Toda sexta-feira a Revista AzMina publica um capítulo do romance de folhetim “Pequenas Esposas”, de Fabiane Guimarães. Leia os capítulos anteriores aqui.

Foto de Luci Correia

Foto de Luci Correia

E la ainda não tinha certeza. Enterrada no quarto de brinquedos, enquanto Matias ocupava-se de seus assuntos de fazenda, passou a tarde inteira tremendo de dúvida. Torceu, no fundo, para que o sol ficasse para sempre: não sentia mais empolgação, só a volta do medo, uma vez sozinha com a pilha de bonecas de olhos congelados. Tirou apenas uma da prateleira. Uma criatura de porcelana com miolo de pano, pequena e frágil. Protegeu o brinquedo nos braços, aferrou-se à criaturinha de mentira, mas não brincou. Brincar parecia inútil.

Da janela dava para entrever um pequeno pedaço do lado de fora e o desfile incessante de homens sem camisa, suados e empoeirados, carregando sacos nos ombros. A menina olhava para eles esperando ver o pai surgir. Achava que ele voltaria para dizer qualquer coisa, conferir se ela estava gostando e explicar a transfusão de lar – ele não voltou.

Em pânico, depois de um infinito de horas, Maria foi vendo o quintal escurecer. Ouviu os grilos, cantando como cantavam na roça, predestinando que logo seria noite cerrada, e soube que era verdade que agora ia morar ali. Matias entrou atirando fora as botas e o cansaço em um fôlego só. As lâmpadas da casa também não tinham força para vencer o escuro, o lugar tinha ainda mais jeito de assombrado. O patrão chegou chamando alto por Maria Vicentina, só para encontrá-la no mesmo lugar onde havia deixado, abraçada ao pequeno bebê de porcelana. Desta vez, não soou pássaro encantado. Parecia aborrecido.

“Vá banhar. Tire essa inhaca. Vista uma das roupas novas que separei”, mandou.

Na roça, Maria Vicentina costumava tomar banho no pequeno e único banheiro de concreto cru, esbaldando-se com a água quente que jorrava do chuveiro esquálido e o cheiro do sabonete barato – uma viagem regrada pelos gritos dos irmãos na fila. No banheiro de Matias, teve vergonha de tirar o vestido. Era um cômodo opulento e desgastado, decorado com azulejos que poderiam ter sido brancos e um enorme espelho manchado levando a outras dimensões de riqueza. Havia também uma banheira de metal onde a menina poderia querer se mergulhar, em tempos mais felizes. Resignou-se em abrir a ducha, vacilando com o esforço de girar o registro pesado de ferro, e deixou a água escaldante lavar a sujeira, levando pelo ralo a mágoa da viagem. Quando descobriu o sabão, de uma qualidade tão rara e perfumada que vinha guardado na caixinha de vidro, começou a se limpar como a mãe tinha ensinado há tanto – não tinha tempo para banhar todos os filhos, precisava que eles soubessem sozinhos. Gostou do perfume requintado, da suavidade da espuma na pele, e começava a sentir conforto quando Matias entrou, com brutalidade, estacando na porta.

Ele a avaliou, desprezando o grito infantil e o terror da exposição.

“Não sei pra quê esse chilique”, declarou, apreciando a natureza ainda em estado de erupção. “Somos marido e mulher agora. Eu tenho que ver tudo.”

Maria Vicentina protegeu-se com a espuma perfumada, colando-se à quina gelada dos azulejos, tentando atravessar a parede e fundir-se à estrutura. O olhar de Matias, pesando cada detalhe de seus contornos impúberes, fazia gelar por dentro. A nudez era muito natural quando era mais nova, brincando com os irmãos em bacias de água ou nadando no rio, até a mãe determinar o que era certo e errado, dizendo que o que ela tinha entre as pernas devia ser escondido. Não entendia que a nudez pudesse ser uma parte que não era só sua.

“Só vim avisar que a janta está pronta”, o homem acabou por bufar, insatisfeito.

* * *

Ele cozinhou uma panela de arroz com carne seca. Refeição modesta, que ela engoliu em pequenas colheradas. Comeram sozinhos na mesa de jantar. Maria Vicentina sentia o aborrecimento de Matias pesar na nuca, ainda que ele sorrisse, de vez em quando, ao vê-la raspando o fundo do prato para aparar as lascas de carne e cebola. Faminta, a menina. Uma pequena morta de fome que ele abrigava sob suas asas, tão bom e justo que era. E o que pedia em troca? Apenas um pouco de amor.

É só isso que eu quero, Maria. Amor. Acha que pode me dar amor?

Maria Vicentina olhava para o próprio colo. As mãos trêmulas trançadas em um nó de suor.

“Vem para cá”, ele pediu.

De cabeça baixa, sempre, trotou até a cabeceira da mesa. Ele a sentou no colo, fungando em seu pescoço molhado e tentando aplainar seus cachos rebeldes. Falava em um tom pastoso, de quem se obriga a manter o controle de uma raiva estocada e antiga. Maria sentia o peso do corpo disforme. Sentia-se repelida, com uma urgência inesperada de se esconder. Seus joelhos ossudos flutuavam a poucos centímetros acima do chão, acima dos pés calosos.

“Hoje eu fiz comida. Amanhã, você faz. Sua mãe te ensinou a cozinhar, não ensinou?”

Fez que sim.

“Pois bem. Quero que engorde. Está muito magrinha ainda. Vai voar, desse jeito.”

“Meu pai…”

“Esqueça seu pai. Você tem que aprender a me obedecer”, rosnou, para depois serenar as sobrancelhas com uma ideia repentina, como se disfarçasse a espera: está na hora de deitar, não acha não?

Aquele foi o momento em que ela sentiu o terror em sua expressão genuína, porque não era inocente a ponto de ignorar o que os homens faziam com as mulheres, quando as portas estavam fechadas e o escuro assaltava os quartos. Os irmãos comentavam sobre o assunto em códigos indecifráveis que ela não entendia (e nem queria). Falavam sobre os gritos que a mãe deixava escapar, noite adentro, quando era dia do pai vir – barulhos que estremeciam os telhados. O pai nunca falhava no estranho ritual, cujos detalhes ignorava. É igual uma dança, provocava um dos irmãos, quando ela perguntava. Mas a mãe gritava, urrava, o pai gemia como um cachorro enraivado e Maria Vicentina tinha era medo daquela festa particular que só parecia machucá-los.

Se Matias era seu marido, então não demoraria a querer dançar com ela. Quis que a mãe tivesse explicado o que aconteceria. Ou que o pai tivesse voltado para deixar um último abraço. Um abraço que fosse. Em vez disso, foi arrastada pelo corredor da casa fantasma, suplicando para o escuro uma prece esquecida. Painossoqueestaisnoscéus.

Maria Vicentina chorava, mas não sentia que chorava porque estava mesmo muito escuro e tudo que ela escutava era o som da própria respiração vazando pelo nariz. Matias tirou a camisa enquanto ela tentava sumir dentro dos travesseiros. Com o tórax flácido exposto –consistência gelatinosa, algo derretida – ele se interrompeu no gesto de tirar a calça. Mudou de ideia no meio do caminho, frustrado pelo desejo ausente. Praguejou baixinho.

Poucas vezes tinha acontecido com elas, as pequenas esposas – estava contaminado pela tristeza da menina, vai ver, cheio de expectativas tombadas.

“Você tem que aprender a fazer as coisas”, foi o que disse, ao deixar o quarto e bater a porta.