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Você já reparou que o ex-presidente Getúlio Vargas se matou com um tiro no coração e a história o poupou da imagem de desequilibrado emocional? E, convenhamos, não existe maior desequilíbrio emocional do que aquele que leva uma pessoa ao desespero máximo de interromper a própria vida. A história, no entanto, não está sendo tão gentil com a presidenta Dilma Rousseff, que apareceu na capa da Revista Istoé desta semana retratada como uma histérica descontrolada por muito menos. E nós, da equipe e do Conselho de Leitores da Revista AzMina, acreditamos que o jornalismo é a história sendo escrita em tempo real.

Veja bem: não se trata aqui de defender eventuais atitudes agressivas da presidenta com seus funcionários e assessores; isso, sem dúvida alguma, seria condenável. E não se trata também de avaliar se ela está ou não em um estado desequilibrado de nervos, já que esse tipo de diagnótico cabe a profissionais da psicologia e não a jornalistas. Trata-se de reconhecer um padrão histórico de atribuir às mulheres uma imagem de emocionalmente inaptas para liderar.

A ciência nos classificou como histéricas para não ter que responder socialmente por nos fazer infelizes e sexualmente frustradas diante de um mundo opressor com o sexo feminino e outras identidades de gênero minoritárias. As empresas nos chamam de “emocionalmente frágeis” demais para liderar. Agora, a história nos chancela, na figura de nossa primeira presidenta, como loucas, raivosas e desequilibradas.

Como bem lembrou o think tank feminista Think Olga, capas similares abundam na imprensa mundial. Exemplos de mau jornalismo. Mas quando algo parecido foi usado contra homens? O próprio técnico da seleção brasileira, Dunga, teve sua fúria elogiada em uma capa da revista Época, por exemplo. Na TV Senado, deputados homens saem aos tapas e não rendem capas assim. Jair Bolsonaro chegou a agredir fisicamente à Maria do Rosário sem render uma capa assim. Se isso não é estereótipo seletivo, o que seria?

Arte do Think Olga que reúne capas machistas mundo afora contra líderes mulheres. GASLIGHTING é uma forma de machismo cruel e perniciosa. Pode ser descrita como uma violência emocional que se dá por meio de manipulação psicológica e leva a mulher e todos ao seu redor acharem que ela enlouqueceu ou que é incapaz.

Arte do Think Olga que reúne capas machistas mundo afora contra líderes mulheres. GASLIGHTING é uma forma de machismo cruel e perniciosa. Pode ser descrita como uma violência emocional que se dá por meio de manipulação psicológica e leva a mulher e todos ao seu redor acharem que ela enlouqueceu ou que é incapaz.

Então, por que acreditamos que essa capa é machista? Porque foge com o decoro necessário para tratar um dirigente nacional, porque se vale de estereótipo de gênero do pior nível e porque ignora que a população brasileira é basicamente machista, logo, esta capa será instrumento para que futuras mulheres que se enveredem pela política tenham que ouvir que “mulheres são histéricas e não feitas para liderar”. Porque a maioria das fontes dessa reportagem se escondem atrás do anonimato para atacar a presidenta. Mas, principalmente, porque evidencia que homens e mulheres não são tratados de maneira equânime pela imprensa quando têm desequilíbrios.

A fúria, neles, é força e fibra. Nelas, é histeria e loucura.

Sentimos a necessidade de escrever esta carta aberta à direção e equipe da Revista Istoé pois, há não mais de um mês, saímos em defesa da jornalista Débora Bergamasco, quando sua conduta sexual foi questionada pelo Diário do Centro do Mundo. Débora, por triste coincidência, é uma das autoras da reportagem que dá tratamento machista a nossa primeira presidenta. Faltou empatia de uma mulher por outra, para dizer o mínimo. Mesmo com relação a este trabalho específico que nos desagradou, não apoiamos que ela seja atacada pessoalmente, enquanto mulher, mas criticada enquanto profissional.

Vale ressaltar que não nos arrependemos de termos defendido Débora na situação anterior: o ataque do DCM foi digno de repúdio e não foi dirigido somente a Débora mas a todas as outras mulheres que têm sua competência questionada, todos os dias, por serem atraentes. Que escutam, em sussurros nos corredores das empresas, “para quem ela deu para chegar ali?”.

Mas não deixaremos agora de nos opor à mesma repórter em defesa de outra mulher. É uma posição difícil, mas necessária. Não se trata de tomar partido na disputa política. Muito há para ser discutido neste aspecto, especialmente quando consideramos a diversidade de opiniões dentro da equipe e do Conselho de Leitores desta revista. Mas, se precisarmos escolher um lado, não temos dúvida: estaremos sempre do lado de qualquer mulher vítima de machismo.