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Larissa entrega panfleto e explica campanha para rapaz na rua – Foto: Elisa Estronioli

“N ossa, essa cidade está tão perigosa assim?” – pergunta assustado o rapaz que acabou de chegar a Altamira, Pará, ao receber um panfleto escrito “Assédio é crime! Denuncie”. Surpresa é a reação mais comum das pessoas diante da campanha feita pelas mulheres do Levante Popular da Juventude na cidade que convive com os impactos da construção da hidrelétrica de Belo Monte. Elas sustentam: um dos efeitos da obra é o aumento do assédio em espaços públicos, o famigerado “fiu-fiu”, que chega a fazer as mulheres pensarem duas vezes antes de saírem sozinhas.

“Com a construção da hidrelétrica, veio uma quantidade muito grande de pessoas para cá, principalmente homens. Essa questão do assédio sempre existiu, pois é parte de nossa sociedade machista, mas aqui aumentou demais”, conta Aline Pereira, 24 anos, uma das articuladoras da campanha.

A ideia surgiu após uma das integrantes do coletivo ter sido vítima de cantadas agressivas vindas de um desconhecido na rua. “Ela estava no cais da cidade com uma amiga quando chegou um homem dizendo que elas eram muito lindas e gostosas e perguntando se queriam fazer programa”, diz Aline. A partir daí, as meninas começaram a denunciar o problema pelas redes sociais. Com a repercussão, decidiram ir para a rua.

Munidas de alguns panfletos e lambe-lambes, elas buscam conscientizar homens e mulheres de que o assédio sexual em lugares públicos também é violência contra a mulher.

As principais vítimas desse tipo de assédio, dizem elas, são mulheres jovens, crianças e adolescentes. “Aqui é normal meninas de 14, 15 anos serem assediadas por homens mais velhos e também saírem com eles. Meninas que ainda não entendem o que está acontecendo e entram numa relação que é pedofilia. Aqui, com a minha idade você já está velha para sofrer assédio, as principais vítimas são as ‘meninas do balé’ (10 a 14 anos)”, diz Larissa Santos, de 19 anos.

“Eu moro ao lado de um bar e penso duas vezes antes de sair de casa, principalmente aos sábados, ou nos dias do pagamento, quando os trabalhadores que moram nos alojamentos dentro do canteiro de obras vêm para a cidade. Quando saio com minha irmã mais nova é como se eu estivesse arrastando um pedaço de carne pela rua. E ela tem 11 anos”, diz Alice Lacerda, de 18.

Entre 2012 e 2014, auge das obras da hidrelétrica, Belo Monte chegou a ter mais de 27 mil operários em seus canteiros. O consórcio Norte Energia, liderado pelo grupo Eletrobrás, divulgou que as obras atingiram um recorde na quantidade de mulheres contratadas, cinco vezes mais do que o percentual normalmente registrado em obras de construção civil: 15% de mulheres, contra uma média de 3%.

Embora as mulheres ocupem cada vez mais espaços, a maior parte dos trabalhadores ainda são homens e isso se reflete em machismo dentro do ambiente de trabalho. Ao fazer um estágio em técnica de segurança dentro do canteiro, por exemplo, Larissa vivenciou situações desagradáveis. “A primeira coisa que meu superior falou foi para não ir com roupa curta, só usar roupa folgada, não sorrir nem dar bom dia para ninguém. Eu entendi que ele estava me responsabilizando por qualquer coisa que acontecesse comigo lá dentro, como se o assédio fosse por causa da minha postura ou da minha roupa”, conta.

Violência contra a mulher

Com Belo Monte, Altamira viu sua população pular de cerca de 100 mil habitantes para mais de 150 mil em menos de três anos. Com o inchaço, vieram os impactos: aumento do custo de vida, da insegurança no trânsito, da dificuldade de acesso à saúde e da violência.

De acordo com dados compilados pelo Instituto Socioambiental, o número de homicídios na cidade é de 57 para cada 100 mil habitantes – cinco vezes mais que a taxa considerada “não epidêmica” pela Organização Mundial da Saúde. No ano de 2015, mais de 80 pessoas foram assassinadas na cidade.

Os dados da delegacia da mulher de Altamira mostram um recorde de notificações de violência sexual em 2012 e 2013, no auge da construção da obra, 42 e 47 casos respectivamente. Em 2014 foram registrados 25 casos de violência sexual e em 2015, 24.

Alguns argumentam que, apesar da percepção geral de aumento da violência contra a mulher na cidade, não é possível estabelecer uma conexão precisa com Belo Monte, pois se trata de um crime com elevada taxa de subnotificação. A delegacia não computa dados de assédio propriamente dito. Na falta de fontes locais, as meninas produziram um panfleto com informações da campanha Chega de Fiu Fiu e de pesquisas do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), como “85% das mulheres já tiveram seu corpo tocado sem permissão publicamente” e “para 26% dos brasileiros, mulheres que usam roupas mostrando o corpo merecem ser atacadas”.

Desde o ano passado, com o final das obras civis da barragem, grande parte do contingente de operários de Belo Monte tem sido desmobilizada. Em 2015 foram fechadas mais de 19 mil vagas de emprego com carteira assinada na cidade, o que colocou Altamira entre os 10 municípios do Brasil com mais demissões. “E, hoje, mesmo com as obras terminando, continuamos sentido o problema, parece que é algo que veio para ficar”, diz Aline.

Enquanto entregam os panfletos e colam os lambes pelas ruas, as jovens do Levante Popular da Juventude conversam com as pessoas e explicam do que se trata a iniciativa. Mesmo neste momento, elas continuam sentindo na pele o problema que querem denunciar. “É assim: você distribuindo panfleto e os caras olhando para a sua bunda, mexendo”, diz Aline. “Você se sente mal por estar sendo vista como objeto sexual, mas poder entregar um panfleto para essa pessoa já é um passo para que ela reflita”.