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Vira e mexe o jornalismo nos bota em grandes dilemas éticos. Nesta semana, a equipe da Revista AzMina tem se revirado com um: o caso da jovem brasiliense de 22 anos que acusou o pastor e deputado Marcos Feliciano de tentativa de estupro – e, depois, desmentiu-se. Segundo a jovem inicialmente relatou ao jornalista Leandro Mazzini, do portal UOL, o pastor a teria convidado para ir à sua casa, proposto que ela se tornasse sua amante e, ao receber a negativa, tentado estuprá-la com uso de força física. A moça só teria conseguido se livrar do ataque porque uma vizinha ouviu seus gritos e bateu à porta.

Como provas do ocorrido, a moça apresentou ao repórter prints de conversas que diz ter tido com o deputado pelo aplicativo Telegram (reproduzidas abaixo), além do que seria o áudio de um bate papo com um assessor do deputado, em que ele teria tentado convencê-la a “botar uma pedra sobre o caso”. Você pode ouvir a conversa na íntegra abaixo:

“Na casa dele (…) ele não me deixou sair e me fez fazer coisas à força (…) Por estudar Direito eu sei que a gente tem que ter provas para incriminar alguém. E isso eu tenho”, afirma a voz atribuída a ela, entre outras coisas.

Ao que o assessor teria respondido: “Às vezes, pelo fato… você tem uma beleza diferente, você é bonita…”

Após a repercussão da denúncia, porém, a moça saiu de Brasília e publicou dois vídeos nos quais desmentia que havia sido atacada por Feliciano. O repórter do UOL conseguiu falar com a mãe da garota, que afirmou que a filha tinha sido agredida e o levou a concluir que a moça fora coagida por assessores do deputado a fazer os vídeos. Na delegacia, ontem, a jovem confirmou que foi coagida. A Revista AzMina procurou a moça para uma entrevista, expressou seu apoio a ela no momento difícil, mas ela não quis falar conosco. Ela já teve uma página de ódio ao feminismo.

Na Revista AzMina a gente leva a apuração e responsabilidade jornalísticas tão a sério quanto levamos os princípios feministas. Isso significa que por mais suculenta que pareça uma notícia contra um dos maiores inimigos das mulheres no Congresso, nós não a publicaremos sem checar exaustivamente e com justiça com os dois lados. E temos convicção de que uma falsa acusação de estupro faz um mal irreparável tanto aos injustamente acusados quanto às verdadeiras vítimas de estupro, que passam então a ser ainda mais questionadas.

Por esta razão sabemos que a história da moça deve ser exaustivamente investigada pela polícia e, se comprovada, o deputado deve ser punido com todo o rigor da lei. Mas não se pode condenar ninguém sem antes apurar as alegações com cuidado.

Nossa primeira ação foi debruçarmos sobre as provas inicialmente apresentadas pela jovem.

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Os prints foram analisados pelos artistas e designers de nossa equipe que afirmaram não haver indícios óbvios de manipulação mas, ao mesmo tempo, dizem que é possível falsificações verossímeis de conversas de celular com facilidade. O serviço Fotoforensics.com também não identificou fraudes perceptíveis. Logo, os prints, em si, são inconclusivos sem o original, mas a polícia, agora, tem acesso ao celular da vítima e deve poder resolver o impasse.

Telefonamos a Talma Bauer, o assessor do deputado que supostamente aparece nas gravações com a moça. A voz do outro lado da linha é idêntica à das gravações. Questionado sobre o fato, o homem responde:

— Fizeram uma montagem querendo dizer que éramos eu e ela (conversando), uma gravação mal feita.

— Não era o senhor, então?

Hoje se coloca até a voz do Elvis Presley no que você quiser em programas de gravação, já vi show de Michael Jackson depois de morto em que ele parecia estar no palco!

— Confirmando, Bauer, você nunca teve esta conversa com a jovem?

— Nunca fui nem eu nem ela naquelas gravações, ela mesma diz que é montagem e que a voz não é dela.

— E sobre a acusação de que vocês a teriam coagido ou convencido a voltar atrás na denúncia?

— Quem convence alguém a ficar calado se for vítima de alguma coisa? Só Jesus para convencer alguém! O próprio jornalista que postou isso já me falou que o caso acabou, está enterrado, não vai sair mais nada. O pastor Feliciano agora está orando, ele ama a menina, teve o maior relacionamento com ela dentro do partido, foi seu conselheiro e pregou pra ela, tem por ela um respeito filial. Deus te abençoe.

A nosso ver, as respostas do assessor são insuficientes e até estapafúrdias.

Conclusão? É necessário abrir uma investigação policial que, inclusive, obtenha autorização da Justiça para acessar o histórico de ligações de todos os celulares registrados em nome de Feliciano e colocar a jovem em ambiente seguro em que ela esteja afastada do poder de influência do PSC para obtenção de depoimentos confiáveis. Mais uma vez, nós nos colocamos ao lado da jovem, cujo nome não citamos propositalmente. Ela pode nos odiar, mas nós continuamos ao seu lado.

Da Redação