#PraCegoVer: Aolado esquerdo da imagem em preto e branco,, podemos ver Ana de perfil, os contornos imprecisos de seus cabelos, braços e mãos. Já à direita, vemos um espelho emoldurado refletindo a figura da moça de maneira mais nítida. Ela fita o próprio reflexo, segurando um vestido à frente de si. Na foto ao lado, 'a esquerda vemos os cabelos negros de uma pessoa. De costas pra câmera, Ana Clara segura o pincel de maquiagem. Ao centro da foto, um espelho reflete corpo e o rosto dela. Foto: Lorena de Paula

#PraCegoVer: Ao lado esquerdo da imagem em preto e branco,, podemos ver Ana de perfil, os contornos imprecisos de seus cabelos, braços e mãos. Já à direita, vemos um espelho emoldurado refletindo a figura da moça de maneira mais nítida. Ela fita o próprio reflexo, segurando um vestido à frente de si. Na foto ao lado, ‘a esquerda vemos os cabelos negros de uma pessoa. De costas pra câmera, Ana Clara segura o pincel de maquiagem. Ao centro da foto, um espelho reflete corpo e o rosto dela. Foto: Lorena de Paula

E nquanto coloca os frascos de cosméticos sobre a cama, a jovem de cabelos lisos com luzes nos fala que prefere as cores mais vibrantes, como roxo, rosa e o vermelho que tem nas unhas. Ela nos levou até seu quarto para conhecermos sua coleção de esmaltes e maquiagens. Mesmo com alguns tropeços na fala, a menina desenvolta não se intimida diante da câmera ao fazer demonstrações do uso da maquiagem. “Gosto de tirar fotos e de ficar sempre bonita”, explica, abrindo um estojo e pegando um pincel.

Ela é Ana Clara da Silva, 19 anos e tem síndrome de Down. Ela vive com os pais, em Belém, PA. E segundo sua mãe, Waldelina Silva, a característica mais marcante de Ana é sua vaidade. “Já aos 5 anos começou a gostar de se pintar, talvez por ver eu me maquiando”, conta a mãe, empolgada. E o hábito perdura até hoje, mesmo quando muito apressadas, a jovem não deixa de levar os estojos no carro e faz questão de pintar as próprias unhas toda semana.

Hábitos que podem parecer banais para qualquer mulher sem deficiência, são essenciais para a autoestima de Ana. De acordo com Sandra Menezes, especialista em psicologia clínica e portadora de artrogripose múltipla congênita – uma doença rara que ocasiona atrofia em múltiplas articulações, comprometendo o movimento do corpo, “a construção da autoestima das mulheres deficientes perpassa inicialmente pela auto aceitação e valorização dentro dos aspectos do que elas próprias consideram bonito, interessante e atraente. E a concepção de beleza tem a ver com a construção social que a pessoa com deficiência faz em torno disso”.

Sandra também aborda a existência de modelos de beleza que contemplam apenas o padrão comum e o socialmente aceito, que não abrangem pessoas com estereótipos diferentes. Segundo ela, essa é outra face de formas de exclusão como inacessibilidade urbana e outros preconceitos.

“Existem padrões estéticos que rechaçam determinadas cores de pele, tipos de cabelo e formas físicas. Nesse aspecto, a mulher com deficiência é rechaçada no mercado da beleza porque é um espelho que, para os ditos perfeitos, fala da imperfeição que não conseguem ver em si próprios”.

Por isso, para Ana e outras mulheres com deficiência, cuidar-se e sentir-se bonita são verdadeiros atos de resistência e inserção.  Uma luta feita com delicadeza e paz. Quando abre o guarda-roupa espelhado, Ana procura entre os cabides e mostra um vestido tomara-que-caia azul-escuro. Ressalta que escolhe as próprias roupas antes de sair, coloca a peça na frente do corpo, e olha seu reflexo: “Esse aqui é lindo. Fui eu que escolhi na loja”.

A certa altura da conversa, na suíte rosa com acessórios na parede, pergunto onde Ana costuma passear.

“Ah, eu… Eu… Gosto de ir ao shopping, ao cinema com o Felipe”. Ana e Felipe se conheceram na APAE de Belém ainda crianças. Já naquela época, sempre que encontrava com a mãe da menina, Felipe brincava que um dia seria seu genro. Foi numa balada ocorrida na associação, anos mais tarde, que Ana se encantou pelo rapaz. A menina abre um sorriso ao falar dos três anos de namoro e como se sente feliz  da vida quando Felipe diz que está bonita e lhe beija. “Pelo que eu vejo dele, eu penso assim… Penso em a gente casar e ter filhos”.

Negra, mãe solteira e mulher vaidosa é deficiente visual.

#PraCegoVer: Na foto em preto e branco, ao lado esquerdo, vemos os contornos do rosto de Rosiane. Ela passa batom nos lábios. À direita, o reflexo dela no espelho: negra, cabelos castanhos, trajando um vestido com mangas. Foto: Lorena de Paula

#PraCegoVer: Na foto em preto e branco, ao lado esquerdo, vemos os contornos do rosto de Rosiane. Ela passa batom nos lábios. À direita, o reflexo dela no espelho: negra, cabelos castanhos, trajando um vestido com mangas. Foto: Lorena de Paula

Atravessamos a casa decorada com quadros na parede e chão acarpetado, em direção ao quarto no final das escadas antiderrapantes. Diante da penteadeira espelhada – mais por conveniência do que por necessidade, ela nos explica – a mulher negra de cabelos castanhos se posiciona.  Com a mão direita segura o batom, com a outra, seus dedos contornam os lábios, seguindo o movimento do cosmético que colore, evitando desvios, fugindo a borrões.

Rosiane Araújo, negra, mãe solteira e mulher vaidosa é deficiente visual.

Rosi, como gosta de ser chamada, começou a perder a visão aos 18 anos. Aos 25, não enxergava mais nada. O exame inicial indicava uma lesão nos olhos, porém, o diagnóstico final atestaria retinose pigmentar – um conjunto de doenças oculares hereditárias: ela nunca mais voltaria a ver. Rosiane começava ali a reescrever sua história. Foi no ano do décimo nono aniversário que decidiu mudar–se para Belém, PA. Segundo ela, naquela época a cidade de Macapá–AP, onde havia nascido, não apresentava estrutura para pessoas com deficiência, e ela viu na mudança uma oportunidade para conquistar independência e liberdade, ambas cerceadas pela superproteção da família.

Ingressou no então Instituto José Alvares de Azevedo de educação para cegos e não demorou muito a se adaptar a nova vida. Descobriu um novo mundo: ao alcance de suas mãos, conheceu o Braille, e com ele o acesso a leituras e o infinito de oportunidades que o universo em relevo oferece; aprendeu novas formas de locomoção, e deu seus primeiros passos utilizando a bengala.

A partir deste ponto, surgiram as primeiras oportunidades de emprego e o envolvimento com movimentos sociais. Atualmente, faz parte do Conselho de Saúde e Segurança Alimentar, trabalha como secretária parlamentar na Câmara de Vereadores de Belém e atua no Comitê Estadual de Direitos Humanos e Educação.

“A representatividade é um fator que possibilita ascensão social e econômica. Por isso, é primordial que existam mulheres com deficiência representando o segmento em cargos importantes, na direção de grandes empresas, na política e em múltiplas profissões”, destaca a psicóloga Sandra Menezes

Rosi nos conta que na reconstrução da nova vida, nunca abriu mão dos cuidados com a aparência.  Também relata que ainda hoje não são poucos os que se surpreendem pelo fato de ser deficiente e gostar de se arrumar. “Quando subo nos ônibus, percebo o silêncio repentino: as pessoas ainda interrompem suas conversas para observar”.

Quando aborda esse assunto, diz, resoluta, trabalhar muito o preconceito dentro de si. Além disso, atribui a discriminação à falta de esclarecimento social e a uma concepção ainda arcaica, que enxerga os deficientes como doentes ou meros beneficiários de programas do governo.

“Quando estou com minha filha, ainda ouço muito as pessoas perguntando a ela, sem me dirigir a palavra: ‘És tu que escolhe as roupas dela?’, ‘És tu que veste ela?’. Eu não tenho como deixar de me divertir com isso”.

“Mas eu respondo que não”, interpõe a filha, Erem Carla dos Santos, “digo  que ela tem perna e braço, e mesmo que não tivesse, isso não seria empecilho para se vestir sozinha!”.

A moça relata que até conhecer sua mãe de coração, não dava muita atenção a roupas ou cosméticos: gostava mesmo de usar shorts e calças jeans. Foi a deficiente visual que a incentivou a diversificar as peças de roupa e experimentar maquiagens. Erem, por sua vez, ajudou–a nas cores.

“Quando eu conheci minha mãe, ela só usava roupas pretas. Então eu falei ‘Tu vais parecer uma viúva negra!’. Foi quando decidimos colorir esse negócio!”. E as duas caem na risada ao lembrar. “Por outro lado, eu sempre a via se maquiando sozinha e achava isso fantástico”.

Rosi acredita que a independência almejada pelas pessoas com deficiência deve abranger todas as áreas e por isso busca autonomia também no uso da maquiagem.

Ela diz preferir as de média/longa duração – como henna nas sobrancelhas –, que dispensam retoques diários; e produtos em bastão e creme, que facilitam seu manuseio e distribuição uniforme sem a assistência de outrem.

“Não importa o que os outros irão achar, o que importa é que eu goste.  Ser cega não me atrapalhou em nada, eu uso o que eu quero, amo usar saltos e me maquiar.  A gente pode ser linda, independente da deficiência”.

Segundo Sandra, “a beleza está relacionada com vários aspectos. Tem, sobretudo, muito a ver com bem–estar, com o olhar que uma pessoa concede a si mesma e com a importância que dá para o olhar do outro. O que as pessoas enxergam no exterior é o resultado da história de alguém, do momento em que vive. A beleza tem a ver, fundamentalmente, com o relacionamento de uma pessoa consigo mesma”.

A mulher negra que reinventou sua forma de viver e descobriu com o toque um universo a ser desbravado, alinha agora o vestido sobre as pernas, ajeita uma mecha de cabelo atrás da orelha e complementa cheia de certezas:

“Digo que vaidade não é só se maquiar ou vestir uma roupa bonita, é principalmente você se amar. Nas palestras que ministro pelos conselhos, costumo sempre deixar uma mensagem às mulheres: Nunca deixem que digam que vocês não podem ou não vão conseguir o que querem. Se amem, independente da deficiência. Se disserem que você é feia porque tem deficiência, não absorva. Feia é uma pessoa incapaz de enxergar o que existe além do seu exterior”.