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Foto: Divulgação

Luana, 22 anos, filha de pai angolano e mãe brasileira, viveu três anos na África e trouxe na bagagem as questões da mulher preta contemporânea. Rosana, 24 anos, daquelas mulheres pretas que sempre precisaram trabalhar, mas largou tudo pra finalmente trabalhar com o que gostava. As duas se juntaram para, através de peças de roupas, falarem de empoderamento, ancestralidade e potência feminina.

Em 20 de novembro de 2015, essas duas minas pretas moradoras de São Gonçalo, cidade da região metropolitana do Rio com mais de 300 mil habitantes, lançaram a marca de roupas Nzinga. O tombamento foi instantâneo! Em bate-papo com AzMina, elas falam sobre moda, raça e poder. Confira!

AzMina: O que quer dizer Nzinga e porque vocês escolheram esse nome?

Luana: Nzinga foi uma rainha angolana, guerreira, que conseguiu evitar a ocupação do território dela pelos portugueses por mais de 40 anos, usando uma série de estratégias. Ela é um símbolo de luta nacional em Angola.

Quando a gente resolveu criar a marca, queríamos algo que representasse tudo que a gente pensava: a figura feminina, a força, a potência, a ligação com a África.

Nzinga inverteu a lógica de submissão que seu povo e ela passavam e é essa a lógica que a gente quer reverter com a marca, de que não é fácil ser mulher negra, mas é possível!

AzMina: Vocês já eram duas minas do mundo: uma produtora e uma maquiadora. Por que investir num afro empreendimento? Existiu algum desejo de partida?

Lu: É um momento em que não consigo me pensar gastando energia em algo que não fale do meu contexto: mulher, negra, de periferia. A Nzinga conseguiu materializar o que eu sou subjetivamente, e trazer outras questões, que falam a todas as mulheres.

Quando você empreende você coloca um pouco do que você é e do que você quer ver. E o que eu queria ver eram outras mulheres negras representadas num lugar de criadoras.

Rosana: Já eu tinha muita vontade de empreender, desde larguei o emprego para me tornar maquiadora. Não tenho mais vontade voltar pro mercado de trabalho formal e como já sou ligada a moda e beleza, meu maior desejo era empreender em um negócio feminino.

Aí sondei a Lu sobre a possibilidade da gente entrar nisso juntas. Por que não fazer roupas? Já possuía uma rede próxima, a tia da Lu era costureira… Na hora, a gente ficou muito animada, depois bateu umas “bads”, a gente viu que não seria tão fácil assim, que era complexo produzir e montar uma marca do zero. Até agora a gente está experimentando, mas tem certeza de que é isso que a gente quer: uma marca feita por mulheres negras, para mulheres negras.                                                                             

AzMina: Pra começar qualquer coisa, às vezes, as redes são ainda mais importantes que o dinheiro: as redes de afeto, as pessoas com habilidades que a gente não tem. Quais foram essas primeiras redes de vocês?

Rosana: A gente achou que tinha analisado bem todo o trabalho que teríamos, o que seria terceirizado, o que a gente daria conta de fazer. Aí vimos que o trabalho seria ainda muito maior! Todo o processo de criação, modelagem, corte, acabamento. Depois viria o marketing, a rede pra divulgar. Ficamos muito perdidas, mas uma coisa sabíamos:

a gente queria envolver mulheres negras em todos os processos, desde a criação até o marketing. Fora as modelos, que claro, teriam que ser negras.

Então, começamos a mapear nas nossas redes quem poderia ajudar, quem já trabalhava com moda, quem poderia modelar, quem já fazia gestão de redes, marketing. Depois a gente foi conversar com as pessoas, apresentar o projeto, e todo mundo ficou apaixonado, conseguimos muita coisa num preço baratíssimo ou no amor. E a maioria dos membros dessa rede era mulher e negra.

AzMina: Existe um mito machista da competição feminina, como se a gente estivesse o tempo inteiro tentando derrubar uma à outra. Como é pra vocês ser sócia e ser amiga e como isso influência na produção da Nzinga?

Luana: A gente está aqui uma do lado da outra, não dá nem pra falar mal… (risos). É muito difícil, mas não pelo fato dela ser mulher, mas porque nós somos muito diferentes uma da outra. Entendemos que essa diferença não é um problema e sim uma complementação. O que eu tenho faltando, a Rô tem sobrando e vice e versa. Eu sou pisciana e ela é aquariana, esse é o melhor exemplo que eu consigo dar (risos).

Antes da Nzinga existir a gente já era amiga. E temos um acordo de que a Nzinga nunca vai ser maior que isso, se não, não tem sentido.

Somos duas filhas únicas, que num momento da vida se encontraram e viraram irmãs. Não é discurso bonito, é real, eu conto com a Rô em vários momentos da minha vida, mesmo com toda a “cavalice” dela. (muitos risos)

AzMina: Quando a gente cria um projeto, seja lá do que for, tem que pensar o que quer ser quando crescer, né? Então, onde vocês querem chegar?

Luana: O nosso slogan é:

“A moda como uma ferramenta de empoderamento.”

Então, hoje, apesar da Nzinga ser uma marca de roupa, a gente não quer só isso, a gente não quer impactar a vida da mulher negra tendo ela só como clientes. A gente quer que ela esteja dentro do processo e se identifique. Que a Nzinga impacte a vida da minha tia, que é costureira da marca, por exemplo, exercendo a potência dela.

Rosana: A gente quer atingir mulheres em muitas dimensões, dar acessibilidade a essa moda afro que tanto se fala, que tanto se mostra, mas que ainda é inalcançável.

A gente vê marcas “afros” com valores absurdos. Queremos então chegar nessas outras mulheres porque moda também é informação, empoderamento.

A longo prazo, a gente quer ser referência como uma marca de beleza e moda afro. Tanto na representatividade quanto no pensar essas mulheres negras, porque nada da gente é produzido sem pensar essa mulher: o corpo dela, a cor, o que cai bem… Queremos que quando se pensar em vestir uma mulher negra, se pense em Nzinga! Quando se pensar em alguma marca que represente a mulher negra, se pense em Nzinga!

Conheça mais sobre a Nzinga aqui:

https://www.facebook.com/nzingamodaafro/?fref=ts

ou aqui:

http://www.voudenzinga.com.br/

Nzinga- Arara

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