Quem senta no divã de hoje é a Marcela Ribeiro, com seu depoimento adaptado do blog marcelaland.wordpress.com 

Foto: Paul Falardeau

Foto: Paul Falardeau

“No dia 21 de dezembro de 2012, suposto dia do fim do mundo no calendário Maia, o mundo não acabou, para a surpresa de muita gente. Mas eu, que estava secretamente morrendo de medo da data cabalística, tive todos os meus receios confirmados. Estava indo de médico em médico, o dia inteiro, recebendo a mesma notícia: você tem câncer de mama, você tem câncer de mama. Os Maias estavam certos, o meu mundo acabou. E só o que eu pensava é que tinha que ser um engano, eu tinha 23 anos, eu ia conquistar o mundo, eu era invencível, onde foi que tudo deu errado?

A minha história é só mais uma história de resiliência, dureza mental e força como muitas, inúmeras que existem por aí. O número de mulheres que enfrentam o câncer só vem crescendo exponencialmente e eu não sou nenhuma heroína por ter passado por tudo isso. Todo mundo sofre, mas o mais importante é: muita gente sobrevive! Pra todas (e todos) que estão passando por isso a minha mensagem é: seja forte, porque o tratamento é terrível, pode tirar muito de você, mas na maioria das vezes ele funciona. E vale a pena, ah como vale! A vida vale muito a pena.

Depois do meu primeiro diagnóstico eu fiz dezesseis sessões de quimioterapia, uma cirurgia de retirada de parte da mama, e trinta sessões de radioterapia. Então continuei com uma medicação intravenosa de três em três semanas no hospital, por um ano.

Perdi cabelo, ganhei doze quilos, perdi vitalidade, ganhei de volta minha vida. Foi longo e cansativo.

Alguns meses após o término do tratamento, meu maior medo se concretizou: recidiva, o câncer voltou. Foram mais seis sessões de quimioterapia, mais um ano de medicação intravenosa no hospital, uma mastectomia (retirada total da mama) e muitas, muitas cirurgias de reconstrução. Perdi o cabelo de novo, dessa vez emagreci muito, não conseguia comer, planos arruinados, uma internação grave, pneumonia, e de novo, a minha vida de volta foi o prêmio final.

O meu cabelo ainda não terminou de crescer, o meu peito nunca mais vai ser o mesmo. Eu vou, pra sempre, ter um montão de cicatrizes que reconstrução nenhuma vai apagar. Eu tive muita vergonha do meu novo “eu”, mas hoje esse é um corpo que eu aprendi a amar. As minhas marcas são parte de quem eu sou, e prova do que eu sou capaz. E o meu maior presente é a vida, que é bonita, é bonita e é bonita.

Eu não sei porque tudo isso aconteceu comigo. Nenhum médico consegue me dar nenhuma resposta do porquê. Talvez eu nunca saiba, mas eu já me conformei com isso. Nem tudo na vida tem uma explicação lógica. Agora, o que eu sei, é o que toda essa experiência trouxe de bom pra mim.

Primeiro de tudo, acho que colocou, tanto para mim, quanto para as pessoas próximas a mim, as coisas em perspectiva. Posso detalhar aqui inúmeras vezes em que tive crises de ansiedade seríssimas a respeito do meu cabelo rebelde que não ficava no lugar, das gordurinhas localizadas que insistiam em marcar nas roupas – algo que hoje parece estúpido, já que o que eu mais quero é que meu cabelo rebelde cresça. Hoje eu aceitaria de bom grado o meu visual de antes.

Coisas tão sem sentido me irritavam. O amigo mala do facebook que só reclama da vida, quando alguém não enche a bandejinha de gelo no freezer em casa, o carro do vizinho invadindo o espaço da minha vaga. E hoje, para mim, isso é tão bobo, é tão vazio. E definitivamente irritante. Mas não motivo para acabar com o meu humor, pelo menos não mais.

Quando tudo isso começou, li e ouvi diversas vezes como eu estava prestes a passar por uma experiência transformadora. E eu até fiz piada disso, dizendo que eu ficava em casa esperando a fada da transformação chegar.  E ela nunca chegava. Mas a questão é que não é bem assim, eu não sei bem como, nem quando, mas hoje eu vejo que de fato alguma coisa mudou em mim. Não foi de uma hora pra outra, foi gradativo.

A quimioterapia tira muito de você, ela tira tudo.

No meu caso primeiro foram-se os cabelos, o que eu achei que seria a parte mais dolorosa e que surpreendentemente não foi. Depois com o tempo foi a minha forma, o meu corpo, que foi inchando mais e mais e, da segunda vez, emagrecendo de uma maneira bem esquisita. Depois vieram algumas coisas pontuais: um gosto estranho na boca que arruinou meu paladar para doces por um tempo, um dente do siso insistentemente inflamado que não me permitia comer o que eu tinha vontade. Daí começou a tirar o meu sono, este tão precioso, tão maravilhoso, que passou a me faltar a noite me deixando cansada por dias. Daí foi a minha sobrancelha. Depois meus cílios, que nunca mais voltaram. Depois disso veio a dormência na ponta dos dedos, me dificultando realizar tarefas simples como colocar brincos ou abrir sacolas de supermercado. Me tirou a fome, já não tinha vontade de comer mais nada. E finalmente o que me foi mais custoso dentre todo este período de tempo: a minha liberdade. Além disso, neste meio tempo, a quimio tirou de mim por muitas vezes a minha paciência, ela tirou de mim a minha alegria, a minha vivacidade.

A quimioterapia realmente tira tudo de você. Ela tira tudo. Bom, quase tudo. Sabe o que ela nunca tirou de mim? A minha vontade de viver. A minha vontade de lutar contra a doença. Ela não tirou de mim a minha família maravilhosa que esteve do meu lado todos os dias destes seis meses. A minha mãe que aguentou cada desaforo nos momentos de angústia, que ficou em casa comigo quando eu pedi, que abdicou de tanto por mim. Não tirou os meus amigos e amigas que se mostraram verdadeiras rochas ao meu lado e a quem eu devo tudo. Não tirou as minhas melhores amigas e companheiras diárias que nunca me trataram como doente e ouviram as minhas ladainhas dia apos dia sem reclamar.

E é ai que a gente vê o que realmente importa na vida.

Superficialidades vão embora. O corpo bonito, sarado, vai embora. A dieta passa. O que sobra, o que dura mesmo, é a companhia e as gargalhadas durante o jantar. O que sobra é a fome, a vontade de viver mais. O que importa é quem esta ao seu lado na sala de espera. E é por isso que a minha conclusão dessa viagem toda que é o processo do tratamento contra o câncer é a seguinte: é muito, muito ruim, mas não é tão difícil assim quando tem gente do nosso lado, porque o que é importante, o que é verdadeiro, fica.

E a minha mudança foi essa, eu vejo as coisas em perspectiva agora, eu sei o que realmente importa. A bandejinha sem gelo vai continuar me irritando, mas agora eu já sei qual é o tamanho que esta irritação pode ter na minha vida. O trânsito vai continuar me estressando, mas eu já sei que não vou explodir de raiva por causa dele. Não sei por quanto tempo isso vai durar, mas sei que posso sempre me lembrar disso e saber que vai ficar tudo bem. Eu não quero esquecer os últimos anos, não quero apagar nada do que passou. Essa experiência faz parte de mim e sou muito grata a ela por tudo que me ensinou. Eu ainda não sei porque tudo isto aconteceu comigo, mas a diferença agora, seis meses mais tarde, é que não vou ficar batendo a minha cabeça na parede e gritando “não é justo”. Eu vou simplesmente continuar aceitando que a vida é o que é, e continuar vivendo.

“Deus, dai-me a serenidade para aceitar as coisas que eu não posso mudar, coragem para mudar as coisas que eu possa, e sabedoria para que eu saiba a diferença.”


 

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