Omuro erguido na Esplanada dos Ministérios para dividir manifestantes de cada um dos lados da disputa política neste domingo, enquanto o Congresso votará o impeachment da presidenta Dilma Rousseff, é muito simbólico para nós. Sabemos que em cada uma de suas extremidades haverá mulheres e, para nós, não existem separações sobre quais merecem ou não ter seus direitos e sua felicidade defendidos. Nascemos para servir a todas as mulheres, independentemente de suas crenças, valores ou posições políticas. Temos que nos esforçar por lembrar que, dentro da nossa irmandade feminina, o primeiro passo é o de derrubar muros entre as mulheres.

No entanto, derrubar muros não é o mesmo que ficar em cima do muro. Com respeito às divergências de opinião, sentimos a obrigação de nos manifestar diante da maior crise política já vivida no Brasil durante a vida adulta desta equipe e da maioria dos membros de nosso Conselho Editorial de Leitores. Primeiro, para marcar posição de que política é, sim, um assunto de mulher e deve ser tratada por revistas femininas e que as brasileiras merecem uma cobertura política honesta e transparente. Depois, porque apostamos que nosso posicionamento pode contribuir com a reflexão social, já que trazemos ao debate o ponto de vista feminino tão pouco ouvido na arena pública brasileira, seja na imprensa, seja no Congresso, onde apenas 10% das representantes são mulheres. Além disso, já que o ideal do jornalismo 100% isento é inatingível, acreditamos que o mais honesto é que nossas leitoras e leitores conheçam a posição de nossa equipe.

E nós, da Revista AzMina, somos contra o impeachment.

Não se trata de aliar-se ao PT. Ao contrário, somos críticas ao governo da presidenta, que ignorou temas urgentes para as mulheres em seus primeiros anos de mandato, como o aborto, a punição de crimes contra a mulher na internet e inclusão de uma educação robusta contra o abuso sexual nas escolas. Tampouco somos contra investigações justas e limpas e julgamento de casos de corrupção seguindo todo o procedimento legal previsto na lei brasileira. O que trazemos de novidade ao debate é nossa visão sobre o que um governo liderado pelo PMDB significaria para as mulheres brasileiras.

Eduardo Cunha lidera o processo de impeachment como bandeira anticorrupção sendo ele mesmo comprovadamente corrupto (talvez o maior de todos os corruptos do cenário político atual). Cunha já tentou mais de uma vez, por exemplo, obrigar mulheres estupradas a terem filhos de seus agressores, tirando delas o direito de interromper a gravidez. Curioso lembrar, também, que outro conhecido inimigo dos direitos das mulheres no Congresso, Marcos Feliciano, o considera “meu malvado favorito”.

Michel Temer, por sua vez, tem poucos laços com minorias (entre eles os de mulheres) e muitas com Eduardo Cunha – a quem deverá a presidência em si.

Naturalmente, Temer ser o sucessor de Dilma é um pecado político do próprio PT, que não hesitou em fazer alianças condenáveis para manter a governabilidade. E da maioria de nós, eleitores, que aprovou tal chapa. Mas agora não é hora de apontar culpados, mas, sim, de trabalhar com a realidade que temos em mãos e ela é: Temer será presidente se Dilma cair. E isso será desastroso para as mulheres e para o combate à corrupção, já que, ao que tudo indica, significaria deixar Cunha sair impune por seus crimes por ele ter “servido ao combate à corrupção”.

Como destaca a cientista política Flávia Birolli, o grupo dos protagonistas do processo de impeachment “é formado por políticos que não enxergam no governo eleito um escudo contra os processos de corrupção nos quais figuram como acusados e como réus.”

Também nos incomoda que a presidenta esteja caindo, no fundo, por um crime que não é aquele pelo qual ela está sendo julgada no Congresso.

Enquanto o processo de impeachment é baseado no argumento de abusos sobre as pedaladas fiscais, na arena pública, se faz o povo entender que Dilma cai porque há provas que a incriminem em escândalos de corrupção da Petrobras, o que, ao menos por enquanto, não é o caso.

Segundo a lei brasileira, o impeachment deve acontecer apenas se a presidente cometer um crime de responsabilidade. O problema é que, diferentemente de juízes, os parlamentares estão sujeitos à pressão popular, uma vez que são eleitos. A decisão deles pode, portanto, resultar em um impedimento mesmo sem que haja base legal para isso. E a pressão popular, neste momento, não está baseada no verdadeiro argumento em torno do impeachment, mas na revolta nascida de um suposto envolvimento não comprovado da presidenta com a corrupção. Gostaríamos também de ver o mesmo ímpeto da operação Lava Jato em investigar políticos de outros partidos, como Cunha, que permanece intocado.

Além disso, acreditamos que os fins não justificam os meios. Se aliar a corruptos apenas para tirar do poder um partido que nos decepcionou é um meio errado de resolver o problema. E que abre precedente para sempre cortarmos caminhos.

Vale ressaltar que grande parte da mídia tradicional brasileira está favorável ao impeachment e não tem poupado esforços para colaborar com que ele aconteça. Acreditamos que nosso papel como mídia independente é de ser um contraponto a isso. Não somos patrocinadas por nenhum partido ou grandes empresários e nosso dever é exclusivamente com nossas leitoras e pequenos doadores.

Não acreditamos que o PT seja o melhor defensor dos direitos das mulheres na arena política hoje, mas tampouco é o pior. Concordando novamente com Birolli: “Embora o PT tenha se curvado sistematicamente à forma atual da política, dominada pelas alianças não programáticas e pelos financiamentos de campanha, sua história o diferencia, ao menos do ponto de vista das pressões às quais está exposto. Embora menos combativos do que outrora, a base sindical, os movimentos sociais, assim como os grupos de esquerda que ainda compõem algumas das suas correntes, são pressões contrárias à desarticulação dos direitos”.

Às mulheres favoráveis ao impeachment, temos a seguinte mensagem: consideramos e respeitamos seu ponto de vista e ainda sentimos que somos parte de um todo.

Seguiremos fazendo a cobertura política ouvindo os dois lados, pois assim se faz bom jornalismo.

Após a solução desta crise política, certamente estaremos unidas em muitas outras.

Da redação.