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Tatuagens com significados feministas estão em alta e são ótimas ferramentas para o empoderamento das meninas. Na foto: Fernanda Prado

O ambiente de um estúdio de tatuagem é tradicionalmente retratado como masculino. Porém, as mulheres ocupam (e muito bem) esses espaços. E, conforme conta Marina Horta, professora de desenho que migrou para o ramo das tatuagens há apenas 1 ano, ainda lutam diariamente contra o machismo.É um preconceito muitas vezes velado, que só quem sofre que percebe”, afirma.

Grande parte desse preconceito vem dos próprios colegas de trabalho. Hannah Eme, tatuadora há apenas 2 anos, diz que já sofreu muito com deboches unicamente por ser mulher. “Muitos homens não sabem conviver com mulheres e respeitá-las”, diz.

O machismo também se mostra naquele discurso no qual relaciona-se o sucesso de uma profissional com um homem. Ao contrário do que essa ideia popular prega, grande parte das mulheres conquistaram suas carreiras sozinhas e aprenderam da mesma forma que seus colegas do sexo masculino, como Melissa Khouri, tatuadora há 15 anos – 13 deles em um dos maiores e mais antigos estúdios de São Paulo. “Tem sempre aqueles que acham que você trabalha ali porque está saindo com o dono do estúdio, e, na verdade, eu cheguei ali por mim mesma”.

Cintia Suzuki, tatuadora há 7 anos, afirma que percebe o machismo dos clientes. Um exemplo é ser criticada por fazer desenhos “delicados demais”, sendo que, se fosse um homem com o mesmo desenho, na certa não haveria incômodo.

“Em uma ocasião, um cliente ficou rindo o tempo todo, repetindo que os amigos dele não iam acreditar que ele fez uma tatuagem com uma mulher”, afirma ela.

Além disso, ela também observa sinais de relacionamentos abusivos entre casais que visitam juntos o estúdio: o homem autorizando ou mesmo escolhendo a tatuagem da companheira e o lugar em que será feita.

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Alguns exemplos de “flashs”, tatuagens pequenas, com cunho feminista. Feitos pela Carol Vitter

Um estúdio só de mulher

“Oi, cadê o tatuador?”, foi o que um cliente falou ao entrar no Hysterikaz Tattoo, estúdio em que só trabalham mulheres. São seis tatuadoras, uma bodypiercing e uma designer de sombrancelha. O Hysterikaz nasceu da ideia de criar um ambiente acolhedor e seguro para clientes mulheres e pras profissionais. Carol Westerna e Mariana Fiore, duas das tatuadoras, contam que são frequentes histórias das clientes sobre assédio em estúdios de tatuagem, o que faz com que muitas clientes procurem diretamente por mulheres.

“Antes de preferirem uma mulher pelo traço ou arte, as meninas nos procuram por segurança. Hoje eu dou preferência às clientes mulheres e faço da tatuagem uma forma de empoderá-las”, afirma Carol Vitter, bodypiercing há 16 anos e tatuadora há 5. De fato, na hora de tatuar-se, a pessoa fica de certa forma vulnerável, co o corpo exposto. Já ouvi papos de tatuadores sobre clientes mulheres que me deixaram bem desconfortável”, confirma Tina Raffaela, tatuadora há pouco mais de um ano.

Fernanda Prado observa que a maioria de seus clientes homens nunca havia se tatuado com uma mulher antes dela; já as meninas se preocupam mais em procurar uma profissional antes de marcar a pele. Paloza Cersosimo confirma: “A maioria das pessoas que me deram credibilidade no início foram mulheres. Mesmo depois de 13 anos, a minha clientela em sua maioria são as mulheres”.

Das treze tatuadoras que conversaram conosco, apenas uma afirmou não ter passado por nenhuma situação que envolvia machismo. O estúdio de tatuagem não é o primeiro nem o último ambiente de trabalho dito como masculino e vetado às mulheres. Apenas juntas poderemos torná-los mais confortáveis: tatue com uma mulher. Nós da Revista AzMina, até facilitamos o trabalho pra vocês, criamos esta lista colaborativa de tatuadoras. Colabore para que ela cresça, peça ajuda às amigas.

Mariana Fiore, tatuadora do Hysterikaz Tattoo

A produção de uma tatuagem envolve uma troca fundamental entre artista e cliente. Na foto: Mariana, tatuadora do Hysterikaz