O Divã de hoje é da portuguesa Liana Rego. 

Foto de Edwyn Lee

Foto de Edwin Lee

Durante os meus anos de pré-adolescência percebi que ser homossexual era uma “coisa má”. Estava habituada a ouvir comentários depreciativos acerca da homossexualidade, acima de tudo quando ligada aos homens. E tod@s sabemos os termos super imaginativos e altamente variados que circulam por aí quando se acha – ou se sabe – que alguém é gay. Felizmente, nada disso me impediu de levar uma vida perfeitamente feliz, rodeada de um seguro grupo de amigos e amigas, que nunca se mostraram incomodad@s com as minhas preferências sexuais.

Um pouco mais tarde, já na minha adolescência, quando a maioria das pessoas do meu círculo social sabiam que eu era lésbica, e também quando as vidas sexuais se começavam a formar na malta da minha geração, os comentários começaram a ser mais diretos e focados. Circulava, entre os rapazes, a ideia de que eu era “mal fodida”. E não no sentido de ser amargurada ou arrogante, mas mesmo no sentido literal: foderam-me mal. Lembro-me perfeitamente – até porque não vai assim há tanto tempo – de várias ocasiões em que me negavam a minha orientação sexual. Era uma situação chatinha, não por ter qualquer orgulho ou vergonha em ser homossexual, mas porque quando alguém te nega aquilo que sabes de ti própria, é um bocado irritante.

De repente, parecia que os outros é que estavam incomodados com a minha verdade. Incomodados ao ponto de achar que eu não tinha era experimentado ainda “um bom pau”. “Já estiveste com rapazes?” – sim, havia quem achasse que isto era como como a melancia: não sabes se gostas até experimentares.

Quem se conhece bem e está bem resolvid@ consigo própri@ saberá, certamente, que há certas experiências que são totalmente desnecessárias para se atingir uma certeza. Ainda assim, e mesmo tendo eu já “experimentado” o outro lado – o heterossexual – a ideia persistia. Eu continuava mal fodida, porque, certamente, o indivíduo com quem escolhi envolver-me não sabia o que estava a fazer. Era mal fodida. Estava mal fodida. Ponto. Não havia outra explicação para o facto de preferir partilhar a minha intimidade sexual com mulheres.

Pois bem, cá ando eu, anos depois, arruinada e infeliz porque ainda não tive um “bom pau” que me penetrasse. Ainda não sei o que é um orgasmo e ainda anseio por uma boa foda. Pobre coitada, eu, a lésbica! Desesperada por afeto… Ou se calhar não. Se calhar sou é lésbica, uma característica que nasceu comigo, suponho, ou veio entretanto, vá-se lá saber porquê. Também não interessa. O que interessa é que a culpa não é do “pau”. Aliviem essa preocupação. E se o “pau” é assim tão bom, experimentem-no. Talvez vos satisfaça mais do que a mim.

O lado positivo disto tudo é que me tornei consciente daquilo que, verdadeiramente, o feminismo representava bastante cedo. E sou, garantidamente, uma melhor feminista por ter ouvido estes comentários e por ter lidado, bem de perto, com a ideia rudimentar de que o “pau” faz a mulher que sou.

Para todos os rapazes que me dirigiram estes comentários – sim, isto não é um relato hiperbólico ou tendencioso da feminista maluca; isto aconteceu mesmo – e para todos os outros que ainda irão fazer estas analogias, no futuro, pá, resignem-se: serei sempre mal fodida. Menos, claro, entre os lençóis… Ou em qualquer outro lugar onde, efetivamente, foder.