Toda sexta-feira a Revista AzMina publica um capítulo do romance de folhetim “Pequenas Esposas”, de Fabiane Guimarães. Leia os capítulos anteriores aqui.

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Luca Zaninoni/Free Images

No começo, Marcela achou que ele fosse apenas um desses homens que tiram prazer da violência. Não se queixava dos dedos firmes que faziam cortar a carne, das investidas em posições impossíveis, até sugeria, voz meiga e paciente, uns caminhos novos para o desejo aflito. Rodolfo não era perfeito, mas tampouco era cruel. Daria toda uma variedade de argumentos para justificá-lo, esperando naquela ansiedade boba pelos encontros de quarta-feira, mesmo que no fim da noite só sobrasse a marca – vermelha, latejante – dos carinhos dolorosos.

No ponto de trabalho, com as colegas, não comentava. Elas ardiam de inveja porque sabiam, no ápice das fofocas grosseiras, que a menina tinha arranjado um peixão. Bonito, rico, deputado. Milagre assim, nem em filme. Marcela rebolava, tomando cuidado para esconder o roxo das pernas, no encontro com outros clientes achava anormal ser abraçada. Passou a gostar daquela tara. Rodolfo não era o seu primeiro homem assim, mas tinha uma coisa a mais. Ela gostava. Se brincar podia até amá-lo.

É claro que foi um espanto quando, no fim de uma dessas noites, o deputado sacou, do bolso do paletó dobrado, um pequeno revólver lustroso. Marcela ficou a olhá-lo de um jeito irreal, observando aquela incongruência de longe, de outro mundo. Estavam ainda amolecidos de cansaço, seminus depois do contato sôfrego, e uma arma. Quis perguntar o que era aquilo, a voz não saiu.

“Comprei para me defender. Está com medo de mim?”, ele perguntou, muito sério, fazendo girar o tambor carregado.

Ela tentou sorrir e se engasgou com os dentes. Do alto da cobertura, no motel silencioso e caro, era fácil morrer. Também era fácil escapar. Um tiro no travesseiro para abafar o som. Com o pedido vinha a conta deslizando pela portinhola, o portão automático selando a visita, só depois é que dariam conta do corpo da prostituta sangrando no colchão. Não seria a primeira vez, Marcela sabia das histórias.

Sentando-se à sua frente, as pernas em leque, Rodolfo apreciou a reação. Excitava-se com o cheiro do medo, recendendo úmido e doce da pele castanha. Deslizou o cano da arma pelos pelos arrepiados. Marcela não se atreveu a interromper. Podia perceber que ele a observava com os olhos maníacos, aquele olhar de um querer furioso, fascinado pela resposta ao perigo. Rezou para que fosse só tesão.

Incentivado pela falsa tranquilidade, ele insistiu. O cabo da arma, curto e gelado, subiu ao pescoço, roçou de leve o queixo. Quando chegou na região dos lábios cheios – sempre tão elogiados, agora trêmulos – o rosto de Marcela derreteu de apreensão. Deixa isso de lado amor, sugeriu. Rodolfo riu, gostou do pedido. Em resposta, forçou caminho e fez o metal atravessar a língua da prostituta, forçou caminho boca adentro.

Imagina se eu puxo o gatilho, ele sussurrou, a outra mão pousada na virilha depilada, cavando umidade. Aterrorizada, Marcela inclinava a cabeça, engasgando com o gosto do ferro. Já tinha mudado de ideia, feito nova decisão. É óbvio que o jogo acabaria. Perdia a graça. Assim que conseguisse cuspir a arma, tomaria jeito. Rodolfo não veria mais nunca a cor de suas pernas. Imagina se eu estouro sua cabecinha.

A diversão não durou, estava certa. Ele logo pareceu cair em si e mudar de ideia, arrancando a arma reluzente de saliva e rindo seco, alto, como se a piada fosse impagável. Devolveu o revólver ao bolso secreto do terno. Saltando da cama, Marcela correu ao banheiro, fechou a porta com três voltas de chave, vomitou na pia. A pele quase azul esfriava ao toque, garganta fechada de pânico.

Quando deixou o quarto, ele já tinha ido e o maço de notas discreto saltava da mesa. Em vez de saudade, a contagem para a próxima semana reiniciada, desta vez o que ela sentiu foi só alívio. Sua pequena paixão de quarta-feira não sobreviveria àquela demonstração macabra de poder, sabia disso. Não resistiria ao rosto honesto do terror.

****

 É claro que ele não a deixou em paz. As ligações, insistentes, duraram semanas. Por sorte, o caso não foi levado a Beatrice. Que tentasse. Marcela não tinha medo de perder o emprego: àquela altura, fazia mais sucesso do que todas as outras juntas. Podia se dar ao luxo de recusar um só, a dona do negócio não ficaria nem sabendo.

Foi uma surpresa nada lisonjeira que ele tenha ido caçá-la no barraco em Ceilândia, ainda o lugar onde morava, mesmo com o dinheiro sobrando aos quilos – vai ver tinha esperança que o filho voltasse sozinho, ou vai ver queria lembrar-se dele ocupando os cômodos sombrios. O carro preto chamou atenção das vizinhas de língua solta, de cima do muro torceram os narizes para a beleza do moço chique, de motorista e tudo. Rodolfo era a personificação da elegância, com o cabelo escuro rebentando-se em ondas, desceu abotoando o terno, consciente da imundície do quintal. Três horas da tarde. Ela acordou com as batidas na porta.

Se fosse antes, sentiria vergonha por recebê-lo emaranhada de sono mal recuperado. Emudeceria de pânico por não ter varrido a casa nem tirado as roupas do varal. Naquele momento, porém, só veio a vontade irresistível de expulsá-lo aos gritos. Por azar, era educada. Convidou-o a entrar e foi passar um café.

Você não me atende mais, ele foi dizendo, e ela apreensiva, catando a lata de pó, perguntava-se como ele tinha achado. O endereço. Até concluir que era besteira: um homem assim poderoso conseguia tudo que queria. Exceto o trabalho dela. A mão de obra, nem por todo o dinheiro do mundo mais.

É o que confessou, porque achou que seria justo, mandar a real. Eu não quero mais trabalhar com você, mas se quiser tenho uma amiga para indicar. Ou Beatrice pode achar alguém do seu gosto. Rodolfo não pareceu se alterar. Bebericou o café quente em silêncio. A xícara lascada beijando o pires de um jeito torto.

“Você não vai me rejeitar.”

“Desculpa, mas vou sim.”

“Você é uma puta.”

“Com orgulho.”

Marcela não era mulher de se acovardar. Notava que ele começava a entender, lentamente, o balanço de descontrole escorregando pelos olhos escuros. Um pequeno tique no queixo partido fazia os dentes trincarem.

“Acho melhor você ir. Não tem nada pra fazer hoje no Congresso?”, aconselhou, levantando-se para buscar açúcar. Ele a seguiu com passos vacilantes, trêmulos. Azar.

Percebeu que não tinha medo dele. Vai ver imaginou que a ameaça não condensaria, virava tempestade, por falta de energia, ele era mesmo um sujeito pouco prático. Não teve medo nem quando as mãos bem cuidadas avançaram ao seu pescoço (tantas vezes tinha estado lá). Depois, de choque, não reagiu quando o punho fechado alcançou o rosto.

Tentou se defender, mas foi assim, um golpe seco e rápido de degustação. Um atrás do outro foi recebendo no silêncio, em seguida, com os cotovelos erguidos, escudo patético e descrente. Esbarrou na prateleira de temperos, viu o vidro de açafrão se espatifar no chão ao mesmo tempo que ela. Caiu com as pernas abertas, foi a deixa para que ele arrancasse o cinto, estrangulando-a enquanto gozava. Nunca foi prazer, Marcela entendeu finalmente, o nariz sangrando – sangue por todo o rosto inchado e Rodolfo indo embora com as mãos vermelhas.

Esse tempo todo, era só violência.