O Divã de hoje é anônimo.  

Foto: Kevin Dooley

Foto: Kevin Dooley

Em junho de 2010 eu descobri que estava grávida. Não faz tanto tempo assim, mas emocionalmente parece que faz séculos!

Foi uma época ruim. Me descuidei com os anticoncepcionais como me descuidava com tudo, meu corpo, minha cabeça, meus desejos e meus sentimentos. Eu não gostava do relacionamento no qual estava, embora fosse com o mesmo homem com quem estou hoje muito satisfeita. E não gostava do emprego que tinha, apesar de ser o mesmo que tenho hoje e adore ter. Acho que na verdade eu não gostava muito da mulher que eu era e, no fundo, eu nem me considerava muito uma mulher. Me via como uma menina acuada e pequena.

Provavelmente por isso, quando ficou pronto aquele exame de farmácia, que eu fiz levianamente no banheiro da manicure, eu não cogitei levar adiante aquela gravidez nem por um minuto. Eu pensei no meu namorado e em como eu diria pra ele e em que cara ele faria. Pensei em como aquela conversa afetaria nosso namorico e em quanto dinheiro eu iria gastar. Pensei se eu teria de desmarcar a festa junina que estava já marcada para sábado na minha casa. Mas em momento nenhum eu pensei numa criança, numa mãe, num bebê, numa culpa, numa dúvida, numa morte… Em momento nenhum, cheguei, eu acho, a pensar, aquele tipo de pensamento, pensamento mesmo, que te tira o sono, te faz escorrer lágrima, te arranca suspiro.

Liguei pro meu namorado que estava num ônibus. Muitas vezes antes ele havia batido no peito e dito que filho dele ninguém abortava. A ele eu não desejo ridicularizar. A gente às vezes veste camisetas tolas – não dá nem pra chamar de camisas as coisas que a gente veste quando é muito infantil – por insegurança. Ao ouvir que eu estava grávida dele, ele disse, no entanto: E aí?

Desligamos rápido. Eu liguei pro meu pai, que é médico, que é carinhoso, que é ateu, como eu sou também. Ele foi até minha casa e sentado no meu sofá me ouviu dizer que eu não queria ter aquele filho naquele momento. Nos dias que se seguiram, meu pai e meu ginecologista, com uma elegante discrição e uma maturidade eficiente, me ajudaram a arranjar um médico que fazia abortos seguros. Eu estava ansiosa pra acontecer logo porque sou assim, ansiosa.

Nesse meio tempo expliquei pro meu namorado como aconteceria e contei pra minha mãe, que achou que uma boa forma de mostrar solidariedade seria contar a história do aborto que ela mesma fez, na década de 70, em detalhes.

No dia marcado, meu pai e minha irmã passaram na minha casa e me pegaram para irmos à clinica. Foi rápido e totalmente indolor. Havia um médico gentil e uma enfermeira. Tomei uns remédios que me deixaram risonha e com uma sensação gostosa de descontrole. Depois, ainda no carro na volta, senti fortes cólicas que não duraram nem quinze minutos.

Lembro ter cogitado pedir um atestado pro médico. Eu tinha dito ao meu chefe que ia faltar no trabalho naquele dia pra fazer um procedimento, mas que não ia dizer o que era. Ele foi muito compreensivo e eu tenho certeza de que ele sabe que eu ia fazer um aborto. Meu pai me reprimiu quanto ao atestado. Claro que o médico não ia dar. Ia alegar o quê?

Meu pai me deixou com a minha irmã na casa da minha mãe. Ela me fez lanchinhos e eu dormi até a hora do jogo do Brasil. Era época de Copa do Mundo. Quando eu acordei meus dois irmãos estavam lá me perguntando muito atenciosos se estava tudo bem. Todos vimos o jogo e eu não sentia fisicamente nada. Nenhum sentimento arrebatador veio, nem naquele dia, nem depois. Eu me senti amada e até mimada por estar naquela situação, daquela forma. Eu me senti extremamente irritada com meu namorado, e isso definiu muitas mudanças na nossa relação nos anos que se seguiram e, provavelmente, permitiu que ele fosse, hoje, o pai da filha que tenho. O excelente pai.

Eu tenho um foto da festa junina na minha casa, naquele sábado. Eu olho, olho, e não vejo uma mulher grávida.