Toda sexta-feira a Revista AzMina publica um capítulo do romance de folhetim “Pequenas Esposas”, de Fabiane Guimarães. Leia os capítulos anteriores aqui.

Foto: Mauro Guanandi/ Creative Commons

Foto: Mauro Guanandi/ Creative Commons

No dia em que Matias trouxe o menino, Maria Vicentina cultivava o prazer solitário de comer jabuticabas embaixo do pomar, único lugar da fazenda que havia tomado para si. Pequena que era, conseguia se abrigar com facilidade entre o emaranhado de caules retorcidos de todas as árvores que o marido havia plantado, esperando uma floresta espigada e cheia, um lugar para pendurar redes e sonhar com o céu – até que a natureza fizera questão de frustrar os planos, uma vez que todas as mudas implantadas cresciam para baixo. Pés de acerola, limão e mexerica, além da jabuticabeira, dobravam-se em uma escuridão profunda e fresca a meio metro do chão, como se trocassem confidências sobre o peso do sol. O fazendeiro havia desistido até de cercar a área, terreno livre para os funcionários, que tiravam cochilos e comiam deitados.

Jogada sobre as folhas, era um canto para pensar e resistir. A cabeça de Maria nunca tinha voltado a ser a mesma, é claro. Não barulhava como antes. Ela tinha criado o hábito de guardar as antigas dúvidas em uma caixinha. Pegava cada pensamento pelo dedo e avaliava, antes de se decidir se valia a pena ou não insistir. Quase nunca valia. Lembrar-se da outra vida, da família; querer ser alguma coisa ou ir ao colégio – não ponderava sobre essas coisas porque dava dor de cabeça. Uma dor lancinante das coisas que não podia mais ter. Por isso distraía-se com o que era bonito, como as árvores anãs, os pássaros que alimentava todas as manhãs após o café e Pedro, o cachorro vira-lata com nome de gente.

Pedro, o cão, tinha a sua própria história curiosa: surgira do nada após um temporal. Saíra trotando do meio do mato até ser prontamente acolhido por Tião, que o batizara como um menino. Geraldina dizia que devia ter alguma peste, porque o pelo falhava em algumas regiões; ou que era do capeta, porque tinha olhos quase vermelhos. Matias não fazia a menor questão de ter outro bicho na casa, mas já era tarde, porque Maria Vicentina havia se apegado à criatura marrom de focinho rosado. É meu, disse, e como quem preferia não discutir, o marido se calara.

O temperamento de Maria Vicentina havia sofrido mudanças, certamente derretido junto com todo o resto. Alma jovem e macia que foi ganhando rasgos e sulcos, endurecendo e sendo forjada em aço quente: aprendera a resistir bravamente. Bicha bruta, acusava Geraldina, quando ela jogava as panelas na pia e gritava. Matias se encolhia, ardendo secretamente de amores pela menina em combustão.

É que, para ele, sempre tinha sido fácil o galanteio barato. Ao cabo de algumas noites conseguia encantar as namoradas, ser príncipe encantado. Todas as mulheres, até as menores, só queriam amor e presentes. Os regalos, por outro lado, nunca tinham surtido o efeito esperado em Maria Vicentina. A menina não se apegava um instante sequer. Cumpria suas obrigações com os olhos pregados no teto. Não respondia aos elogios e declarações. Não me ama?, ele perguntava. Ela saía do quarto e fechava a porta. Coração ardia de desafio.

Foi até por isso que, receoso, Matias esperou um pouco para falar sobre o menino. Cheio de afetos repentinos pela criatura recém-chegada (coisa de quem se apercebe da velhice), mostrou a casa, o quarto, a propriedade – que um dia vai ser sua, meu filho. Quando já anoitecia, foi buscar a menina no lugar de sempre, mas não se atreveu a rastejar debaixo das árvores.

“Vem cá”, gritou. “Preciso que você conheça uma pessoa.”

Se Maria teve curiosidade, não fez a menor questão de ter pressa.

“Maria Vicentina, eu estou chamando.”

Ela odiava quando ele gritava, não só pela grosseria do hábito: com a voz esganiçada guinchando ordens, ele ficava ainda mais feio. Parecia uma espinha protuberante prestes a explodir de pus. Apesar de todo o desprezo e desafeto, contudo, ele ainda era a única pessoa que Maria tinha no mundo. Só por isso atendia. De cabeça baixa e ombros caídos, obedecia.

Matias estava nervoso quando a convenceu a finalmente sair do pomar, arrastando-se de quatro ao lado de Pedro. Torcia as mãos. Um anão ruivo gemendo consequências. A menina perguntou, pela primeira vez, o que era.

“Vai ver”, ele murmurou, arrastando-a até a casa grande.

Ele deu a notícia na cozinha, enquanto, na sala de jantar, um Arthur aturdido olhava para as paredes enterrado em uma cadeira. A mãe não tinha, afinal de contas, escolhido qualquer lugar, tinha feito isso de forma calculada, despachando-o para os braços de quem mais odiava. Ela nunca falava muito quando o assunto era seu pai e ele sempre achara que não valia a pena querer conhecê-lo mesmo. Ali, um castigo inteligente, primoroso, tinha que dar os devidos créditos: sua mãe, sua parceira, tinha desistido dele para passar a bola adiante, lançamento direto para um inimigo declarado.

Arthur sentia-se confuso e dolorosamente traído.

Maria Vicentina, porém, não teve dificuldades para entender o que Matias explicava com tão pouca eloquência.

“Ela nunca me falou que tinha um filho meu, essa minha ex-esposa”, ele dizia. “Mas ele não vai atrapalhar a gente.”

A garota não deu a mínima. Olhou para o cabelo despenteado do menino largado na sala. A única coisa em que pensou, analisando despretensiosamente a pilha de louças sujas, foi no trabalho que teria cozinhar para mais uma pessoa na casa.

“Não fique com ciúmes, tá?”, pediu Matias, interpretando o silêncio como um sinal de afeto.

“Nem preocupa”, ela rosnou. “Não vou ficar.”