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Foto: Guilherme Santana para Vice

Tinha pensado em começar esta resenha do livro “E se eu fosse Puta”, de Amara Moira, dizendo que nunca me prostitui, mas aí pensei: será? Será mesmo? Veio-me à mente uma frase de Simone de Beauvoir em “O Segundo Sexo”:

“Do ponto de vista econômico, a situação dela (prostituta) é simétrica à da mulher casada. ‘Entre aquelas que se vendem através da prostituição e aquelas que se vendem pelo casamento, a única diferença está no preço e na duração do contrato’.”

Tive sorte: meu casamento é cheio de amor e nunca fui vítima de abusos ou violências, mas, como as prostitutas, meu sustento vêm do interesse de um homem por mim. Aqui em casa, é meu marido quem paga as contas porque eu não recebo o bastante para fazê-lo. Se ele decidisse, em algum momento, que minha companhia não mais o interessa, minha vida teria que se transformar de forma radical para que eu tivesse o dinheiro do aluguel no fim do mês. Claro, como muitas das prostitutas, eu não escolhi que meu casamento fosse assim – a sociedadade machista assim o impôs ao determinar que eu nunca ganhasse o mesmo que meu marido apesar de ter a mesma profissão e um curso de especialização a mais.

No caso de Amara, cativante autora e personagem deste livro em primeira pessoa, a sociedade machista lhe atribuiu o papel de puta ao decidir que este é o lugar que cabe às travestis. Libertando-se de uma identidade masculina que não a representava, ela se viu obrigada a vestir a carapuça da prostituta. “Sou tratada igual puta bem antes de me assumir puta, quase uma tatuagem na testa: bastou me verem travesti e já começa o assédio, assédio do qual nunca tive notícia enquanto posava de homem.”

Na trama todinha baseada em fatos reais, Amara se descobre mulher enquanto se descobre puta e, no caminho, nós descobrimos algumas respostas à pergunta que nos angustia: o que é ser mulher, afinal? E nos damos conta de que não adianta buscar, a resposta não é uma, mas muitas: não há uma mulher, há várias. Há a moça hétero, casada, que ama ser mãe; há a mulher negra de periferia; há a loira, linda e lésbica; há a hétero que nunca quer ter filhos ou se casar; e há Amara, mulher e trans. E puta.

Há um tanto louco de mulher nessa vulnerabilidade, nesse medo do estupro e do assédio, nesses hormônios e seus efeitos (e daí que vieram de pílulas e não dos ovários?) e nessa delicadeza de observação, neste corpo de Amara que nunca se sente dentro dos padrões. Há muito de mulher nesta alma e até na socialização que a levou a sentir-se assim, mulher.

Amara optou pela prostituição desde que transicionou, e registrou em um blog, que leva o mesmo nome do livro, as novas experiências. Sem nunca abandonar a academia, Amara estudou Letras e hoje é doutoranda em Teoria Literária, pela Unicamp. A narrativa constrói a história de Amara como mulher, além de trazer o lugar de fala das trans prostitutas e também a importância da luta pela visibilidade das prostitutas no Brasil. Sem se colocar contra a prostituição, ela fala sem romantismo das violências e medos que a profissão envolve. E clama por melhores condições de trabalho e remuneração para as profissionais do sexo.

E se Amara vivesse num mundo em que mulheres trans pudessem apenas ser doutoras em literatura? E se eu vivesse em um mundo em que pudesse sustentar o meu marido ou, ao menos, não fosse refém financeira do homem que amo? E se prostituição fosse proibido? E se prostituição fosse só mais uma profissão entre tantas outras, com carteira assinada e livre de estigma? E se, Amara? Em um texto gostoso de ler, na linguagem dos pontos e das ruas, ela pergunta, mas deixa as questões ecoando de volta.

E eu não me atrevo a respondê-las. Por ora, vou continuar ouvindo a voz de Amara – e por muitos dias depois do fim da leitura.