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O romance de estreia de Martha Batalha, “A vida Invisível de Eurídice Gusmão”, é feminista sem querer. Ao contar a história de mulheres cariocas dos anos 1950 (muitas delas inspiradas em pessoas que a autora conheceu no decorrer da vida), Martha acaba por retratar muitos dos desafios que o machismo colocou no caminho de nossas avós e mães – em alguns casos, provoca reflexões que servem até hoje!

Bem escrito e cativante, ele ameaça se tornar livro obrigatório para qualquer feminista que se preze no Brasil.

A história acompanha principalmente Eurídice, “a mulher que poderia ter sido” excepcional em muitas e muitas coisas mas, cercada por uma sociedade que desconfiava da capacidade feminina, acaba por viver uma vida de bastidores, sufocando todos os seus talentos. Neste bate-papo com AzMina, Martha fala sobre como acha impossível fazer literatura sem criticar as injustiças do mundo em que vivemos e como ela acredita nós, mulheres, podemos tomar as rédeas da situação.

Depois deste livro é impossível não perguntar: você se considera feminista? Classificaria “A Vida invisível de Eurídice Gusmão” como um romance feminista? Por quê?

Sim, eu me considero feminista – se você entende como feminista uma pessoa que acredita que homens e mulheres devem ser tratados da mesma forma, devem ter a mesma educação e oportunidades. Neste sentido, “A Vida invisível de Eurídice Gusmão” é um romance feminista, porque aponta para as diferenças entre os homens e as mulheres, que aconteciam na década de 1950, quando se passa o romance, e ainda acontecem hoje. Mas não acho que o romance seja apenas feminista – existem outras questões abordadas no livro, como as rotinas e aspirações da classe média, o relacionamento entre as empregadas domésticas e suas patroas, as fatalidades do destino (apontadas nas trajetórias dos muitos personagens secundários).

É possível fazer literatura feminista ou o feminismo, como viés e ideologia, nos limitaria a arte?

Nós, mulheres, que entendemos as injustiças pelas quais passamos ao longo de tantos séculos, temos a tendência a ter muita raiva do passado e do presente. Mas se eu fosse escrever um romance movida apenas por essa imensa raiva desconfiaria do resultado.

Qualquer manifestação artística produzida tão somente por ideologia e indignação se enfraquece.

É interessante você perguntar isso, porque ao longo do meu processo de formação de escritora tive que aprender a apagar a minha opinião do texto, porque os fatos tinham que falar por si. Ou seja: eu não preciso dizer – olha só que absurdo, a minha protagonista Eurídice quer trabalhar fora de casa, e o marido machão não deixa. Só tenho que deixar ela se movimentar, o marido se opor, e são as ações deles, e não a minha opinião, que construirão a cena.

Ser uma escritora feminista e retratar uma sociedade machista é um desafio? Enquanto mulheres, nós somos obrigadas moralmente a ter um olhar crítico contra o machismo em nossos livros?

Eu não me preocupo com isso. Não escrevo porque sou feminista, ou para retratar uma sociedade machista. Escrevo porque quero contar uma boa história, porque acho que existem muitas boas histórias que ainda precisam ser contadas no Brasil, porque é delicioso criar um texto em que o apuro da linguagem, as reviravoltas dos personagens e o ritmo vão seduzir o leitor. Agora, pelo meu ponto de vista, e pelas histórias que eu quero escrever, é impossível criar uma trama que se passe no Brasil sem falar das tantas injustiças que vemos. A desigualdade entre homens e mulheres é apenas uma delas.

Eurídice, a escritora não reconhecida, é tantas mulheres hoje. Nós ainda temos uma literatura tão dominada por homens no Brasil. Quais, em sua opinião, são os entraves? É falta de tempo? Falta de apoio dos Antenores e Cecílias e Afonsos de muitas escritoras invisíveis ou são problemas mais estruturais e de governo, como falta de creches e cotas?

Existem algumas respostas para a sua pergunta.

Se você está falando da mulher branca de classe média, o maior entrave para a escrita vem da crença de que ela pode menos do que o homem.

É uma das consequências mais perversas do machismo, essa. A ideia de que a mulher pode trabalhar, mas não tem que pensar em ser chefe. Pode ter um salário, mas não deve ser maior que o do parceiro. E isso vale também para a escrita. A meu ver, quem tem que mudar isso é a própria mulher. É ela que tem que entender que pode querer o mesmo que o homem, que esses entraves não são reais.

Se você está falando das mulheres das classes mais baixas – mestiças, negras, faveladas, aí a coisa é bem mais complexa. Porque estas mulheres nem sabem que podem querer, a meu ver. Elas nem pensam (como as mulheres brancas de classe média) que podem ter uma voz, desde que seja menor que a dos homens. Elas simplesmente não têm voz, e não sabem que podem ter. É uma questão muito mais estrutural e difícil de resolver.

Como ser escritora quando o mundo te diz que mulheres não têm nada a dizer?

Não importa o que o mundo diz, o que importa é o que você tem para contar. Pense em Carolina de Jesus. Negra, favelada, que escreveu um livro que se tornou um clássico, o Quarto de Despejo (até hoje o livro é usado em universidades americanas e brasileiras). Pense em Svetlana Alexievich, que ganhou um Nobel e escreveu um livro sobre aquilo que todo mundo pensava que não tinha importância, ou que sequer existia: o relato de mulheres russas sobre sua participação como soldados na Segunda Guerra Mundial. Ou mesmo na protagonista do livro que eu escrevi, Eurídice, que vive uma vida tida por todos como “sem importância”. A meu ver, os personagens e pessoas mais insignificantes aos olhos do status quo são aqueles que mais têm a dizer, e são os que mais precisam dizer, para que suas existências não caiam no esquecimento.

Como nós podemos superar a ideia de que mulheres escrevem “literatura de mulher” ou “literatura para mulher”? 

Acho que a gente não tem que pensar nisso. Tem que escrever o que quer, e pronto. É lógico que existem gêneros – tem gente que gosta de escrever literatura policial, ficção científica, romance açucarado. Existem também pontos de vista – Kurt Vonnegut escreveu livros brilhantes sobre a guerra por causa das experiências pelas quais passou, e só ele poderia escrever daquele jeito. No caso do meu livro, é o ponto de vista de uma mulher branca de um bairro de classe média, porque é a realidade que conheço. Mas um bom livro é um bom livro, independentemente de assunto, ou do sexo do autor.

Você torna complexa a ideia da mulher-vilã, da fofoqueira, da invejosa, que também aparecem como produtos de uma vida amarga em que não lhes foi dada muita opção. Isso não tiraria a responsabilidade dos indivíduos enquanto seres de autonomia dentro desse sistema?

Não sei se eu chamaria alguns de meus personagens de mulheres-vilã. O que acontece é que ao longo da vida eu conheci uma série de mulheres (geralmente mais velhas) extremamente amargas. Eram religiosas, mães de família ou solteiras (que ganhavam o terrível apelido de solteirona). Sempre pensei que elas poderiam ter sido mais felizes se tivessem opções, se pudessem se realizar, de alguma forma. Para mim sempre foi muito claro que não tiveram escolhas, e foi essa percepção que me fez querer escrever sobre elas, e construir personagens femininos frustrados.

Qual o caminho, a seu ver, para Euridices e Guidas de hoje encontrarem seu final mais ou menos feliz?

Para mim o caminho é o conhecimento. Se informar, ler, trabalhar, produzir. Se ferrar um pouco – porque, não adianta, a mulher vai sempre se ferrar mais do que o homem. Vai carregar o filho, vai batalhar pra ser ouvida num mundo dominado por homens, vai se sentir ultra super culpada porque está trabalhando fora com filho em casa, vai brigar porque não vai querer ter filho ou casar e a sociedade vai dizer – vai lá, casa, tem filho, vai brigar mais por um salário e por uma promoção que viria fácil para um homem, a lista é imensa.

Serviço

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Companhia das Letras

192 páginas

R$ 39,90