Toda sexta-feira a Revista AzMina publica um capítulo do romance de folhetim “Pequenas Esposas”, de Fabiane Guimarães. Leia os capítulos anteriores aqui.

Foto: Omar Alnahi/ Creative Commons

Foto: Omar Alnahi/ Creative Commons

Matias contratou um novo caseiro, um tal de Tião, que trouxe a esposa a tiracolo. O patrão não costumava deixar que os funcionários carregassem a família para o trabalho, trazia desconforto, mais gastos e alheava do serviço, mas achou que faria bem à menina conviver com outra mulher – quem sabe assim tirava da cabeça as ideias ruins e parava de falar no sonho, quem sabe assim aprendia. Incomodava o sofrimento manso da garota, o jeito como não revisitava o quarto de brinquedos, mal abria a boca pra cumprimentá-lo e comia menos que um passarinho. Ele era um homem rude em matéria de sentimentos e não tinha paciência para a tristeza, tampouco achava que era caso sério. A fazenda, por outro lado, era um ambiente hostil e masculino. Faria bem, sim, ter uma senhora para Maria Vicentina seguir de exemplo.

Quando Geraldina aterrissou na cozinha, criticando a sujeira do chão e o estado das panelas, Maria fez foi encolher de pavor. A mulher tinha a sombra dos gigantes e anunciava-se de longe, voz grossa escapando alto pelo nariz. Tião tratou de preveni-la do gosto do patrão por moças jovens mas, se chegou a se comover com a pouca idade de Maria, não deixou transparecer. Estava acostumada às durezas dessa vida e não tinha qualquer pretensão de adular uma garota que estava feita. É o que disse, aliás, quando a encarou com os olhos esbugalhados, translúcidos de coriza. Essa vida aqui tá fácil. Tem quem te sustente. É melhor não reclamar pro meu lado não – foi deixando claro.

Matias tinha dado o aval para que ela promovesse, ao preço de um salário mínimo, a ordem na casa, com as liberdades que fosse. De forma que sempre trazia seu perfume doce e enjoativo para dentro quando dava o pontapé inicial no trabalho predileto: iniciar Maria Vicentina na arte doméstica. Ela mesma não fazia muito, queixando-se de dor nas costas enquanto a menina esfregava o chão. Onipresente, vigiava de perto se os dedos minúsculos poliam de forma correta a louça, ensinava a depenar um frango e a lavar de forma correta os lençóis amarelados. No meio tempo esperava sentada, esticando os joelhos inchados e acendendo cigarros de palha. Às vezes sufocava com a fumaça e tossia, uma tosse rascante e venenosa, arrancando pedaços da garganta e cuspindo no terreiro.

Os presentes (vestidos e sapatos) que Matias havia prometido vieram apenas quando Geraldina se dispôs a comprá-los na cidade, jogando no colo de Maria Vicentina com despeito. A menina não agradeceu por qualquer uma das peças de roupa, pequenas ou grandes demais para seu corpo magrelo: odiava a todos na mesma medida e não havia tecido que a convencesse de ser feliz.

***

Geraldina gostava de dar festas, pequenas reuniões após o expediente de sexta, quando os homens cansados ainda não tinham pegado a boleia do caminhão. Aparecia de batom vermelho e largos vestidos de algodão, pedia que o menino Renan, um adolescente sardento de dedos compridos, tocasse lá o violão. Renan queria ser cantor sertanejo, a oportunidade valia. Sacudindo as pernas ao ritmo da moda, sempre sentado e com um copo de cachaça na mão, Matias ria. Gostava do embalo, das conversas, quando era menino a fazenda era assim, era bom ter de volta gente com talento para a farra. Maria não participava da roda, esperando encolhida pelo momento em que o marido viria caçá-la, ricocheteando nas paredes: quando transpirava álcool, falava embaralhado e exigia gritando, quando estava bêbado procurava o afeto com mais violência. Ela passou a odiar as reuniões, as risadas, o violão e até os copos vazios, enfileirados, que ia catar no dia seguinte aos cacos.

Na cama, Matias tinha a sua cota de abraços. Por sorte, nunca durava muito – explodia rápido, para logo depois rolar e deixar que a menina dormisse. Era uma obrigação passageira e não exigia muito mais, exceto quando ele inventava de mendigar carinhos além do colchão. Coisa que Maria Vicentina ainda não estava disposta a dar: quando a boca vermelha procurava a sua, fora do quarto, virava o rosto. Uma conduta que Geraldina reprovava.

“Tem que aprender a agradar o marido seu”, ela protestava, revoltada diante da frieza da pretinha. O patrão não merecia aquilo.

Foi com a desculpa de que precisava fazer algo para agradar Matias que a mulher anunciou, em um sábado ensolarado, que daria jeito de Maria ficar bonita. Bonita como eu, explicou, envaidecendo-se com os cabelos retos tingidos de vermelho. Encolhida, a menina teve que se sujeitar ao tratamento de beleza que consistia, em primeiro lugar, em um corte de cabelo. Com a tesoura enferrujada, Geraldina picotou os cachos negros, que Maria Vicentina aparava conforme caíam, para ter noção do abandono. Ficaria careca? Não, porque menina de cabelo curto é feio e parece menino – explicou a outra, rindo pelo nariz – só estou diminuindo um pouco essa maçaroca, só falta ter piolho.

Depois das tesouradas, tratou de desembaraçar os fios, com força e sem a menor sutileza. Com a cabeça baixa, sentindo os dedos do pente abocanharem a nuca, Maria Vicentina deixava escapar pequenos gemidos. O próximo passo seria espalhar, no cabelo eriçado, um creme pastoso e fedorento arrancado direto do estoque pessoal: alisante. Tem que esperar uns vinte minutos para fazer efeito, disse Geraldina, permitindo que a menina descansasse. Maria colocou o dedo na massa que empapava sua cabeça, causando comichões no couro cabeludo, e sentiu a consistência gelatinosa, com cheiro de esgoto.

O perfume nauseabundo ficaria flutuando ao redor mesmo depois de enxaguar a substância. Com um secador barulhento e esfumaçado, Geraldina finalizou o trabalho, espalhando calor pelo pescoço e as orelhas, mas não se fez de satisfeita: faltava.

“Coloque a cabeça aqui”, mandou, apontando a borda de concreto do fogão a lenha, apagado porque há muito não o utilizavam.

Maria Vicentina hesitou, mas a outra já arreganhava as mãos com brutalidade. Com o pescoço latejando, deixou a cortina de cabelo negro assentada cair sobre a borda do fogão enquanto, com um ferro enegrecido ligado na tomada, Geraldina passava os fios feito roupa. O cheiro de queimado insinuou-se até o nariz da menina, foi sentindo os músculos repuxarem nos ombros em resposta. Os ossos pequenos estalando. Rezou para acabar rápido.

O resultado, contudo, deu calafrios em Maria. Viu-se no pequeno espelho com moldura laranja. Achou-se bonita pela primeira vez, o cabelo liso escorrido, assentado, como as atrizes das novelas, até uma franja, cortinando o olho. Geraldina tinha acertado, era um milagre, pagava a língua.

“Agora está parecendo gente”, concluiu a mulher, satisfeita, indo gritar na janela da cozinha por Tião.

O caseiro tinha jeito de cachorro sarnento: sempre coçando os cabelos ralos cor de palha, o pescoço vermelho assomando das camisas largas demais. Era um fiasco de homem, Maria não sabia como é que ele tolerava aquela esposa em dobro, devia ser por falta de energia para alcançá-la lá no alto, na estratosfera de sua autoridade. Humilde e simpático, veio trotando para conferir o que é que Geraldina tinha feito desta vez. Os olhos aguados aprovaram de imediato. E num é que ficou ajeitada?

Matias, chegando do quintal no restinho de dia, também comemorou o trabalho, para orgulho da cabeleireira. Cresceu em elogios pela eficiência da governanta, e descarregou em Maria uma montanha de adjetivos pegajosos – linda. Uma princesa. Eu sabia que você era linda. Encorajado pela aparência domada, morreu de amor montado nas costas magras.

Quando ele adormeceu, exausto de felicidade, a menina apalpou o novo cabelo – que não era tão sedoso ao toque quanto parecia – voltando a ter raiva. Percebeu que não queria ser bonita. Não para ele, não para o mundo que não era feito para gente como ela. Caminhando na ponta dos pés até a cozinha, onde os instrumentos do trabalho da governanta ainda repousavam, encontrou fácil a tesoura. Sorrindo para o escuro, sem dó de arrancar o que não era seu, começou pela franja.