Originalmente publicado na coluna d’AzMina no UOL Esporte.

A luta contra o estupro tem me ensinado duas coisas de maneira consistente. A primeira delas me tira o sono à noite: existem mais homens horríveis e dispostos a tudo em nome do prazer do que eu imaginava. A segunda, no entanto, é um alento: os bons espécimes do gênero podem ser profundamente dedicados a fazer parte da mudança e dispostos a se desfazer de muitas ideias prontas. Hoje vou falar do segundo ensinamento, porque acho que estamos em carência de esperança.

Acordei nesta manhã com não uma, mas duas ligações perdidas deste meu colega querido da universidade, a quem eu não via há um tempão. Vou chamá-lo aqui de Amigão do Futebol, pra preservar a identidade dele e revelar que ele é um tipo bem macho alfa, cara que jogava com meu marido, virilzão. A conversa que a gente teve, a meu ver, desconstrói todos os estereótipos negativos sobre o que a gente acredita que significa ser um “homem de verdade”.

Chamei de volta:

— Você me ligou, chuchu?

— Liguei, querida, porque não quero sair por aí falando merda e estou muito angustiado: não sei o que pensar do caso dos 33 e queria saber de quem entende das coisas.

Ri e achei doce a abordagem. Gostei ainda mais dele naquele momento.

— Me diga, Amigão do Futebol, em que posso ajudá-lo.

— Teve uma conversa na mesa do happy hour do meu trabalho, uma mesa diversa mesmo, que tem de CheGuevarista a Coxinha de Carterinha. E foi a primeira vez na minha vida que eu não tinha nada a dizer porque não queria ser um cretino. Veja bem, eu não quero condenar a moça que foi vítima de estupro, mas também não quero participar de uma fogueira da inquisição injusta contra os 33. Mas, pelo que entendo, só publicar vídeos íntimos nas redes sem autorização da moça já é crime, não?

— Exato, isso já é um crime contra a privacidade sexual da moça e, caso o cara que publicou tiver algum laço afetivo com ela (como ser namorado ou ex-namorado), o crime pode ser enquadrado como violência psicológica segundo a Lei Maria da Penha.

— E, vamos supor assim, que se ela no começo tivesse mesmo querendo uma diversão, uma orgia, mas depois mudou de ideia e eles continuaram, mesmo assim seria estupro, não?

— Seria, mas não dos 33, seria estupro de quem transou com ela depois do não. A mulher tem direito de desistir do ato sexual a QUALQUER MOMENTO e não faz diferença alguma se ela era sexualmente liberada ou até uma prostituta em serviço, se a vontade dela não for respeitada, é estupro.

— Sim! Teve um cara que falou isso e eu concordei. Mas teve uma outra coisa que falaram que fiquei muito na dúvida porque nunca ouvi um argumento desses. Assim, no vídeo, pelo que me disseram, ela está drogada e desacordada. E eu sei bem que transar com pessoas drogadas a este ponto é estupro porque a pessoa não pode consentir, mas um pessoal lá disse que como ela mesma tomou a droga e ninguém deu a droga a ela escondido num drink ou a forçou a tomar, ela assumiu o risco de ser estuprada e que isso está na lei. É verdade isso?

— De jeito nenhum. A lei brasileira prevê que você assume o risco de ser perpetrador de um crime, nunca vítima. Ela teria assumido o risco se, por exemplo, tomasse drogas, fosse dirigir e matasse alguém. Ela seria culpada de assassinato com intenção de matar. Mas ninguém assume o risco de ser vítima, principalmente porque todos nós assumimos esse risco todo dia ao sair na rua, né?

— Entendi! Então se ela saísse drogada e atravessasse a rua, ela não seria culpada por ser atropelada. Mas também poderia não ser culpa de quem atropelou, porque o carro não previa que alguém muito louco ia chegar de repente desobedecendo as leis de trânsito. Aí não podemos afirmar o mesmo com o estupro?

— Não porque no estupro não há acidentes. Ninguém tem uma ereção e transa com alguém por acidente, né?

— Verdade. Mas quer dizer, se uma guria tomar drogas eu não posso transar com ela porque é sempre estupro?

— Nem sempre. Há níveis de drogada como há de alcoolizada. Eu e meu marido às vezes tomamos umas antes de transar sem problema algum, porque ambos ainda estamos conscientes suficientemente para consentir e temos a mente clara do que queremos ou não. Mas se eu cair desacordada ou estiver não falando coisa com coisa, eu espero dele a decência de reconhecer que não estou no estado de transar. Se todos os homens tivessem com as mulheres desconhecidas o mesmo cuidado que têm com as mulheres que amam, isso já seria uma boa medida. Vale se perguntar: se minha irmã estivesse assim, eu ia gostar que o cara deixasse ela dormir e transasse com ela pela manhã ou acharia que ela tem condições de consentir?

— Então há níveis e nuances, né?

— Sim, nem sempre é tão fácil saber se seria estupro ou não. Mas, na dúvida, eu que não ia querer correr o risco de ser estuprador, Amigão do Futebol!

— E nem eu! E essa coisa aí que estão falando de cultura do estupro, isso não justifica o cara, tipo: ‘não sou culpado, só sou parte de uma cultura”?

— De jeito nenhum. Falar em cultura do estupro é dizer que existe um senso comum que prega que só mulheres comportadinhas têm direito a não serem estupradas. Se a mulher gostar de sexo ou se vestir de forma provocativa, aí ela “tava pedindo”.

— Que bizarro, tipo eu, que sou cara, posso gostar de sexo mas ela não?! Pior que tem gente que pensa assim…

— Não é? E olha, você, que como eu gosta tanto de esportes: o mundo esportivo é um dos que mais propaga essa cultura ao vender imagens de atletas como se fossem apenas bunda. Eu fico escandalizada ao ver a bunda das meninas do vôlei na capa do jornal quando tinham tantos lances lindos e talentosos para serem retratados.

— Não entendi a relação….

— Assim: ao tratar as mulheres como objeto sexual e não como sujeito sexual, a cobertura esportiva vende a ideia de que mulheres devem ser “consumidas” e não “conquistadas” como sujeito que são. Porque objetos não têm vontade própria, mas sujeitos têm. Mas a cultura do estupro que te falei não quer ver as mulheres como atletas, profissionais, mães, irmãs, cidadãs. Querem vê-las como objetos a serem “faturados a qualquer custo”. E aí os homens entram num vale tudo em que a permissão da mulher não importa, importa é faturar: vale fotografar a bunda da atleta sem permissão, vale passar a mão sem permissão na balada, e, por fim, vale fazer sexo sem permissão, no último grau desse raciocínio.

— Nossa, tá tudo conectado mesmo. Porque se eu considerar uma mulher como sujeito, pessoa que sente e tem vontades, que sofre e chora como eu, nunca vou conseguir tirar vantagem dela como se não importasse.

— No fundo, a questão do é estupro ou não se resume a um cálculo de empatia pelo outro né?

Depois disso conversamos sobre o time da nossa universidade – que decaiu muito desde nossos anos áureos – e nos prometemos nos ligar com mais frequência pra falar de assuntos mais leves. Eu não estou dizendo que o Amigão do Futebol merece uma medalha de ouro por ter me ligado e pedido conselhos. Eu e ele sabemos que ele não fez mais que a obrigação – o problema é que têm, infelizmente, muito homem por aí que não faz nem isso…