Toda sexta-feira a Revista AzMina publica um capítulo do romance de folhetim “Pequenas Esposas”, de Fabiane Guimarães. Leia os capítulos anteriores aqui.

Foto: Lamiavitadimerda / Creative Commons

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At parties I point to my body and say
This is where love comes to die.
Welcome, come in, make yourself at home.
Everyone laughs, they think I’m joking.” – Warsan Shire

Arthur esperava pela mãe acompanhando as passadas nervosas do diretor dentro do cubículo, regia uma orquestra imaginária toda de sapatos. O homenzinho ansioso não conseguia segurar o estresse nas pernas. Sufocado de histeria, ainda caminhando em círculos, tinha feito um sermão de meia hora e prometido que insistiria até que o moleque virasse homem e parasse de andar com gente errada. O problema: naquela escola, ninguém era gente ainda.

Não seria surpresa, é claro. A mãe sabia, de longe e com suspeita, sobre as amizades alarmantes do menino, aos 12 anos. Garotos mais velhos, quatro séries acima, que ainda permaneciam no colégio por estratégia, uma encruzilhada com fins de comércio – causavam terror nas professoras e sentiam prazer na aprovação, ano após ano, sem notas suficientes. Uma cabeça mais baixo, mas de língua ferina e ligeiro, Arthur era uma espécie de mascote. Deixavam que desse uma cheirada no lança, na esquina antes de casa, que tragasse dois dedos do baseado e até cogitavam, na reunião do bicicletário, se deviam considerá-lo para avião. Era obediente, sabia correr, de índole macia e confiável. Voaria longe.

Marcela não brigava com o menino. Não com seriedade. Adiantava, brigar? Às vezes, deus que a perdoasse, arrependia-se de ter desistido da ideia de deixá-lo para adoção. Agora, com o garoto crescido, era impossível voltar atrás. Arthur agradecia a sinceridade. Tinham uma relação que o diretor considerava digna de repreensão, conselho tutelar, só porque não havia barulho, ranço ou movimento.

A verdade é que ele amava o jeito dela de não reagir segundo a cartilha restritiva dos outros pais, com gritos e castigos. Sem mentalidade de carrasco. Todas as noites acabava sozinho, desde os nove anos. As vizinhas (babás improvisadas) comentavam, torciam o nariz, ofereciam um corte de cabelo ou um pedaço de torta. Diziam da outra as verdades todas: era uma mulher completamente inadequada para a maternidade. Da parte de Arthur estava perdoada, porque ele adorava a liberdade de ser só.

Era assim que tinha se criado, em cada parada por alguma cidade periférica daquela capital-mãe, um avião de primeira classe que não tinha lugar para eles. De Santa Maria a Brazlândia. Há pelo cinco anos, Ceilândia. Moravam em quitinetes abafadas por telhas de ardósia, nas quais a quentura do cerrado esfolava o corpo; em quartos pestilentos e apertados, a pobreza sobrava em doses calculadas de espaço. A sorte é que a mãe era bonita e, por isso, nunca faltava comida. Arthur entendia muito bem o que ela fazia para ganhar dinheiro, porque nunca tinha mentido e o menino já sabia da vida, graças aos amigos da rua.

Pai, ele não conhecia. O assunto era proibido, um segredo que doía. O menino havia sido feito – de acordo com as lembranças levantadas a muito custo – longe e cedo. Ela tinha dezesseis anos na época que pariu, foi a avó que deixou escapar, quando era viva, ruminando a decepção. Arthur sabia que se tratava de um homem rico, dono de terras (a avó lamentava demais, quando era viva), e que se chamava Matias, como o santo que não era. Ele não fazia questão de conhecer o resto. Só esperava que não fosse um antigo cliente.

Os clientes de fato ela nunca trazia para casa, escondia nos bolsões noturnos de prazer, em espeluncas pegajosas. Eram generosos, fiéis, pagavam certinho o preço inflacionado. Morena de cabelo claro, Marcela gastava metade do orçamento descolorindo e afinando a aparência. Controlava o peso, tinha forçado o corpo a aprender a postura das modelos e treinara por anos a andar de forma sedutora empoleirada em saltos finos, impossíveis, triangulares. Ainda assim, passava longe da sofisticação da clientela mais importante. No seu ponto habitual, na Asa Norte, sondava: várias garotas confirmavam que o negócio mesmo era conseguir uns deputados, políticos, ministros da alta corte. Diziam que pagavam R$ 15 mil por noite. O que é que eu faço para chegar lá, perguntava. As colegas riam. Uma travesti veterana, com cicatrizes de companheiros violentos, tinha até zombado: queridinha, mais fácil eu conseguir chegar lá.

O caso é que as meninas do Congresso Nacional eram de outra galáxia, naquele mesmo universo de satisfações pagas. Faziam faculdade, viajavam para o exterior, falavam outras línguas. Moças de cultura, que sabiam discutir economia e política, distinguiam os aromas dos vinhos e massageavam os clientes no ego, citando suas aparições no noticiário, o andamento das questões sociais a que se dedicavam por exposição. Praticamente analfabeta, quase 30 anos e com aperto financeiro todo fim de mês, Marcela estava longe de se tornar essa mulher. Estava fadada a abrir as pernas para homens ordinários.

Mesmo que quisesse terminar o supletivo – que cursava aos trancos e barrancos, todo sábado – e começar uma faculdade; mesmo se tivesse a iniciativa, a persistência, ainda havia outro obstáculo. Não tinha com quem deixar o menino.

Às vezes sentia vontade de soltar aquele ódio represado, expulsar o moleque de casa, se já era macho suficiente para andar com bandido, quem sabe seria para sobreviver no mundo. Sorte que nenhum desses sentimentos revoltantes que deixava crescer no peito, no ônibus que sacolejava de volta para casa, às seis da manhã, sobrevivia ao chegar e vê-lo dormindo na cama de madeira que dividiam. Raiva de mãe murchava logo: só queria abraçá-lo a tempo de dormir também.

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Agora, Marcela não estava bem certa das coisas. As acusações do diretor chegavam tremidas como ele, terremoto de informação: o grau de envolvimento havia evoluído, você vai ter que tomar atitude. O menino flagrado com três cigarros de maconha na mochila. Também andava distribuindo energético com vodca para as outras crianças no recreio. Um dos garotos havia entrado em coma alcóolico hoje mesmo. Os pais estavam aterrorizados. A ambulância do Samu ainda restava estacionada em frente ao colégio quando ela chegou.

Sereno e melancólico, com o gosto rançoso do energético na garganta, Arthur não temia reprimendas. Não de sua mãe, sua parceira. O olhar que ela lançou, entretanto, foi de constranger o coração. Não era fúria ou medo. Não tinha nome.

Saíram de mãos dadas, pela porta dos fundos, sem trocar palavra. Pegaram o ônibus, desceram perto de casa, ainda flutuando naquele silêncio agourento. Com o rosto imóvel de preocupação, os pensamentos de Marcela vagavam por regiões inexploradas, tentavam arrancar uma solução, qualquer solução, percorrendo até os limites de sua inteligência. Ela esquentava o arroz com feijão e bife, ele a olhava do outro lado da mesa. Aturdido. O prato de vidro caramelo deslizou pela mesa.

Com o garfo nas mãos, Arthur brincou com o pedaço de carne, gordura amarelada. Não tinha fome. A boca, ressecada por causa do álcool, precisava de água, ele se levantou para buscar, mas ela o agarrou antes que chegasse ao filtro de barro.

“O que é que eu vou fazer com você?”, perguntou, chacoalhando-o com as duas mãos e ele viu que ela chorava, lágrimas grossas e pesadas que lavavam a maquiagem e deixavam um rastro de tristeza.

Então Arthur disse uma coisa que, depois, não conseguiu desdizer. Não era dele, explodir assim com ela, que era gente boa. Devia ser a vodca, garrafa barata, ainda estava meio bêbado. Deu que, enquanto era sacudido, sentiu a engrenagem da rebeldia voltar a ser acionada no automático, de forma que encheu o pulmão de raiva e respondeu:

“Me solta, sua puta.”