Pérola Cussiano, do Facebook, e as mulheres que fazem história: Ana Paula Padrão, Zica Assis e Milena Curado. FOTO: Divulgação / Facebook

Circulavam desde ontem homenagens às mulheres mais fodas que conheço centralizadas pela hashtag #ElaFazHistória. Para minha homenagem, escolhi Amara Moira. Hoje pela manhã, convidada pelo Facebook para o lançamento de sua campanha de empoderamento feminino, ganhei um balde de água gelada na cabeça quando a moça da recepção me perguntou se eu estava ali para o lançamento, referindo-se à campanha com a hashtag que horas antes eu ajudara a viralizar. “Merda, fui usada!”.

Este não é um texto anticapitalista que acusa empresas como o Facebook e o Instagram, que também encabeça o #ElaFazHistória, de se esconder atrás do rótulo da responsabilidade social para aumentar o lucro do acionista. As empresas estão aí, são uma realidade concreta e é positivo que o Feminismo dê lucro, mesmo que a gente precise chamá-lo de empoderamento feminino, seu apelido palatável. Olhemos para trás e reconheçamos: antes o que dava lucro era o racismo das propagandas de xampu, era a beleza impossível das capas de revista. É algo a se comemorar o fato de que, hoje, diversidade traz retorno financeiro, tanto nos quadros de funcionários quanto nas campanhas das empresas. Mas talvez seja o caso de uma festa mais modesta do que a que o Facebook quer nos empurrar.

A primeira pergunta aqui é: por que a hashtag foi lançanda sem assinatura? Por que fazer com que tantas mulheres usassem o #ElaFazHistória sem saber que estavam consumindo um produto da rede social criada por Marck Zuckemberg?

A pergunta é sincera e acho que o Facebook nos deve uma resposta, mas enquanto ela não vem, vou hipotetizar que a decisão se pautou pela suposição de que a vinculação da hashtag à marca traria menos adesão. Esta que vos escreve, por exemplo, teria buscado outras formas de homenagear Amara Moira se soubesse que, em paralelo, estaria alavancando a campanha de uma marca. De que forma, eu pergunto, pode caber uma mentira, ainda que alguns chamarão apenas de “verdade não dita”, em uma campanha de empoderamento feminino?

Talvez possa. Em tudo há contradições, e a parte maravilhosa desta manhã foi conhecer alguns dos dados compilados no portal da campanha e, sobretudo, algumas das mulheres selecionadas pelo Facebook. Zica Assis é uma que fez história. Ex doméstica, ela cansou de escutar que deveria alisar o cabelo e hoje emprega 4 mil mulheres na Beleza Natural, uma marca de cosméticos que ela desenvolveu – não, ela não é química – para cuidar de cabelos crespos. “Eu nunca tive carteira assinada”, conta, “e hoje assino a carteira de 4 mil mulheres”.

Outras contaram suas histórias e, com a viralização que já está em curso, outras virão. O trabalho de pesquisa do Facebook encontrou empreendedoras fascinantes e – muito importante – do Brasil todo, não apenas do bom e velho eixo Rio – São Paulo. Na frente da TV Samsung de 19 mil polegadas e ao lado de Zica, mais uma delas contava sua história para o público de convidados. Era Ana Paula Padrão. Maravilhoso que ela tenha podido dizer adeus às expectativas de ser a repórter brilhante, conforme contou, para aventurar-se no desconhecido mundo do empreendedorismo. Mas há algo de incômodo na equiparação entre a empresária do Beleza Natural e a apresentadora do Master Chef. Será que elas estavam ali pela mesmas razões? Será que, meritocraticamente, foram eleitas pelo Facebook unicamente por suas trajetórias de perseverança e sucesso? Eu truco.

Não há nada de errado em trazer quem pode emprestar sua projeção a uma campanha, sobretudo se o objetivo for nobre. Mas, de novo, o Facebook peca ao não explicitar a diferença entre Ana Paula Padrão e Zica Assis. Se as duas são vencedoras, o ponto de partida dessas mulheres é bastante distinto. O resultado da equiparação é a repetição de valores com cara de programa do Luciano Huck: “acredite, sonhe, lute e você chegará lá”.

O mundo meritocrático é mesmo um sonho, mas é só parte da realidade. Acreditar, sonhar e lutar é fundamental – e devemos estimular as mulheres a fazer isso – mas é preciso deixar claro que isso só é suficiente pra quem tem a sorte de nascer rico, com pele clara, bons contatos ou qualquer outro elemento que – sabemos – encurta os caminhos.

Na hora da chegada, é preciso que as mulheres –  e as pessoas – saibam que, se são negras, se são pobres, se são gays, se são indígenas, esses elementos terão encurtado suas pernas.

Se chegarem onde sonham, que comemorem em dobro, porque chegaram apesar das pernas curtas. E se não chegaram, elas precisam saber que talvez – apenas talvez – seja porque não largaram junto com as Anas Paula Padrão. Mas esse é um pedaço da história que o Facebook preferiu não contar. Falar de desigualdade social é tão chato, não é?

No fim da manhã, um prazer enorme pelas histórias trazidas à luz e pela certeza das tantas que estão por vir. Mas no fundo da boca, um gostinho amargo pelas perguntas que, espero, o Facebook possa nos responder.