AzMina tem muito orgulho de anunciar que, a partir de hoje, começamos a publicar o romance de folhetim “Pequenas Esposas”, de Fabiane Guimarães. Toda sexta-feira, de agora em diante, você poderá acompanhar a história da brasileirinha Maria Vicentina, destinada a se casar na infância com um homem muito mais velho.

N inguém media o tempo das crianças na roça. Nenhum ritual acompanhava a passagem dos anos e os onze filhos de dona Luzia cresciam feito capim, selvagens e embaraçados, contando a idade pelo tamanho das pernas. A própria certidão de nascimento, que todos ainda calhavam de ter, era suspeita: o cartório mais próximo ficava longe e o pai, quando a mulher paria, tinha que ir andando fazer o registro. Às vezes, embalado no transe dormente da cachaça, esquecia-se de ir. Outras tantas, desviava de caminho pegando carona no lombo de um cavalo, parava para comprar fumo de mascar no trevo e só chegava três dias depois, pescando uma data da imaginação e arrematando o batismo na hora – quase sempre, em honra aos antepassados que dormiam naquele cerrado de ossos.

Maria Vicentina era a única menina entre os onze, por alguma falha fantástica de probabilidade, e trazia no nome homenagens em dobro. Antes, a mãe e a tia, as outras únicas do seu tipo que conhecia, viviam predizendo desgraças para além da infância, quando virasse mocinha. Diziam que a metade das coisas mais divertidas do mundo se acabariam, nada de correr na lama, brincar de pique e subir na goiabeira. Se ela era um bicho que de repente se tornava outro, não queria nem pensar em crescer.

Agora tinha 10 anos inteiros (segundo uma estimativa de pele) e já era moça pequena, porque as coisas começavam a mudar no ritmo lento e indiscreto da vida, para trazer as tormentas anunciadas de berço. Antes de brincar, havia de ajudar no almoço, arear as panelas e varrer a casa, depois lavar a roupa, catar o feijão e arrumar a mesa da janta. Via os irmãos passando com a bola debaixo do braço, correndo para o quintal, e amuava.

Menino homem não virava mocinho.

A existência era solitária e mudava conforme a necessidade pedia. Um casebre que ganhava emendas, depois um curral, outro galinheiro, mais uma fileira de legumes na horta, pequeno universo em expansão contra a fome. O pai passava os dias sendo caseiro da fazenda grande, só voltava nas beiradas da semana, para trazer as coisas que eles precisavam tanto e não podiam buscar. Chegava carregando o sol nas costas, as costelas pontudas visíveis sob a camisa esgarçada e transparente. Era recebido por dona Luzia ainda na porteira, com as notícias mais recentes desses meninos que não param de dar trabalho.

Maria Vicentina sabia que o pai vinha chegando quando sentia a nuvem enjoativa de perfumes, mistura de álcool, cigarro de palha e suor, e por muito tempo achou que aquele fosse o cheiro do amor. Amava o pai, com suas pernas compridas e seu rosto cabeludo, e é verdade que também amava quando ele ia embora. Não que fosse homem mau. Era só uma presença que chegava quando dava saudade, mas se permanecia fazia o tempo sombrear. Devia ser o silêncio. Papai é feito de pedra – caçoava Joaquim, o irmão mais velho – é por isso que ele não fala muito. Maria achava que o pai não falava porque não tinha dentes. Vai ver as palavras escorregavam na boca e ele tinha que engolir de volta. Ela nem conseguia imaginar o que devia ter naquele estômago cheio de coisas não ditas.

“Deixa de ser ridícula”, criticava Joaquim

Ela era esquisita. Gostava de olhar para o nada e matutar, o pensamento espiralava, sumia de vista. Fermentava dúvidas cruéis que faziam sua cabeça doer. Para onde a gente vai quando morre? Por que o céu fica escuro de noite? Por que as pessoas na televisão eram todas brancas e ela era preta?

“Quieta e vai dormir, Maria Vicentina”, resmungava a mãe, e as perguntas ficavam sem respostas, caladas por obrigação que nem os fantasmas.

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Nenhum deles sabia ler e escrever e no dia em que o tempo parou chegou na chácara a moça bonita em cima de uma carroça. Ela parecia brava. Maria ficou escondida, espiando tudo pela janela da cozinha. A mulher era a mais linda que já tinha visto, uma artista de novela, com vestido florido e cabelo loiro.

“Não tem como levar. E aqui eles não precisam disso não”, Maria ouvia a mãe explicar. Também estava brava.

A moça, afinal de contas, era uma professora. Maria Vicentina e os irmãos ficaram sabendo, tarde da noite, que dali a uma semana passariam a frequentar uma escola. Era uma novidade elegante e assustadora, ter aula, ninguém ali conhecia aula, só a tia, que tinha cursado o primário e explicou que a escola era um lugar para aprender. A professora prometeu que garantiria transporte e lanche. Dona Luzia passou a ver vantagem em ter os meninos longe de casa.

Maria, em particular, sentiu a ansiedade crescer dentro dela como uma bolha. Atormentava-se de medo de não conseguir aprender as coisas que precisava, de ser burra. Pensava nisso o tempo todo, desde a hora em que o galo cantava e ela ajudava a mãe a coar o café, até o momento em que preparava a janta, mexendo a colher de pau para engrossar a sopa. Eu vou estudar, repetia com a mão no queixo, salivando de ideias. De repente a professora dava um jeito dela deixar de ser burra.

Foi o retorno semanal do pai, porém, que estourou a bolha, a expectativa restou em cacos. Machucou como um chute na boca do estômago. Ele veio, ele e seu cheiro de amor e silêncio, arrastando o corpo magro até a mesa de madeira. O prato de alumínio esmaltado esperava pelando. Ouviu a novidade sem reclamar, engolindo a comida com os lábios crispados. Até erguer a cabeça, coçando a barba, pequena elevação na superfície da calma. Deixou o olhar cair em cima de Maria Vicentina, ela assistindo à pequena televisão abraçada aos joelhos.

“Esqueci. A menina não vai não”, anunciou. “Semana que vem vou levar ela pra fazenda.”

“E pra quê?”, a mãe questionou.

“Doutor Matias quer juntar com ela.”

Maria Vicentina congelou, já de cara vendo que era coisa ruim. Veio manso o desapontamento doído de saber que não iria à escola. Vai ser bom pra você – alegou a mãe, sentada na cama, à guisa de explicação – vai ter sua casa. Suas coisas. Vai viver melhor que aqui.

Nada foi dito a respeito dos 10 anos inteiros porque, sem medir o seu tempo, concluíram que era o suficiente.