Toda sexta-feira a Revista AzMina publica um capítulo do romance de folhetim “Pequenas Esposas”, de Fabiane Guimarães. Leia os capítulos anteriores aqui.

 

pequenasesposas

Foto: Rossi Mario/Free images

Ele esperava debruçado na porteira branca, tremendo de alívio e sorte – apesar da mágoa – ao vê-la chegando com o cachorro entre as canelas. Sorriu indolente, de canto de boca, como se soubesse que ela iria voltar. Aquela certeza vestida no rosto barbudo deixou Maria irritada. Quase virou as costas, retomou o caminho, quem sabe da segunda vez dava certo, de repente convencia a vontade de sumir a não sair voando de susto.

Temeu a reação de quem por enquanto continuava seu dono. A lasca do chicote, os murmúrios furiosos como se ele só não passasse de um injustiçado. Em princípio Matias não agiu de nenhuma dessas formas, porém, porque estava aterrorizado. Desespero veio quando deu por falta da menina, esmiuçando a varanda à procura, quando catou os ombros do moleque, para interrogar por onde  ela andava. Arthur não sabia de nada, não tinha visto nada, herdeiro natural de sua própria frieza. A verdade é que aquela cara de certeza toda era mentira: Matias não sabia se ela ia voltar.

Estava esperando, contando o retorno no relógio de pulseira de couro. Se a noite terminasse de firmar e a menina não surgisse, pegaria os carros, já tinha avisado os homens, Tião de prontidão com a lanterna abastecida de pilha. Matias tinha lá os seus medos, que escondia em lugares fechados, porque medo que um facão não podia cortar era perigoso deixar exposto. Se deixava livre, motivava a troça. Pior: se corria solto, virava monstro.

Do medo de perder Maria, entretanto, não foi capaz de guardar segredo. Enquanto revirava a casa e amaldiçoava Geraldina, arrancava os colchões e arrebentava as portas, gritava no alpendre e sacudia de terror as galinhas, todo mundo podia ver o descontrole. Deixou as tripas do coração de fora, ficou vermelho de pânico. Foi vendo os piores cenários. Maria caída no cascalho, sangrando a mordida de bicho. O corpo seco com veneno de jararaca. Pior: Maria sumindo longe, na boleia de caminhão desconhecido, nas coxas a mão peluda de outro.

Quer me deixar louco, neguinha? Foi saudando, logo viu a menina no meio do pasto. Carinhoso, esganiçado. Vicentina escapou do abraço.

Ele amaldiçoou a indolência e mostrou-se desapontado para ver se despertava remorso. Ela não prestou atenção, só queria comida, banho, cama – o consolo do conforto, agora que tinha perdido aposta com o sereno. Respondeu com os lábios frouxos as interrogações de Matias. O que é que tinha na cabeça, o que fazia, onde é que tinha ido? Passear.

Matias não era burro. Podia ser um homem cego de amores, mas não estúpido. Sabia que o passeio era fuga. Foi desfiando seu rosário de broncas, lamentos de vítima que cresciam o tom e viravam ofensa: eu que te abriguei, fiz o nome da sua família, eu que te dou tudo, tudo o que você pede. Alguma coisa te falta? Pelo amor de deus, o que é que você quer?

“Estudar”, arrematou Maria, revirando as panelas à procura de comida.

Já tinham discutido o assunto antes, a esperança nem servia mais de espectadora. Matias dizia que mulher decente não precisava ir para escola aprender as letras,  só podia estar querendo criar asinha e trair o marido, enrabichar com algum galego, tudo que ela precisava aprender a vida ensinava, a vida ao lado dele devia ser grande professora.

Embrutecido de raiva, diante da insistência impaciente, desta vez o marido saiu chutando a porta da cozinha, mandou todo mundo que estava de fora recolher a curiosidade – aquela gente que ele mesmo tinha convocado – porque o espetáculo estava no fim. Maria sabia o roteiro: dali a pouco voltava, anunciava que dormiria no sofá e no dia seguinte a discussão virava outra. Ele nunca considerava, nunca cedia.

Ela não se importava com os ataques e os rompantes, continuaria a pedir pela escola enquanto o apelo tivesse o poder de irritá-lo. Com as juntas doídas da caminhada, esquentou um prato de feijão com farinha e começava a comer quando Arthur, branco feito um fantasma, dobrou no canto da parede como se esperasse sua vez de brigar.

“Tá fazendo o quê, vai dormir”, mandou, orgulhosa. Enfiado no pijama, o menino tinha uma expressão séria.

“Preciso falar com você.”

Maria estranhou a formalidade. O jeito do menino, meio ansioso e triste. Feliz e triste, na verdade, que engraçado ver uma pessoa dividida. Cruzou os braços e esperou, sobrancelha erguida de descrença. Fala logo.

“Eu vou embora, Maria”, ele disse, catando as palavras com preocupação. “Minha mãe ligou. Disse que arrumou um canto melhor e quer que eu volte.”

É certo que a amizade dos dois andava meio arrefecida, depois das proibições, já não brincavam juntos porque Geraldina era sempre um posto de guarda atento. Maria, porém, não conseguiu evitar que os olhos ardessem de choro. Ir embora. Era tudo que ela queria, mas ele ia primeiro, ele ia sozinho. Que injustiça.

“Tá. Eu não ligo”, disfarçou.

Arthur não se deixou enganar. Enrugou o queixo, chutou o chão. Queria dizer que sentia muito, e que ela também podia ir junto, mas era menino ainda e não sabia pedir desculpas. Estava exultante com a notícia, porque tinha saudade da mãe e sabia que não pertencia àquele lugar terrível, longe e empoeirado: tanta distância maltratava o espírito, não fazia sentido ter tudo no fim do mundo. O cantinho do peito que insistia em doer era só por causa dela. Alguma parte dele entendia que a garota não era feita para trabalhar e morrer em silêncio. Não merecia crescer naquela solidão de dar dó. Pela primeira vez na vida, sentiu que devia uma promessa.

“Eu juro que eu volto, de repente você pode morar com a gente. Falo com minha mãe. Ela pode fazer alguma coisa”, gaguejou.

Maria, que de repente começou a achar que todo mundo de quem gostava acabava indo embora, nem deu ouvido, ficou mastigando a humilhação, engoliu junto com o choro para provar que era valente. Ninguém volta para me buscar, essa é a verdade, pensou, mas não falou nada porque entendia: se conhecesse o outro lado da estrada, ela também não voltava nunca mais.