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Fotos: Jéssica Raphaela e Camila Silva

 

O caminho para chegar até os kalungas, em Cavalcante (GO), já fala muito sobre a própria origem da comunidade quilombola. O acesso exige tempo e um veículo com tração que consiga superar as difíceis subidas e descidas da Chapada dos Veadeiros. Quando chegaram à região, no século 18, eles queriam se esconder. Era a forma de resistir à escravidão imposta pelo sistema colonial no Brasil.

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Resultantes da luta dos negros, os quilombos brasileiros são uma forma de organização social caracterizada pela manutenção e reprodução dos modos de vida próprios. Para isso, os escravos fugidos buscavam locais de difícil acesso. Foi apenas com a promulgação da Constituição Federal de 1988 que essas comunidades passaram a ter direito sobre seus territórios, com o surgimento do termo “remanescentes de quilombo”, associado a uma identidade histórica. Atualmente, existem no Brasil cerca de 2.600 comunidades quilombolas certificadas pela Fundação Cultural Palmares.

O quilombo Kalunga é o maior território quilombola do país.

Os escravos das lavras das minas de ouro da região dos afluentes do Rio Paraná e do Tocantins, no nordeste goiano, fugiam da violência em busca de liberdade e autonomia. Dessa forma, se instalaram no norte de Goiás, em meio às serras do que hoje é o Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros.

A comunidade se estende pelos municípios de Cavalcante, Monte Alegre e Teresina de Goiás, compreendendo povoados como Vão de Almas, Diadema, Vão do Moleque e Engenho. Com uma área total de 262 mil hectares, o território kalunga é habitado por, aproximadamente, 8 mil pessoas, dispersas em pequenas unidades territoriais, que têm na agricultura e na criação de animais seu sustento.

Embora estejam espalhados pelo território, a comunidade kalunga se mostra unida, tanto nos festejos típicos quanto na busca por melhores condições para a população. Líderes dos quilombos se reúnem na Associação Quilombo Kalunga, em Cavalcante, para tratar de temas que variam desde a implementação de uma rede de comunicação e informática até a violência doméstica.

No Vão de Almas, onde é realizada anualmente a festa em louvor a Nossa Senhora da Abadia, os quilombolas saem de diversos locais da Chapada e se reúnem, no mês de agosto, no vilarejo cheio de casebres de barro. Lá a tradição religiosa se mistura com um clima quase carnavalesco. Carnes são estendidas em varais ao sol e levadas à mão mesmo para as casas e para os restaurantes improvisados que recebem os visitantes. A comida é preparada ao lado dos clientes.

Protagonistas da festa e ao mesmo tempo mão de obra, as mulheres trabalham enquanto os homens sentam à sombra para amenizar o calor abafado que incide no vilarejo, localizado em meio a serras. Para se refrescar, os jovens se jogam no rio, enquanto mulheres vestidas com cores vibrantes transitam equilibrando grandes bacias na cabeça, cheias de louça a serem lavadas na água corrente. É comum ver meninas visivelmente jovens carregando seus bebês no colo.

Em 1991, o quilombo foi reconhecido como Sítio Histórico e Patrimônio Cultural pelo Estado de Goiás e no ano de 2000, foi titulado pela Fundação Cultural Palmares. Apesar disso, somente em 2015 a eletricidade chegou ao território, por meio do programa Luz Para Todos, do Governo Federal. Porém, problemas fundiários, falta de saneamento, precariedade nas estradas e dificuldade de acesso à escola ainda persistem.