*Esta é uma das investigações patrocinadas pelo Programa de Bolsas de Reportagem da Revista AzMina que você ajudou a tornar realidade. Acompanhe esta série ao longo desta semana aqui.

Se o estigma do aborto castiga as mulheres que engravidam após uma violência sexual, ele pode ser tanto ou mais perverso com as que decidem interromper a gestação de forma clandestina e acabam tendo que recorrer à ajuda médica. Em 2011, em Teresina, no Piauí, a obstetra Maria das Dores Nunes, atendeu uma adolescente de 15 anos, transferida do interior de outro estado, com infecção grave e perfuração uterina. Seu estado de saúde, contudo, não era fruto do aborto inseguro, mas sim do atendimento que ela teve quando buscou o hospital: foi submetida a três curetagens sem anestesia, porque, segundo lhe disseram, seu caso “não merecia”.

Embora exista uma norma técnica do Ministério da Saúde que recomende a atenção humanizada quando há complicações após o aborto – seja ele legal ou ilegal –, é comum que os profissionais façam juízo de valor e, em algumas situações, decidam que lhes cabe punir a mulher. Essa postura acaba tendo um peso que se estende por toda a vida dessas mulheres, muitas delas, jovens.

Outra caso atendido por Maria das Dores foi o de uma adolescente de 18 anos, em segunda gravidez, com um filho de 9 meses que ainda mamava. Depois de fazer uso do Cytotec e procurar o hospital, ela foi internada para tentar inibir a progressão do aborto. Dois dias depois da alta, voltou ao hospital com infecção grave.

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As histórias dessas duas meninas e de outras 28 foram contadas na pesquisa de mestrado de Maria das Dores. “Nós estamos sempre tentando sensibilizar os profissionais. Médico não é juiz, não é polícia, que precisa ficar buscando indícios de crime. Se ele não quer ajudar, que oriente a paciente sobre onde ela pode ser devidamente atendida”, defende a obstetra, que integra o Comitê de Prevenção da Mortalidade Materna do Piauí, o estado mais pobre do Brasil.

Maria das Dores explica que as mulheres não precisam confessar nada para os médicos. “Antigamente, quando os abortos eram aquelas coisas atrozes, com ferro na vagina e no útero, até fazia sentido questionar a paciente, para fins de histórico médico. Hoje, especialmente nas capitais, já não faz. Então, se elas querem ficar caladas, é um direito. E, se querem contar, isso não deve interferir na conduta médica”, defende.

Por ano, no Brasil, são realizados cerca de 1 milhão de abortos clandestinos – e 250 mil internações decorrentes disso.

Não se sabe ao certo quantas mulheres morrem em consequência da prática, mas o governo brasileiro chegou a admitir que é a quinta principal causa de morte materna. Para saber mais sobre a importância da descriminalização, assista ao debate que AzMina promoveu junto ao Instituto Ruth Cardoso sobre o tema.

O aborto ilegal

Pretas e pobres são as principais vítimas dessa lógica de condenação das mulheres que abortam. Mas essa prática atinge a todas que recorrem ao sistema de saúde por complicações. Foi o que viveu a professora Gabriela*, 34 anos, quando precisou ir ao hospital depois de induzir um aborto e ficar sangrando por três dias.

Fraca e exausta, Gabriela procurou o Hospital Universitário de Brasília (HUB), onde começou sua saga em busca de atendimento. “A primeira coisa foi que eles me interrogaram: ‘Você provocou?’, ‘O que você usou?’”, lembra ela. Depois, lhe disseram que seria necessário fazer um ultrassom. O médico que a atendeu deu o laudo como não conclusivo, por medo de que a palavra “aborto” lhe trouxesse problemas.

Para sua revolta, os profissionais do HUB não aceitaram o exame impreciso. “Não entendo qual era o problema. Eles tinham as imagens do exame, será que não era suficiente?”, questiona. Sozinha, sem direito a ter um acompanhante, não aguentou e fugiu do hospital.

A segunda parada da professora foi no Hospital Materno Infantil de Brasília. Lá, por medo de novos interrogatórios, ela decidiu omitir que havia induzido o aborto. Ainda assim, foi maltratada. “O médico que me examinou foi super grosseiro. Fez um exame de toque sem cuidado nenhum, que me machucou e respingou sangue para todos os lados. Ele ainda disse ‘aqui, pelo menos, eu vou resolver o seu problema’”, conta Gabriela.

A batalha, porém, ainda não estava terminada. Sem leitos vagos no centro obstétrico para que ela fizesse a curetagem, Gabriela ficou aguardando por dois dias até que surgiu uma “janela” entre os partos e ela pôde ser atendida. Nesse tempo todo, ficou em uma saleta improvisada, aberta e, segundo conta, recebendo olhares de reprovação da equipe de enfermagem. “Fui tratada como um bicho”, desabafa.

Procuramos a Secretaria de Saúde do Distrito Federal para perguntar seu posicionamento sobre o caso mas, até o fechamento desta reportagem, não obtivemos resposta.

Como tudo deveria ser

Mariana*, 36 anos, voltava para casa em um domingo à noite, em um bairro da Zona Leste de São Paulo, quando foi abordada por um homem armado. Ele a obrigou a entrar no veículo que dirigia, a levou para as imediações da estação de metrô, e a violentou ali mesmo, dentro do carro. Quando foi liberada, sob a ameaça de morrer caso olhasse para trás, Mariana começou a chorar – mas não teve muito tempo para isso. Mãe de uma adolescente de 16 anos com paralisia cerebral, a dona de casa engoliu as lágrimas e a humilhação que sentiu para si. “Eu tive que me recompor, fingir que nada aconteceu, precisava ficar bem por causa da minha filha”, conta.

Ela não teria procurado ajuda não fosse o atraso na menstruação alguns dias depois. Um teste de farmácia confirmou o que ela mais temia: o estupro havia resultado em uma gravidez. Mariana foi ao Google, buscar maneiras de por fim àquela gestação. Encontrou uma reportagem sobre o serviço de aborto legal do Hospital Pérola Byington, o principal centro de referência do SUS para o atendimento às vítimas de violência sexual do país, a 20km de sua casa.

A internet tem um papel muito importante hoje. A maioria das mulheres chega aqui porque leu entrevistas e reportagens como esta que você está fazendo”, conta Daniela Pedroso, chefe de psicologia do serviço de aborto legal do Pérola. Em tese, o hospital deveria atender apenas às vítimas do estado de São Paulo, mas, na prática, recebe gente do país inteiro. “A partir do momento que elas passam pela porta, elas são nossas pacientes, são acolhidas com todo respeito”, diz Daniela.

A postura dos profissionais que trabalham por lá é reconhecida nacionalmente – tanto é que Flávia*, a jovem de Goiânia que sofreu violência institucional ao tentar fazer valer o seu direito , foi encaminhada pela rede de ativistas para o Pérola. De janeiro de 2014 a agosto deste ano, foram realizados 546 abortos no hospital paulistano – em todo o SUS, 3.286 em 2014 e 2015.

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Daniela e outros membros da equipe não têm medo de mostrar a cara, tampouco de sofrer preconceito por parte de colegas. Quando perguntamos para a psicóloga sobre a possibilidade de atender casos mentirosos de estupro, ela demonstrou surpresa. “Em geral, as histórias são muito simples: elas estão indo ou voltando do trabalho ou em situações de vulnerabilidade quando são violentadas”, afirma.

“É estranho que um profissional ache que a mulher está inventando o abuso”, acrescenta.

O alívio do aborto

Foi a certeza de que seu relato seria ouvido que levou Mariana a buscar ajuda no hospital. “Eu nem imaginava que isso (fazer um aborto legal) era possível. O que me fortaleceu foi saber que eles acreditam na palavra da mulher”, conta. Depois de se submeter ao procedimento – sem conhecimento da família – ela diz ter se sentido “tremendamente aliviada”. “Eu não poderia, em hipótese alguma, ter essa criança. Queria resolver logo.”

É comum também, segundo Daniela, que as vítimas guardem segredo sobre a violência que sofreram. Suzana*, 23 anos, decidiu não denunciar ou revelar o estupro para ninguém próximo, mesmo sendo o abusador uma pessoa da família. A jovem visitava a casa da avó adoentada, quando aceitou um copo de suco oferecido por um familiar. Acordou no dia seguinte, nua e suja, sem acreditar direito no que havia acontecido.

Estudante de odontologia, ela já conhecia o serviço de atendimento às vítimas de abuso sexual. Procurou ajuda cerca de duas semanas depois do estupro, pois “não aguentava mais guardar aquilo sozinha”. A descoberta da gravidez veio em seguida. Hoje, depois de passar pelo procedimento e ainda fazendo acompanhamento psicológico, ela diz se sentir aliviada.

“Eu sabia que precisava fazer o aborto. Sempre quis ser mãe, aliás, ainda quero ser, mas não poderia ter um filho de uma pessoa que abusou e mim.”

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