*Esta entrevista faz parte de uma das investigações patrocinadas pelo Programa de Bolsas de Reportagem da Revista AzMina que você ajudou a tornar realidade. Leia mais aqui

Para a médica Érika Fontana Sampaio, infectologista do Instituto de Infectologia Emilio Ribas e do Centro de Referência DST da Penha, de São Paulo, o surto do Zika vírus revelou uma crise sanitária nas grandes cidades do Brasil. Nesta entrevista, ela esclarece questões relacionadas ao Zika vírus, ao sistema de saúde do país, à gestação e à mulher.

AzMina: Por que existe maior incidência do Zika vírus na América do Sul?

A América do Sul reúne condições de temperatura e umidade que favorecem a proliferação do mosquito vetor, no nosso caso, o mosquito Aedes Aegypti. Não por acaso, o surto de Zika vírus veio acompanhado de dengue, chicungunha e outras doenças virais também transmitidas pelo Aedes. Outro fator que pode colaborar para o surto dessas doenças virais na América do Sul são as condições socioeconômicas de algumas regiões e as políticas públicas ineficientes de controle dos criadouros dentro da área urbana.

Nas grandes cidades brasileiras, problemas de limpeza no lixo das ruas, em terrenos baldios e nos quintais das casas, assim como a falta de saneamento básico, são as principais causas da proliferação do mosquito.

No Brasil esse quadro piora porque o grande desmatamento pelo qual o país passa fez com que o mosquito se adaptasse nas zonas urbanas e em grandes centros populacionais.

Com isso, crescem as chances de cada mosquito picar mais pessoas, aumentando também as chances de transmissão do Zika vírus.

IMG_20160725_143947495

AzMina: O Zika vírus pode ser transmitido por relação sexual?

Já está confirmada a transmissão do Zika vírus por meio da relação sexual, mas, aparentemente, são casos raros e isolados e ainda não se sabe como esse tipo de transmissão pode influenciar no surto de Zika. A OMS [Organização Mundial da Saúde] tem recomendado que gestantes que morem em regiões de surto do vírus ou gestantes cujo parceiros viajaram recentemente para essas regiões, usem preservativo nas relações sexuais durante o período da gravidez.

AzMina: Uma gestante com Zika vírus terá, com certeza, um bebê com microcefalia?

Não é certeza. Quando a gestante entra em contato com o vírus durante a gravidez, vários fatores influenciam o desenvolvimento ou não de anomalia, alguns ainda desconhecidos. A carga viral a que ela foi exposta, como está a imunidade da gestante, por exemplo, vão determinar a má formação do bebê, e não somente o contato da mãe com o Zika vírus. Na verdade, as gestantes que tiveram filhos com microcefalia foram a minoria de todo o grupo de mães que entraram em contato com o vírus.

AzMina: Existem outras doenças e complicações que um feto em contato com o Zika vírus pode ter?

Sabemos que o Zika é um vírus neurotrópico, ou seja, tem preferência por tecidos nervoso, central e periférico. Por isso, esses bebês podem, sim, ter outras alterações e má formações no sistema nervoso, como calcificações no parênquima [revestimento] cerebral, aumento dos ventrículos cerebrais, etc. Em geral, as complicações ficam restritas ao tecido nervoso, acarretando atraso e prejuízo ao desenvolvimento psicomotor dessas crianças. Também já existem estudos observando que, assim como em outras doenças como a sífilis, a toxoplasmose e o citomegalovírus, o Zika vírus também pode provocar alterações oculares e auditivas.

É importante lembrar que a primeira notificação de um caso de microcefalia associado ao Zika vírus em uma gestação é de novembro de 2015. Estamos falando de algo muito novo, que ainda está sendo estudado. Então, pode ser que outras doenças ocorram associadas com o Zika, mas que, neste momento, ainda desconhecemos.

AzMina: Em relação à gestante, o Zika vírus pode se manifestar de maneiras diferentes do que em outros pacientes adultos?

Já sabemos que não há diferença do quadro de uma gestante em relação ao restante da população adulta. Para a gestante e para qualquer outro adulto, se espera: febre baixa, dor no corpo e nas articulações, conjuntivite, vermelhidão pelo corpo, em um quadro que dure em torno de sete dias. Agora, a grande questão é que, no Brasil, foi observado um aumento de algumas doenças de sistema nervoso dos infectados, como o desenvolvimento da síndrome de Guillain-Barré, uma doença autoimune que leva à fraqueza muscular, e à mielite [doença neurológica]. Mas é uma parcela muito pequena do grupo de pessoas infectadas com o Zika que também vai desenvolver essas doenças, a maioria só terá os sintomas de uma semana.

Além disso, vale ressaltar que apenas 20% das pessoas em contato com o Zika vírus vão manifestar sintomas, todos os 80% não terão sintomas manifestados, mesmo infectados.

AzMina: O surto do Zika vírus já passou no Brasil?

Como já era esperado epidemiologicamente, a incidência da doença pelo Zika vírus caiu consideravelmente nos meses de maio, junho e julho, assim como as outras doenças transmitidas pelo Aedes Aegypti: chicungunha e dengue. Comparando maio a fevereiro, os casos de contato com o vírus caíram 87%. Esse fenômeno já era esperado para essa época do ano por causa das temperaturas mais amenas e o baixo volume de chuvas, fazendo com que o mosquito se prolifere menos nos centros urbanos. É importante lembrar, porém, que o Brasil é um país muito grande e diverso. Então, em regiões como o Nordeste, as temperaturas ainda são elevadas e com chuvas, favorecendo a reprodução do mosquito transmissor. Nestes lugares, ainda há o receio do surto de Zika retornar.

AzMina: Então já está mais seguro engravidar na maior parte do Brasil? 
Infelizmente, não. Há uma tendência de queda da infecção pelo Zika vírus e no número de mosquitos no meio urbano. Apesar disso, existe ainda a chance de transmissão da doença. Portanto, independente da época do ano, ainda é importante manter a preocupação de evitar a picada do mosquito transmissor. É difícil dizer que existe e qual será o momento certo para engravidar de maneira segura, sem o medo do zika vírus.
O importante é as pessoas, e principalmente as grávidas, continuarem se protegendo e tomando ações para evitar a reprodução do zika nas cidades, em qualquer época do ano. Os principais cuidados são: telas nas janelas e portas, uso de roupas que cubram a maior parte do corpo e de repelentes. E não podemos esquecer, mais uma vez, que as gestantes devem usar preservativo nas relações sexuais, uma vez que há a possibilidade de transmissão no sexo.