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Primeira delegada trans do Brasil, Laura optou por trabalhar na delegacia da mulher para evitar preconceito dos colegas.

Primeira delegada trans do Brasil, Laura optou por trabalhar na delegacia da mulher para evitar preconceito dos colegas. Foto: Helena Bertho

“O desgaste emocional é muito grande. Já vi muito policial não aguentar. Você vê criança estuprada, filha grávida do pai…”, foi a  resposta do agente de polícia Thiago Tonolli, do Plantão de Defesa da Mulher de Vitória, quando questionado sobre como é trabalhar na Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher. Segundo ele, os casos exigem muito mais estabilidade emocional dos policiais do que uma delegacia comum

A delegada Samira Fares Negrini, da 7a Delegacia da Mulher de São Paulo, concorda com ele. Seu trabalho foi um verdadeiro desafio desde o começo. “A gente tem o hábito de não usar a empatia, de não se colocar no lugar do outro. E eu tinha uns conflitos pessoais porque eu venho de uma família de mulheres extremamente independentes, minha mãe jamais aceitaria qualquer tipo de agressão. E elas, as mulheres que buscam a gente, se submetem a determinadas situações que no início, era difícil pra mim entender“, confessa. 

“Então quando eu vim pra cá, eu assumi um desafio e hoje eu percebo que eu rompi essa barreira, eu consigo me colocar no lugar delas, eu consigo entender que elas estão naquela situação por N motivos e eu não tenho o poder de julgá-las.”

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“Eu não tenho o poder de julgá-las”, delegada Samira Fares Negrini conta que aprendeu a praticar a empatia no atendimento às mulheres na delegacia. Foto: Helena Bertho

Para ela, trabalhar na delegacia especializada é uma honra, porque, além do aprendizado, a questão da violência contra a mulher é uma das grandes questões atuais e as delegacias são parte essencial da solução. No entanto, ela acredita que o dia a dia pode ser um pouco maçante, pois o trabalho acaba se tornando repetitivo, principalmente devido ao grande volume de burocracia. No entanto, para muitos policiais a ideia de trabalhar nas DEAMs e DDMs traz o sentimento oposto

Rosemary Correia, atual presidenta do Conselho da Condição Feminina, que foi a primeira delegada da mulher do Brasil, em 1985, nota que existe uma resistência dentro da Polícia Civil em relação ao trabalho nas especializadas. “A gente sabe que existem policiais homens e mulheres que não gostam de trabalhar na delegacia da mulher, porque acham que all nao se ‘faz polícia’. Polícia, para eles, é sair caçando bandido, entrando em favela e não atendendo o que costumam chamar de ‘zica entre marido e mulher’”. 

Para muitos policiais, inclusive, a designação para atuar na Delegacia da Mulher é considerada um punição, conforme conta Beatriz Acciolly em sua tese de mestrado em antropologia social “A Lei Maria da Penha e o Trabalho Policial em duas Delegacias da Mulher de São Paulo”. Ela acompanhou o expediente da 1a e da 6a delegacias especializadas de São Paulo durante 15 meses, entre 2012 e 2013, e, entre muitas outras informações, pode perceber uma insatisfação generalizada dos profissionais que atuavam nas delegacias.  “Em parte considerável dos casos, a alocação na DDM fora encarada como uma punição – devido a atritos internos ou condenações por práticas problemáticas – vinda de cargos superiores. ‘Eu estava em um distrito comum, lá na Zona Sul, um lugar horrível, e um dia recebi essa ligação, sem mais nem menos, dizendo que eu tinha que me apresentar no dia seguinte. Fiquei indignada! Nunca quis Delegacia da Mulher’, explicou uma delegada”, afirma na tese. 

Questão de escolha

Enquanto, para alguns, a delegacia da mulher parece uma punição, para a delegada Laura de Castro Teixeira, a atuação na 1a DEAM de Goiânia foi um refúgio. Ela trabalhava na delegacia de Trindade (cidade próxima a Goiânia) quando tirou licença para fazer a cirurgia de transgenitalização em 2013. Após o todo o processo, ao voltar para a corporação pediu para ser realocada para a Delegacia da Mulher. 

“Tinha acabado de fazer a cirurgia de mudança de sexo, então, eu pedi para vir para cá, porque eu não queria tanta exposição. Mas, com o tempo, eu percebi que eu gosto muito do trabalho na Delegacia da Mulher”, conta. 

“Aqui você atende de tudo, você tem um contato muito grande com as vítimas e eu gosto muito disso de ouvir e conversar com as pessoas”.

Apesar de reconhecer que a polícia é uma instituição bastante machista, Laura conta que não sofreu preconceito na corporação. De maneira geral, os colegas a trataram bem e respeitaram, chamando de doutora antes mesmo que conseguisse a alteração de seus documentos. 

Os desafios de trabalhar na delegacia da mulher

Laura, Samira e outras delegadas concordam em um ponto: o trabalho na delegacia da mulher pode ser bastante frustrante“Sabe o que acontece? Nós fazemos o registro de ocorrência, nós pedidos a medida protetiva em 48 horas. A lei diz que o juiz teria 48 horas para responder, mas o juiz para responder, sobrecarregado, está levando em média dois ou três mesesAssim, nós nos frustramos novamente, porque não conseguimos responder e proteger essa mulher”, explica a coordenadora das DEAMS do Rio de Janeiro, Márcia Noéli. Por isso, a maior parte dos delegados, como ela, apóiam o projeto de lei 07/2016, que permitiria que as medidas protetivas fossem concedidas na própria delegacia.

Essa sensação de frustração, de não ver o resultado do trabalho, é uma das maiores queixas de quem trabalha na defesa da mulher.  

“A pior parte do trabalho “são as mulheres que desistem da denúncia. A gente faz o flagrante, abre o boletim, mas elas não representam. É muito difícil uma mulher querer colocar seu marido, o pai dos filhos na cadeia”, desabafa o policial Thiago Tonolli. 

Outro problema enfrentado nas Delegacias da Mulher – na verdade, em toda a Polícia Civil – é a questão da falta de verba e pessoal. Os policiais se vêem sobrecarregados com o trabalho, porque além de colher depoimentos, precisam fazer todas as demais etapas de burocracia e investigação. “Na prática, nosso trabalho é muito mais burocrático, é preencher formulário”, reclama o escrivão Marcelino de Paula Lopes, da segunda DEAM de Goiânia, no bairro Curitiba II. 

Em sua tese de mestrado, Beatriz Accioly também destaca a questão da constante realocação dos funcionários, que são transferidos para novas delegacias, muitas vezes, sem aviso, gerando um ambiente de instabilidade e insatisfação. Outro fator de incômodo são as mudanças políticas. 

“Intempéries políticas significavam novos ocupantes em cargos de comando, o que implicava em mudanças de estrutura interna e novas normas e organizações de trabalho”, explica.

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