Foto: unsplash.com

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Atendo mulheres no consultório há uma década e só em 2015 uma paciente trouxe a questão do relacionamento abusivo. Essa questão não existia antes? Claro que sim, mas não havia sido nomeada dessa maneira. E a pergunta “estou num relacionamento abusivo?” pode parecer simples, à primeira vista, mas não é. Poderia responder a ela com uma lista de características para você ir ticando e, se assinalar um número X  de quadrinhos, te mandar terminar com o parceiro. Mas isso não iria te libertar por completo.

Sabe por quê? Porque talvez você se meta em outro relacionamento abusivo se não buscar uma mudança profunda, uma compreensão das razões pelas quais você aceitou uma relação assim. Veja bem: uma mulher (ou homem) que se encontre repetidas vezes em situações de violência ou abuso vai se enxergar com naturalidade dentro deste tipo de situação. Estou falando em pessoas que saem de uma relação violenta e logo entram em outra. Pessoas que parecem não conseguir escapar dessa teia repetitiva de agressões.

Em geral, os motivos de permanecer numa relação abusiva nos remetem à história primitiva da paciente, quando ela, lá na infância ou adolescência, desenhou os traços de sua personalidade, decidiu quem seria o seu “eu”.

Vai um exemplo: tive uma paciente, certa vez, que vivia uma relação bastante agressiva. Muitas de suas amigas diziam que ela estava num relacionamento abusivo, que o namorado dela era um imbecil, etc. Nenhuma dessas falas, porém, foi transformadora, pois elas polarizavam de maneira maniqueísta o discurso e não a ajudavam a lidar com o fato de que, apesar de tudo isso, havia momentos em que ele era um cara legal, e de que ela gostava dele. Somos seres com conflitos, pasmem!

No fim das contas, ela percebeu que, por não saber lidar com a própria agressividade,  encontrava naquele relacionamento algo que considerava importante. Se eu tivesse me juntado a esse coro simplista, chamando o namorado de abusivo, e dando a ela o lugar apenas de vítima, daria a ela uma satisfação momentânea, mas não duradoura. Através da conversa e da análise, ela foi entendo essas questões complexas, e descobriu a possibilidade de escolher os rumos da própria vida.

Essa transformação tem que ser criada pelo próprio indivíduo, só assim terá valor. Por isso os manuais que você encontra por aí não resolvem o problema: é preciso tempo, paciência, rede de apoio, análise interior. Não importa o que o mundo diz a ela, importa o que ela diz a si mesma.

Acho importante esclarecer que a pessoa que está numa situação de violência recorrente não busca isso porque quer, como dizem alguns machistas por aí, mas porque sua imaturidade emotiva não permite que ela lide com a agressividade de forma saudável. Desta maneira, a agressividade é vivida pelo parceiro e isso cumpre uma função psicológica para ela. Como falamos pouco disso, uma mulher nessa situação se sente uma idiota por ficar com um cara que abusa dela. Mas ela não é.

Vale a gente se questionar por que, então, existem mais mulheres vítimas dessas relações do que homens. Isso acontece porque o abuso psicológico entre um homem e uma mulher reproduz alguns estigmas sociais – homem forte, agressivo, e mulher fraca, vítima. O maior potencial da terapia é, inclusive, possibilitar que a mulher sinta-se forte o suficiente para escolher outros lugares que não o da mulher fraca vítima. O trabalho psicanalítico é um espaço privilegiado de escuta, acolhimento e empoderamento, neste caso, feminino.

O empoderamento vem naturalmente como resultado do conhecimento de si, na sua capacidade de conhecer sua história de vida nas sua dores, amores e necessidades.

Uma mulher que está numa situação de violência física ou psicológica, precisa urgentemente de ajuda para entender porque que ela está onde está, só assim haverá potencial para verdadeira transformação. Ela também precisa de uma rede de apoio, para saber que não estará só quando tomar as rédeas da própria história. Foi por isso que a Associação AzMina de Jornalismo Investigativo, Cultura e Empoderamento Feminino decidiu criar dois grupos de apoio psicológico e legal para mulheres que estão, estiveram ou suspeitam estar em relacionamentos abusivos. Eu sou a psicanalista responsável por esses grupos em São Paulo, onde resolvemos começar, e recebo inscrições de interessadas no email mackrates@gmail.com, com absoluta discrição.

Mas, poxa, Laura, agora você complicou. Se não conseguimos definir assim, no ato, o que é um relacionamento abusivo, como é que eu vou saber que devo me inscrever nesses grupos? Você não precisa ter certeza de que está num relacionamento desse tipo para participar, pode vir com a gente e descobrir.

O comportamento abusivo é expressão de uma relação não saudável entre duas pessoas. (Vale dizer, aliás, que as duas se beneficiariam muito de acompanhamento psicológico, pois ambas escolhem viver em um ambiente nada saudável.) Mas a grande complicação é a coexistência do amor e do ódio e o incômodo que isso gera.

O que encontro são sinais de relacionamentos doentes, em que há pouco lugar para o outro. Por isso a necessidade de controlar o comportamento, a vestimenta da mulher; o ciúme excessivo, entre outras coisas. Há também a necessidade de denegrir e fazer com que a parceira deixe de encontrar amigos ou familiares, pois tudo que está fora do casal é visto como uma ameaça. Não pode haver espaço para “o mundo”. Existe o controle excessivo de telefonemas, e-mails e mídias sociais, críticas constantes, xingamentos, intimidação por meio de atos agressivos, manipulação, entre outros. Mas só poderemos, de fato, desfazer essa complexa teia num trabalho minucioso no dia-a-dia da clínica. Só através do trabalho analítico poderemos responder a essa pergunta tão complexa, tão íntima e tão importante. Vamos?