E screvo esta carta para você que nos rotulou — redijo-a por quem não pode mais redigir, ou nunca pôde — antes de nos conhecer: as mulheres trans e travestis, as estranhas, as doentes, as ridículas, as putas, as feias, as sujas, as fedorentas, as fodidas, as nojentas. Você acha que nos conhece melhor do que nós a nós mesmas.

Estamos em 29 de janeiro, Dia Nacional da Visibilidade Trans, e você bateu seu recorde: desde o primeiro de janeiro, Dia Internacional da Paz, você matou mais de 50 de nós. Mais de cin-quen-ta travestis e mulheres trans assassinadas em vinte e nove dias. Isso dá, pelo menos, duas execuções por dia. Parabéns, carniceiro. Você conseguiu aumentar a eficácia de algo que era deveras eficiente: o feminicídio trans.

Estamos em janeiro, o ano começou mal. Fomos punidas por sei-lá-o-quê que você considera errado. Nossas vidas foram esmigalhadas em nome de seus pequenos prazeres descompromissados, de sua satisfação em fazer o que você acha que é correto, limpo, bom. Você quer ser aplaudido por nos marginalizar, negar nossa existência e, por fim, destituir-nos o direito fundamental à vida? Você não passa de um imbecil que acha que nos apresentaremos a você da maneira como você nos vê, dentro de suas definições reducionistas e termos convenientes.

Você até impediu, na Casa do Seu Povo, que o genocídio — não posso falar apenas em extermínio, porque o que se quer, com essas mortes, é extirpar-nos do solo brasileiro — de mulheres trans e das travestis não fosse considerado, no texto da Lei, como feminicídio.

Você continua sendo um honrado chefe de família, que nos insulta, bate em nós, nos bota na cadeia e nos estupra. Mas pra você isso é educação. Enfim, se não nos mata, expulsa-nos de sua casa, sua propriedade. Como não quer ter em casa uma pessoa destinada à prostituição, nas suas palavras uma prática repugnante, tira nosso direito a um teto, para que a rua nos adote logo.

Aliás, você continua sendo um cliente fiel, que paga pouco para que aluguemos nossos corpos para você. Somos baratas para você, mas geralmente você reclama do preço. Não nos suporta ver fora do ponto, trabalhando como suas médicas, suas jornalistas, suas professoras, suas motoristas, suas vendedoras, ou pior, suas clientes.

Você continua sendo um sábio professor, que nas salas de aula prende bem as rédeas das crianças e adolescentes que você diz domar. Mantém as meninas no pasto das meninas e os meninos no pasto dos meninos. Pinta o mundo de todas e todos nós de azul e rosa, bem quadradinho; ensina que vivemos numa república democrática na qual todos-são-iguais-perante-a-lei-blá-blá-blá e fecha os olhos nos momentos em que os que não se enquadram na sua régua são perseguidos, ridicularizados e agredidos pelas outras crianças e adolescentes — e nem precisam ser trans para serem violentados, sob o silêncio conivente de seu cargo.

Qual é a diferença do regime de sua escolinha para o do Apartheid?

Você continua tendo um trabalho digno no qual não somos tratadas pelo nome e gênero com o qual nos reconhecemos; ignora Constituições e Leis para criar empecilhos, imprevistos aos demais cidadãos, para o nosso bem-estar e dignidade. Você é conhecedor das burocracias e se regozija em obstaculizar nosso cotidiano. Você se tornou especialista em determinar quem pode ou não cagar e mijar nos “seus” banheiros, ou melhor, quem tem ou não direito a usar banheiros e outros espaços de uso público. Qual é a diferença do seu trabalho para o de um membro da Ku-Klux-Klan?

Você continua sendo um grande artista, que nunca nos pinta em suas telas, sejam elas de tecido ou de LCD. Quando quer nos retratar — tudo gira em torno do seu desejo — sempre encontra algum corajoso homem cisgênero para nos representar e “valorizar”, no entanto nega a mesma oportunidade para aquelas de nós que estão plenamente qualificadas.

Você nos “estuda” no seu “laboratório”. Você até “faz amizade” conosco. Empastela a cara e joga um vestido por cima pra dizer: eu sou trans. Você se acha inovador. Nossa transgeneridade é tratada como um recurso para o divertimento e “educação” das pessoas cis. Qual é a diferença da sua arte para a dos blackfaces?

Enfim, a maioria de nós é negra, num país estruturalmente racista. Até nisso você consegue apagar nossa diversidade interna, com sua habilidade ímpar em propagar estereótipos: a sua transfobia também é racista. Até na hora de se mostrar generoso com as pessoas trans você privilegia as brancas. Você nem cogita que as trans indígenas existam. Mesmo na periferia, você dá algum status de humanidade às trans brancas, jamais às trans negras.

Eu sei muito bem como funcionam seus métodos. Você me invisibilizou. Você me insultou. Você me perseguiu. Você me agrediu. Você me estuprou. Você me preteriu. Você me menosprezou. Você disse que até gostava de mim, mas que aquele não era o meu lugar. Porém, você não conseguiu me matar. Você falhou no seu plano final porque eu continuo viva e te denunciando, escrevendo mensagens que te incomodam e pesquisando como superar os limites desse vale de mortes que você semeia.

A pergunta que abre esta carta é retórica. Você dirá que o assunto não tem nada a ver contigo. Você dirá que os outros é que são transfóbicos, racistas. Você afirmará que se importa conosco, ao mesmo tempo em que fingirá que não tem nada a ver conosco. Orgulha-se disso, até, mas não passa de um carrasco que nem se esforça em limpar o sangue que lhe mancha as roupas.

Sem mais a acrescentar, subscrevemo-nos.

Lastimavelmente,

Nós, as sobreviventes