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Ao longo de março e abril tivemos: vazamento de áudios inoportunos, fotos de perfil de luto pelo país, textões no Facebook, show de horrores na Comissão do impeachment, manifestações pró e contra (qualquer coisa!), quebra pau familiar e ruptura de amizades, virtuais ou não, final do BBB16 (sim, ele ainda existe!), homenagem de maluco alçado a deputado a torturador,  a Zika não mais ameaça o pais cedendo seu lugar inicialmente à política e, finalmente, à H1N1, pagamos mico internacional dos nossos representantes, prêmio a Juiz Federal Justiceiro em New York, vergonha alheia em níveis históricos.

Bem, de lá para cá, o Cunha continua Presidente da Câmara apesar de ser réu em um tanto de processos e suspeito em mais um tanto (não vou nem atualizar para não correr o risco de aparecerem novos enquanto esse meu texto vai para a revisão!), o Temer recebeu benção do Malafaia e sai por aí mundo afora dando entrevista sobre o seu “programa de governo”, a Veja veio nos dizer que mulher admirável é mulher igual à futura primeira dama: bela recatada e do lar (e de preferência sem opinião própria já que sequer a ouviram!), o Dep. Flavinho disse que mulher gosta mesmo é de ser submissa, o Eduardo Cunha – sempre ele – nomeia comissões à revelia dos grupos interessados para esvaziar direitos e vota qualquer tema até ele ganhar – ôh homem persistente! – e faz avançar suas pautas retrógradas e conservadoras enquanto os inocentes que acreditavam no: “primeiro a gente tira o PT e depois o Cunha” economizam suas panelas e voltam a assistir novela e a acompanhar o futebol que logo retorna.

E ontem, em sessão tumultuada, que só terminou na madrugada, mulheres de fibra como a deputada Luiza Erundina ocuparam a mesa diretora e se negaram a compactuar com a criação de uma comissão à revelia da bancada feminina e protestaram contra a exclusão de temas considerados prioritários para as mulheres, como direitos reprodutivos e aborto, do âmbito da nova comissão.

Estou sofrendo. Um pouco é porque eu estou grávida e me dói constatar dia após dia que meu filho provavelmente crescerá em um país cada vez menos democrático e mais autoritário!

E este não é mais um medo teórico ou premonitório. Amigos e conhecidos estão sendo ameaçados por serem petistas ou de esquerda! O medo é real porque, em meio às manifestações, uma menina foi espancada duramente na paulista por estar de vermelho. Sem falar em listas de boicote a pessoas e profissionais (artistas ou não) de esquerda, mídia seletiva e manipuladora, direitos ameaçados e o silêncio dos paneleiros.

Estamos às vésperas de ver nossos direitos reprodutivos já escassos nos serem arrancados através da aprovação do Estatuto do Nascituro e ainda há quem ache que “se o aborto for legalizado ninguém mais vai usar camisinha”, “que as pessoas têm que arcar com as consequências de seus atos” e que o aborto não é um problema de saúde pública pois a pessoa que “procurou”. Óbvio que por “pessoa” leia-se mulher. Sim, porque até que e se e quando se consiga uma pensão do pai da criança, quem teve que levar uma gravidez a termo sofrendo seus efeitos físicos e psicológicos? (que já são para lá de complexos mesmo quando a gravidez é, como no meu caso, mais do que desejada!) Quem teve que correr atrás de advogado (ou da sobrecarregada defensoria?) para ir atrás de seus direitos? Quem foi julgada, abandonada e muitas vezes humilhada, por “não ter se cuidado”? Quem deixou de namorar, de ter sonhos?

Há quem ache, também, que alguém como eu, gestante que ama seu bebê, não pode ser a favor do aborto, como se as duas coisas fossem incompatíveis. Não são.

Respondo aqui, então, após mais uma manobra de Eduardo Cunha, que sequer deveria estar ocupando esta cadeira ou qualquer cargo público, enquanto acontece a Audiência Pública que discutirá o aborto dentro das doze primeiras semanas de gestação pelo SUS e enquanto paira sobre as nossas cabeças a aprovação do Estatuto do Nascituro e do PL 5069/2013, o porquê de meu coração estar inquieto e choroso, apesar de eu estar vivendo um dos momentos pessoalmente mais gratificantes da minha vida.

O ponto de partida mais básico aqui é: ser a favor da legalização (ou da descriminalização para quem não quer chegar a tanto) NÃO SIGNIFICA ser a favor DO ABORTO! Significa não achar que mulheres que passam por uma gravidez indesejada tenham o direito de terminar essa gravidez de forma segura e sem colocar suas vidas em risco.

É insano achar que o aborto vai virar anticoncepcional. Quando alguém me diz: “se o aborto for legalizado ninguém mais vai usar camisinha pois vai poder abortar” não pode ser mulher! Não é possível que alguém ache que abortar é igual tirar um cravo ou depilar a virilha!

“Ahhh mas e a vida da criança?” dirão alguns… não vou nem entrar no mérito do conceito jurídico do que é “vida”, mas a conta é simples: 200 mil brasileiras morrem por ano em abortos clandestinos (junto com seus respectivos fetos), não seria justo nos preocuparmos com essas vidas também? E qual então a lógica do aborto legal (caso de risco de morte para a mãe e de estupro)? Não são “vidas” esses também? Se posso preterir a vida do feto caso ele cause risco de morte à mãe, não seria argumento suficiente para descriminalizar todos os abortos já que de fato é de um risco de morte que estamos falando?

Sou a favor de melhorar as alternativas (incluindo adoção) para que a mulher mantenha a gravidez, ainda que indesejada, mas qual a lógica de defendermos tantas “vidas” que sequer podem viver fora do útero em detrimento de tantas mulheres?

Sim, eu quero muito um filho, mas porque eu tenho condições psicológicas, emocionais e financeiras.

Mas mais do que tudo, o que eu mais gostaria, é que meu filho e principalmente minha filha viessem para um mundo onde a mulher não fosse detentora de menos direitos. Onde a mulher fosse dona de seu corpo, de seu útero e de sua vida e onde as pessoas não fossem covardes de olharem apenas para o próprio umbigo como está fazendo o senhor Eduardo Cunha!

Eu nasci de uma mãe que engravidou muito nova e sem apoio algum. Que foi largada grávida por um namorado irresponsável e egomaníaco e que teria todas as razões do mundo para ter me abortado. Já ouvi dela inclusive que “eu não poderia ser a favor do aborto, pois se ela tivesse pensado assim eu não teria nascido.” Eu demorei mais de 2 anos para conseguir engravidar e a minha gestação foi e está sendo celebrada a cada dia que passa!

Amo essa criança que já tem nome, quarto, para quem leio histórias e canto musicas todos os dias. Vivo o milagre da vida e do amor com cada célula do meu corpo e da minha alma e, mesmo assim, é difícil, é desafiadora, é incômodo em muitos dias e é confuso… Nada disso me impede, ao contrário apenas reforça, meu apoio à legalização do aborto, pois nenhuma mulher no mundo deveria colocar sua vida em risco, seus projetos em jogo, autoabdicar de todos os seus sonhos por uma imposição social machista e patriarcal! Nem eu, nem você e nem a minha mãe!

A maternidade iminente e o encontro quase que forçado com minhas próprias sombras e conflitos me fizeram lembrar da menina que sempre fui. A menina que chorou por dias a fio quando descobriu que se matavam cruelmente golfinhos e baleias, que queria levar todos os sem-teto para casa e soltar todos os passarinhos da gaiola! Essa menina sensível e super canceriana se perdeu nas dores da vida, nas porradas do sistema, se vendeu em alguns momentos ao luxo e ao brilho do glamour que lhe foi apresentado, mas ela nunca deixou de existir por completo!

Precisamos falar de aborto e daquelas que morrem, que são criminalizadas ou ainda das que parem crianças condenadas muito antes de nascerem. Das mulheres presas que são humilhadas, abandonadas dentro e fora do sistema prisional para serem punidas em looping por “seus erros”.  Há que se falar de estupro e da banalização do mesmo, de como é motivo de piada para alguns e tantos acham normal rir das mesmas.

Sally Kempton disse: “Tornei-me feminista como uma alternativa a ter que me tornar uma masoquista” e é por isso que o medo bateu, mas a coragem irá prevalecer! Afinal de contas não temos opção…