*Hoje quem dibra é a Renata Mendonça.

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As finais do Grand Prix de vôlei e da Liga Mundial nas últimas semanas trouxeram à tona uma boa e velha discussão: a diferença de pagamentos de premiações em competições femininas e masculinas. Resumindo, elas ganham bem menos que eles.

A diferença está até mesmo nos preços de ingressos cobrados para a Olimpíada do Rio, por exemplo – os jogos delas são mais baratos do que os deles. E não está só no esporte, está na vida.

Conversamos com um professor de Harvard e com a CEO da ONG Women’s Sports Foundation, nos Estados Unidos, para entender alguns pontos e explicamos aqui por que essa disparidade não é pura e simplesmente uma questão de mercado – é, principalmente, uma questão de gênero.

AzM_vaquinha_bullet_1O esporte é um reflexo da sociedade – e nela, mulheres ganham 30% menos que os homens para desempenhar a mesma função

A disparidade de gênero existe, é um fato na sociedade como um todo e, no esporte, não haveria de ser diferente (infelizmente).

AzM_vaquinha_bullet_2Atletas homens ganham mais porque eles geram mais lucro do que atletas mulheres; competições masculinas movimentam mais dinheiro do que as femininas, por isso pagam premiações maiores para eles.

Essa seria a tal lógica do mercado. Para fins de argumentação, vamos criar um cenário em que fosse realmente ela, e somente ela, que ditasse quem vai ganhar mais e quem vai ganhar menos no esporte. Como explicar o caso da seleção de futebol feminino dos Estados Unidos?

Segundo o relatório financeiro de 2015 da própria Federação Americana de Futebol, a seleção feminina gerou US$ 20 milhões a mais do que a masculina. Mas os pagamentos oferecidos pela mesma Federação por amistosos e jogos oficiais às mulheres é QUATRO VEZES menor do que aos homens.

Elas são tricampeãs mundiais, tetracampeãs olímpicas, geram mais lucro que eles e continuam ganhando quatro vezes menos. Seria mesmo essa a “lógica”?

Até mesmo os homens da seleção americana apoiaram o direito delas – que foram à Justiça exigindo não que recebessem mais do que eles, mas que recebessem igual.

Muitos jogadores da própria seleção masculina as apoiaram, disseram: ‘vejam, elas são muito mais bem-sucedidas do que nós, não faz sentido pagar a elas menos do que a nós’”, disse às dibradoras Brian Fobi, professor de Jornalismo Esportivo de Harvard que trabalhou por anos na Fox Sports, um dos principais canais esportivos dos Estados Unidos.

AzM_vaquinha_bullet_3Esportes masculinos geram mais lucro porque têm mais visibilidade e espaço na mídia – a diferença é gritante.

É verdade que, na maioria dos esportes, as competições masculinas geram mais lucro para os organizadores do que as femininas. Eles têm mais patrocínios do que elas, por exemplo. Mas será que isso é apenas uma “casualidade”?

Uma pesquisa recente divulgada na New Yorker apontou que em 2014, a ESPN, principal canal esportivo da TV americana, dedicou 97% de tempo no ar falando sobre esportes masculinos. Só 3% de todo o tempo dos programas e transmissões esportivas na televisão foram “cedidos” a modalidades femininas.

“A maioria dos argumentos que você ouve sobre isso é que as pessoas não gostam de esportes femininos. Mas para mim, o motivo disso é que as pessoas não conhecem os esportes femininos”, pontuou Fobi.

Oras, se são os esportes masculinos que estão na TV, são os esportes masculinos que receberão mais dinheiro de patrocinadores. Afinal, marcas querem visibilidade, e se a mídia só fala de competições de homens, elas só irão investir em competições de homens. Isso sim é lógica de mercado.

“Existe um grande mercado esportivo nos Estados Unidos e esse mercado poderia incluir esportes femininos. Mas a questão é que as empresas de mídia são conservadoras e têm medo de ‘arriscar’. Só que esse é um mercado ainda muito pouco explorado, então poderia trazer um retorno enorme com um investimento pequeno.”

AzM_vaquinha_bullet_4 “Ah, mas a mídia não transmite competições femininas porque elas não dão audiência”, dirão…

Será? Pois então nos provem isso. Comecem a mostrar campeonatos femininos com frequência para ver se eles realmente “não vão dar audiência”. Comecem a falar das mulheres atletas nos sites, nos jornais…mas não das “namoradas” de fulano ou ciclano, das musas disso ou daquilo. Falem das atletas, das modalidades que elas praticam. Cubram o esporte feminino, não sejam puramente paparazzi.

E não adianta fazer isso uma vez a cada quatro anos, só durante a Olimpíada. Façam com frequência e digam se “nenhuma modalidade feminina vai despertar interesse do público”.

É claro que isso não vai acontecer de uma hora para outra. Porque ser não pode tratar igualmente os desiguais. Se as mulheres sofrem com o machismo, falta de estrutura, falta de cobertura e ausência de patrocinadores, elas precisam receber incentivos extras em relação aos homens para que, num futuro próximo, possam se igualar a eles na lógica de mercado.

Mas a prova prática de que, quando o incentivo a homens e mulheres no mesmo esporte é parecido, o resultado é diferente está no futebol dos Estados Unidos.

Sabe qual foi a maior audiência de futebol da história do país? A final da Copa do Mundo de futebol feminino de 2015, Estados Unidos 5 x 2 Japão.

Não foi a final da Copa de 2014, não foram as oitavas de final da seleção masculina dos EUA contra a Bélgica. Foi um jogo de mulheres.

A audiência delas na final da Copa teve números maiores do que os de cinco dos seis jogos das finais da tradicional NBA nos Estados Unidos em 2015.

Então, será mesmo que as pessoas simplesmente não têm interesse em ver esportes femininos ou será que elas não veem simplesmente porque não estão acostumadas a ver, porque eles nunca estão na mídia?

“A ESPN é uma empresa e eles dizem que não vão perder tempo com esportes que não dão audiência. Mas não dão audiência porque a ESPN não perde tempo com eles. E aqui está uma coisa: até 1994, pouquíssimos americanos gostavam de futebol, fosse ele masculino ou feminino. Mas a ESPN gastou rios de dinheiro para promovê-lo e agora milhões de americanos assistem à Copa do Mundo. Isso mostra que se você promove algo da maneira certa, se você faz com que as pessoas se importem com ele, então elas vão consumi-lo”, observou o professor de Harvard.

“Os tomadores de decisão, nesse caso, são sempre homens, e eles não enxergam que estão perdendo a chance de atingir um público-alvo feminino. Existe até um sentido financeiro para isso, de atingir um público que eles ainda não atingem. E precisa de pessoas com coragem para mudar essas decisões e entender a importância disso”, pontuou Deborah Larkin, CEO da Women’s Sports Foundation.

AzM_vaquinha_bullet_5Até mesmo os Jogos Olímpicos escancaram a diferenciação entre homens e mulheres

Mesmo a competição que diz prezar pelos “valores olímpicos” – a amizade, o respeito e a excelência – parece esquecer deles na hora de precificar os jogos.

Afinal de contas, se o COI (Comitê Olímpico Internacional) diz que “valoriza” o respeito, por que coloca ingressos de competições masculinas a um preço bem mais caro (até 80% mais, como mostra essa pesquisa) do que os de competições femininas? Onde está o respeito às mulheres, que são tão atletas quanto os homens e se esforçam tanto quanto eles?

“Mas alguns jogos masculinos têm mais procura do que os femininos” – já discutimos o motivo disso acima. Mas ao cobrar um valor menor por jogos da mesma modalidade só porque serão mulheres competindo, e não homens, o Comitê Olímpico passa um recado à sociedade: mulheres valem menos. E é isso que alimenta a cultura machista que nos cerca.

Se os Jogos Olímpicos pregam tanto o diferencial de seus valores, a maneira mais simples de colocá-los em prática seria promover a igualdade entre os esportes de mulheres e homens ao menos na precificação dos ingressos, respeitando a importância tanto delas, quanto deles nas modalidades.

A conclusão aqui é que chegamos a um ciclo vicioso: mulheres recebem menos nos esportes porque suas competições são menos procuradas e rendem menos lucro; rendem menos lucro porque não têm visibilidade; não têm visibilidade porque não estão na mídia; não estão na mídia porque nunca estiveram.

E qual é a origem de tudo isso? Essa é a reflexão que propomos aqui.

É claro que a lógica de mercado existe, mas não dá nem para começar a falar dela enquanto um produto for sempre privilegiado em detrimento do outro. Quando as modalidades femininas e masculinas forem incentivadas igualmente, aí sim poderemos dizer que é o mercado quem dita as regras.

*Colaborou Dora Anderáos