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O divã de hoje é da Carolina Pedrosa. Siga-a no Facebook. 

Sabe aquele papo de padecer no paraíso? Não compro de jeito nenhum. Esses dias um senhor me viu com me filho no ônibus e falou “ser mãe é dose, né?!”. Sorridente, respondi: “eu adoro!”. Uma senhora atrás de mim concordou: “é a melhor coisa do mundo! E ser avó então?!”.

Não, não são só flores. O início é foda, aquele troço recém-nascido que dá um puta trabalho e nem agradece. Você cheirando a leite azedo ou a gorfo, apenas o rascunho do que foi uma mulher um dia. Mas é impressionante como vale a pena…

Sou a orgulhosa mãe dum japaloro de 7 anos. Sou babona, coruja e todo o pacote maternal, inclusive aquela famosa culpa que nasce sim, ao mesmo tempo que nasce a mãe (no meu caso, nasceu). O que mais? Sou mais um monte de coisa: profissional, estudante, namorada, amiga, sambista nas boas quartas-feiras. E, embora meu filho seja de uma importância que não cabe em palavras, ser mãe não é tudo na minha vida. E isso eu digo sem aquela culpa ali citada.

O pai do meu moleque é brother, meu amigo. Já foi meu marido, hoje é das pessoas mais importantes na minha vida. Grande pai. E, assim como eu, não é só pai, também trabalha e tem a vida social dele. Compartilhamos além do passado e do filho, muitos amigos. Mulheres e homens inteligentes, divertidos, pessoas com quem amo dividir muita coisa, inclusive o filho, já que minha cria cresce com essa comunidade muito presente em sua vida (certa vez chegamos em uma reunião de pais da escola com 3 pais e eu, mas essa é outra história…).

Mas me mata — amigos, atenção, porque isso realmente me mata — quando o pai vira herói porque passou o final de semana com o pequeno. Ou porque dormiu com o filho prá eu poder ficar com o namorado ou ir pro samba. Ou porque ficou meia hora fazendo castelo de areia com o pequeno. Dizem: “nossa, ele é ótimo pai, né?”. Ou: “ah, que sorte você tem!”. Ou: “cara, além de tudo ele ainda brinca com o moleque. Que exemplo!”.

Puta merda! O que é esperado, que eu compre uma medalha de honra ao mérito? Não fez mais do que a obrigação! Se ele fez castelo por meia hora, quem cuidou durante as outras 23h30?

Não quero ser ingrata, mas sejamos realistas… E isso acontece num grupo privilegiado de amigos, pessoas inteligentes, questionadoras, muitas delas feministas. De uns tempos prá cá, cada vez que escuto “nossa, ele é um paizão, né?!”, respondo: “sim, ele é ótimo e não faz mais do que a obrigação”. E isso tá gerando ótimos papos.

Você deve estar pendando: “beleza Carol, acho que você tá reclamando de barriga cheia porque ele é super legal, mas ok. Qual o seu ponto?”. Meu ponto é: o que cada um espera de mim, como mãe? E o que cada um espera dele, como pai? E se eu falasse que passo duas noites por semana com meu filho? Mereceria medalha? Ou taca pedra na Geni? E se ele perdesse oportunidades de trabalho/viagem/estudo porque é pai? Normal?

Repito: estou falando sobre um ambiente de jovens adultos, bem formados, Zona Oeste paulistana, meio intelectual meio de esquerda. Olha a que ponto chega algo tão enraizado que mesmo entre pessoas que discutem o machismo diariamente, é difícil desconstruir o conceito de mãe-protetora-não-faz-mais-que-a-obrigação e pai-legalzão-uma-vez-por-semana.

E sabe onde isso vai parar? Em todo lugar!

Certa vez, uns anos atrás, estava conversando sobre emprego e pensão com o pai. Ambos estávamos ‘entre trabalhos’. Ele achava que ser mãe não deveria interferir na minha chamada ‘empregabilidade’. Concordei, não deveria… E perguntei: “quantas vezes já te questionaram, numa entrevista de emprego, com quem fica com seu filho para você trabalhar?”. Ele respondeu: “nenhuma, ué. Isso não interessa a ninguém”. E então eu disse a ele que escuto essa pergunta em todas as entrevistas.

Recentemente, quando questionei ao chefe o motivo de outros profissionais da empresa irem ao Vale do Silício devido a um projeto no qual eu também estava envolvida, e eu continuar trabalhando aqui no Brasil, a resposta foi: “mas você é mãe, Carolzinha… Não posso te mandar pra fora”. Respondi: “sim, mas meu filho tem pai!”. Minha resposta pareceu desconcertar o interlocutor. No entanto, continuei sem a oportunidade de viagem. Muito pelo contrário…

Sejamos todos humanos. O pai precisa deixar de ser herói para ser humano. Eu preciso deixar de ser mártir (padecer no paraíso) para ser humana. Nós precisamos dividir as mesmas responsabilidades e, além de tudo, as mesmas expectativas. Porque a carga que está posta sobre a mãe infelizmente não é nada justa.

E nem estou falando dos casos de mães abandonadas, não, tô falando do meu caso confortável de mãe que cria o filho em conjunto com o pai, embora não na mesma casa, e cercada de muito apoio!

Enquanto eu continuar escutando em ambiente profissional que minhas oportunidades são diminuídas por eu ser mãe, enquanto os amigos  continuarem me vendo como a mãe resmungona que reclama quando o pai divertido extrapola, enquanto eu não puder me destituir totalmente do manto que me jogam todos os dias, vou continuar repetindo: “o pai não faz mais do que a obrigação, precisamos desconstruir os mitos”. As oportunidades que me são negadas na vida estão diretamente relacionadas a esse imaginário de papel de mãe e papel de pai.

Então hoje eu tô aqui para propor um trato por mim e por todas as mães: vamos parar de tratar como herói um pai que cuida do seu próprio filho?

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