisas catapultam para outros “pequenos” preconceitos que alimentam estas concepções e as passam de geração em geração. O homem pode ser mais javardo; o homem – sendo mais sexual – é que deve dar o chamado “primeiro passo”; o homem vê pornografia (e a mulher não); o homem masturba-se para seu próprio prazer (no caso da mulher, só se for para aliciar os olhos de outrem); o homem tem fantasias (a mulher apenas concretiza as dele).

Assim, a conclusão torna-se óbvia: até uma certa idade (nos casos em que não é durante toda uma vida), a mulher não pensa – nem é levada a pensar – no seu orgasmo.

Não se vê como um ser sexual e, portanto, ou descobre o desejo por instinto e se sente culpada sempre que se masturba, ou se ignora a si própria até que a maturidade intelectual e o crescimento físico falem mais alto.

Há relatos de mulheres que só descobriram o orgasmo aos quarenta anos, mesmo tendo tido relações sexuais desde cedo, bem como mulheres que tratam o orgasmo por “tu”, mas que nunca lá chegaram acompanhadas.

Por isso, meninas: toda a gente sai a ganhar com o nosso orgasmo. Acima de tudo, nós próprias. Acreditar que há algum problema em obter prazer sem um homem ou, simplesmente, não pensar no nosso corpo como uma máquina sexual é negligenciar uma sorte que nem todas as mulheres têm neste mundo. A masturbação sabe bem e é saudável. É o caso perfeito de junção entre o útil e o agradável. Por que desperdiçar um orgasmo legítimo?

Tirem uns minutos. E que o clitóris esteja convosco!


 

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