Toda sexta-feira a Revista AzMina publica um capítulo do romance de folhetim “Pequenas Esposas”, de Fabiane Guimarães. Leia os capítulos anteriores aqui.

shot

Foto: Chris Cheever/Freeimages

O menino pensou que fosse levar uma surra. Já tinha visto que a forma punitiva preferida do pai envolvia uma tira de couro, dançando no ar a critério das broncas. Foi se preparando, ainda que não soubesse a razão do castigo, nunca dava para entender. No fim do corredor, contudo, não o esperava a máquina de tortura com fivela de metal. Apenas a mesa, dois copos e uma garrafa de cachaça. Um piquenique de adultos.

“Senta. Vem tomar uma com o pai”, sugeriu Matias, lábio tremendo de um autocontrole suspeito.

Vacilando, Arthur ocupou a cadeira. A garrafa, translúcida, deixava a luz atravessar em ondas. Então era isso, o castigo? Quase riu. Derramando a aguardente nos dois copos, com um brilho maníaco no olhar, Matias empurrou o vidro lentamente na direção do filho.

Entornaram a primeira dose sem trocar palavra e sem brindar. Arthur não hesitou, engoliu com rapidez, deixando o líquido escorrer pela língua direto ao céu da boca, amortecia o que estivesse pelo caminho. A cachaça, da boa, queimou na garganta. Ele estava acostumado: bebia desde criancinha, sempre que os colegas mais velhos empurravam uma garrafa de cerveja ou gole de uísque, na rua onde se criava.

“Outra?”, perguntou Matias, satisfeito.

Outra. O gosto de álcool incendiando a língua. Arthur gostou da sensação, a moleza indistinta, embora não conseguisse entender o motivo pelo qual estava sendo premiado e não castigado. Quis perguntar, mas a boca dormente preferiu se ocupar com outro gole. O fazendeiro repetiu o ritual, sem se alterar ou conferir explicação.

Há muito tempo, tanto que quase nem conseguia se lembrar, o pai do próprio Matias tinha convidado o filho a beber. Por aquela mesma via de saída, exceto que com uma garrafa de conhaque embebido em carvalho. Até hoje podia se recordar do gosto de madeira. O que é que Matias tinha feito? Era sempre um mistério. O velho Franco costumava ser rígido, intenso. Queria moldá-lo de acordo com seus princípios de honra e retidão. Via ofensas nas pequenas coisas, nem de longe havia se deparado com uma situação como a que o fazendeiro encarava agora, após as denúncias azedas de Geraldina. Aquele moleque que reconhecia como seu, a quem dava a caridade de sua riqueza, atrevendo-se com sua mulher. Os dois lá, escondidos, no quarto que ele tinha fabricado. Precisava aprender que não se mexia em vespeiro. Um primeiro alarme suave, porque era bondoso (e menino homem tinha mesmo fraqueza de carne).

Dois quartos da garrafa desceram rápido, esticou-se o tempo. Arthur quis escalar a mesa, sapatear, dobrar-se em risos fáceis. Gostava da sensação da embriaguez, sempre se reconhecia nessa névoa de bem estar, feitiço que despertava os valentes e fazia os amigos melhores. O pai não se apressava, observando-o como se fizesse parte de um experimento científico, os olhos de porco – verdes de uma forma injustamente linda – sem se dar ao luxo de piscar. Mais? Mais.

O fundo não era assim tão comprido e não demoraram a rarear as doses. Matias, acelerado, exagerava no copo do menino, que não se rendia. Começava a perceber por que estava ali, mas não se rendia, porque era acostumado. Os nervos da garganta repuxando ao contato com a cachaça translúcida e os braços, dobrados, formigando de dormência. Algo de podre no estômago, que revirava e queimava. O pai queria ouvi-lo pedindo para parar naquela competição de quem era melhor. Queria que ele gemesse e vomitasse, mas ele não, ele era experiente. Sorria com bocados de pinga na boca e deixava o álcool vazar pelos dentes, molhando o queixo, pingando na blusa. Havia de ser forte para resistir.

Só lá pelos últimos goles o corpo de Arthur fez aquilo que o menino se negava a fazer. Sem conseguir engolir, deixou a cabeça desabar sobre a mesa, as bochechas esmagadas de encontro ao tampo de madeira. O mundo parecia invertido de repente e seus pés, soltos no espaço, qualquer hora dessas se enroscavam no abismo. Delirou que a mãe estava ali, no canto, para reprová-lo. O que é que eu vou fazer com você? Teve saudades dela.

Satisfeito, Matias pegou a garrafa vazia. Quer ser homem? Você ainda não é homem. Aproximando a boca do ouvido do filho, sussurrou: não mexa com minha mulher. Da próxima vez, eu te levo para o açougue.

***

Enquanto isso, lá fora, dentro do casebre que costumava ser do pai de Maria Vicentina, Tião e Geraldina entornavam um prato de sopa rala – ela com um sorriso secreto no rosto, ele perdido no meio de um devaneio.

Lá fora, no meio do quintal, o vira-lata Pedro cochilava com um osso de galinha sob o domínio das patas pequenas. Uma noite tranquila e bonita, exceto que um pouco adiante, no escuro, um labirinto de madeiras dobradas pela metade violentava o pomar. Tocos de circunferência pequena, ceifados no cair da tarde ao comando de Matias, com pressa e sem método.

Os homens não haviam entendido direito a ordem, judiação derrubar uns pés tão meigos e cheios, mas vai ver o patrão precisava da terra para construir. O cheiro de frutas esmagadas – daquelas que os empregados não tinham conseguido salvar – era quase agressivo. Uma a uma, as árvores em miniatura, cerradas com brutalidade, restaram cadáveres em forma de troncos magros. De manhã viria um caminhão para apanhar, levar embora, madeira barata, prestava para nada. Não qualificava nem para fogueira.

Ao raiar do sol, quando acordasse e fosse passar o café, Maria Vicentina veria: do alto do monte, sua jabuticabeira derrubada, ainda carregada, acenando com tristeza a violência do castigo despropositado. Uma árvore tão sua que já tinha nascido assim, vestida de luto.