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Quando recebi a notícia de que havia saído uma pesquisa que diz que um terço dos brasileiros ainda culpa as mulheres pelo estupro, pensei: “Devem estar falando da pesquisa do Ipea de dois anos atrás. É claro que hoje as coisas são bem diferentes.” Afinal, entre 2014 e agora, tanta coisa mudou, né? Parece que não. A pesquisa é de agora mesmo. E isso só me coloca para pensar: onde é que estamos errando?

Se, em 2014, 26% dos brasileiros achavam que uma mulher merecia ser atacada por usar roupas provocantes, hoje, 37% acham que mulher que se dá ao respeito não é estuprada. Traduzindo, mulher que não se dá ao respeito pode ser estuprada na opinião dessas pessoas. Mas, nesses dois anos, o movimento de mulheres ganhou tanta força, fez tantas campanhas, falou com tanta gente. O que será que estamos fazendo de errado para essa mentalidade continuar tão forte?

Talvez a chave esteja no conceito de “se dar ao respeito”. Mas antes de falar dele, queria trazer alguns outros números:

  • A cada 11 minutos uma mulher é estuprada no Brasil (9º anuário de segurança pública brasileiro)
  • Estima-se que 527 mil pessoas sejam estupradas por ano no país (IPEA)
  • 89% das vítimas são mulheres (IPEA)
  • 70% das vítimas de estupro no Brasil são crianças e adolescentes (IPEA)

E também algumas notícias:

Polícia procura outras vítimas de coronel que estupro meninas de 2 anos 

Criança vítima de estupro é resgatada após enviar mensagem de celular 

MP vai investigar promotor que humilhou adolescente estuprada pelo pai 

Nem precisa ler as notícias, para não embrulhar o estômago. Foque só nas manchetes. E nos dados acima. É claro que todo mundo se choca com o caso do PM que estuprou uma criança de 2 anos, e é mesmo uma coisa horrenda, mas não é muito diferente do estupro de uma menina de 12 anos. Por que seria? Porque uma menina de 12 anos já pode “se dar ao respeito”? O que é, afinal, “se dar ao respeito”?

A ideia de que meninas e mulheres têm que “se dar ao respeito” vem da nossa cultura do estupro, que ora violenta crianças de jardim de infância, ora violenta mulheres que vão para a balada. Infelizmente, uma cultura tão arraigada que, mesmo com todo o crescimento do movimento feminista, ainda prevalece e faz surgir dados alarmantes como o da pesquisa de hoje.

Embora isso tudo seja desanimador, não podemos desistir! Acho que já estamos no caminho certo quando expomos nossas feridas, quando fazemos barulho. Nunca antes se falou tanto sobre violência contra a mulher, nunca antes tanta gente tinha ouvido falar sobre cultura do estupro. Mas ainda falta chegar aos ouvidos de muita gente – pessoas que, certamente, eu e você conhecemos, mas que talvez nunca pararam para pensar na gravidade disso tudo.

Talvez seja a hora de repensarmos nossas estratégias, de trazer mais pessoas para essa luta. Uma das coisas mais importantes é garantir que as novas gerações tenham consciência da situação de violência e desigualdade em que as mulheres ainda vivem – especialmente, as mais vulneráveis. Nesse sentido, é importantíssimo barrar de vez o tal projeto da Escola Sem Partido e também garantir que a educação sexual e de gênero chegue a todas as instituições de ensino.

O que mais o movimento de mulheres pode fazer para falar com esses 37%?