O Divã de hoje é anônimo.

Foto de RenzoNo

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Era um evento comum: confraternização do trabalho em um restaurante qualquer da cidade. Tudo ia bem. Comidas, bebidas, amigo secreto, risadas… Uma comprida mesa, minha chefe, colegas de trabalho e os respectivos cônjuges. Assim como a maioria, eu também estava acompanhada, mas, diferente das outras mulheres, eu não tinha um homem como acompanhante e, sim, outra mulher.

Após algum tempo que estávamos lá, minha namorada recebeu um guardanapo com uma cantada cafona endereçada como “a mesa ao fundo” que, no caso, era composta por cinco homens. Ela, sem jeito, me mostrou o papel e eu, sem pensar muito, peguei uma caneta e respondi “Ela está acompanhada” e pedi ao garçom que enviasse de volta. Fiz questão de mostrar que ela estava acompanhada e que a acompanhante era eu mesma, uma mulher. Pouco tempo depois, volta o garçom com outro bilhete: “Melhor ainda”. Sim, eles perceberam que nós éramos um casal de lésbicas e escreveram outro recado com o pensamento mais clichê e machista, o famoso “Posso participar? ”.

Como se nós, lésbicas, servíssimos para o bel prazer dos desejos masculinos.

Respirei fundo. A noite começara a ficar amarga. Pouco tempo depois, outro recado e, agora, seguido de um bombom. Nesse momento, não consegui me segurar e ignorei completamente o fato de estar rodeada de pessoas do meu trabalho. Levantei bruscamente da mesa, com o bombom sendo esmagado na minha mão, bati com toda a força na mesa e olhando bem para o rosto de um deles, disse: “Eu achei que tivesse sido clara”. Climão, claro. Eles, na mesa, ficaram sem reação e meus colegas, de longe, também.

Ninguém espera que a gente reaja, essa é a verdade. Todo mundo me olhando meio de canto, sem dizer uma palavra.

Ao retornar, uma amiga me disse que não valia a pena estragar a noite por aquele motivo. A noite já estava estragada. Naquele dia, chorei, de baixo das cobertas e de luz apagada. Um choro doído.

Além do machismo que impera na nossa sociedade, nós, lésbicas, somos silenciadas e desrespeitadas o tempo todo e isso caiu sobre mim como uma bomba naquela noite.

Hoje, não lembro mais do ocorrido com pesar, mas, sim, como reforço para não esquecer que é preciso empoderamento e luta para colocarmos fim em atitudes como essa, que são vistas como “normais” aos olhos da maioria. Eu poderia ter engolido e não ter causado nenhum desconforto a ninguém, mas optei por (re)agir e é isso que tento fazer todos os dias. Seguirei assim, esperando pelo momento que o normal seja o respeito e a empatia por nós, mulheres lésbicas.